
A maquiagem entrou muito cedo na vida da influenciadora digital e empresária Mari Maria, 33 anos. Ainda menina, diante do espelho, ela pegava os produtos da mãe e tentava suavizar as sardas que a tornavam alvo de bullying na escola. O gesto, mais abrigo do que vaidade, foi ganhando outro sentido com o tempo.
A virada aconteceu em 2014, quando ela decidiu levar suas experiências para o Facebook e o YouTube. No início, gravava vídeos para compartilhar técnicas que havia aprendido. Ao trocar vivências com outras pessoas nas redes sociais, passou a enxergar suas características não como algo a esconder, e sim como uma marca singular.
No meio do caminho, a maquiagem ganhou novos contornos: transformou-se em sinônimo de autoconhecimento, de força, e mais tarde, de projeção. Mais do que recurso estético, passou a ocupar um lugar de autocuidado e expressão pessoal, percepção que hoje orienta tanto sua comunicação quanto o desenvolvimento de produtos.
— Comecei a perceber que a vergonha que eu sentia não era só minha. Aos poucos, passei a me apresentar para mim mesma de outros jeitos e comecei a gostar — conta Mari Maria, que hoje vê a maquiagem como uma forma de reforçar a própria identidade.
Comportamento
Criação da própria marca
O sucesso dos vídeos e a vontade de levar essa experiência adiante levaram Mari Maria a dar um novo passo: criar sua própria marca de maquiagem.
A mineira, natural de Belo Horizonte, lançou em 2017 a Mari Maria Makeup, em sociedade com o marido, Rudy Loures, que a acompanha desde o início. Ao estruturar o próprio negócio, adotou uma estratégia alinhada à forma como sempre se posicionou: com foco em autonomia e identidade.
Nas redes sociais, Mari compartilha os bastidores do desenvolvimento dos cosméticos e explica as tecnologias por trás das fórmulas, aproximando ainda mais a comunidade que construiu ao longo dos anos. Hoje, soma mais de 21 milhões de seguidores no Instagram – alcance que também impulsiona a marca.
Em 2022, ela foi a única brasileira a aparecer no ranking da plataforma britânica Cosmetify, que lista os influenciadores de beleza mais bem pagos do mundo. Segundo o portal Meio & Mensagem, com base em pesquisa da Forma Turismo, a linha também figura entre as três preferidas da Geração Z.
Entre os lançamentos recentes está a linha de bases Hype Up, pensada para incentivar experimentação e liberdade na maquiagem, estimulando o público a personalizar resultados ao misturar tons, texturas e acabamentos.
— Trouxe justamente para abrir esse universo. Para as pessoas poderem criar mais, se divertir com a maquiagem, encontrar seu tom de base perfeito e poder fazer o que quiserem — reforça.
Resultado de todas as mulheres que a inspiram
Antes da empresária e influenciadora, existe uma mulher moldada por referências femininas e pela construção coletiva. Mãe de dois meninos – David, cinco anos, e Noah, quatro, Mari Maria reconhece nas relações que cultiva — dentro e fora do ambiente profissional — parte essencial da trajetória que construiu até aqui.
Para ela, o sucesso não é individual, mas resultado das conexões que a acompanham ao longo do caminho.
— Eu queria poder falar de todas as mulheres que me inspiram, porque são várias, principalmente no meu convívio. São mulheres que não necessariamente estão no front, muitas vezes participam mais do backstage. Eu sou o resultado de todas elas.
É desse repertório afetivo que nasce a mensagem que deixaria para si mesma no início da jornada:
— Se eu pudesse conversar com a Mari do começo, eu falaria: "Acredite na sua intuição e se mantenha em foco, leal ao que você acredita. Sempre aprendendo, entendendo, ouvindo e buscando pessoas alinhadas ao seu pensamento e àquilo que você acredita. Assim vai ser mais fácil de vencer cada batalha." — conclui.
Confira a entrevista com Mari Maria
Você já contou que começou a se maquiar muito jovem, tentando se proteger do bullying por causa das suas sardas. Em que momento essa relação deixou de ser uma forma de se esconder para se transformar em expressão autêntica? Essa percepção evoluiu depois que você passou a falar sobre maquiagem na internet e criou a própria marca?
Comecei a me maquiar com sete para oito anos. Parece que foi rápido, se você for pensar: "ah, ela deve ter aceitado super rápido as sardas dela", mas não. Eu demorei muito tempo. No tempo de escola, eu me maquiava muito. Para a faculdade, também. Comecei a aceitar minhas sardas quando comecei a fazer vídeos.
Tinha críticas que eu já ouvia muito, mas comecei a me identificar com outras pessoas. Comecei a ver que não se aceitar e ter vergonha de sair sem maquiagem não era uma coisa só minha. Era uma dor de outras pessoas também. As pessoas sentiam muito ao falar sobre pele, manchas, sardinhas. Que dava para realçar, dava para ver o lado bom das sardas. Muitos comentários que eu respondia vinham das minhas próprias seguidoras, que trocavam muito comigo e falavam: "poxa, Mari, faz uma make só com olhão e a pele com as sardinhas". Passei a me apresentar para mim mesma de outros jeitos e comecei a gostar.
Você acredita que a maquiagem tem o poder de transformar não só a autoestima, mas também a alma das mulheres. Como essa visão se traduz na forma como você desenvolve produtos e se comunica com seu público?
A maquiagem pode transformar a autoestima, mas muito além. Quando falamos sobre automaquiagem, falamos sobre autocuidado. Sobre você desenhar o seu rosto todos os dias. É sobre você se olhar no olho, coisa que, às vezes, não fazemos, né? Para se ver, ver nossos traços. É muito importante poder ter mais cuidado com nós mesmos para poder projetar isso para os outros. Pessoas que se cuidam, que têm um olhar mais delicado para si, conseguem cuidar do outro também com mais delicadeza. Pessoas confiantes, automaticamente, não precisam fazer ninguém se sentir mal, porque sabe exatamente quem é. Ela sabe que trabalhando junto com o outro, isso só aumenta.
Entrevistas
Por muito tempo, palavras como inovação, tecnologia e qualidade no universo dos cosméticos foram associadas a marcas internacionais. Na sua visão, o Brasil está avançando para se tornar também um mercado exportador forte de cosméticos? Ou já é? O que ainda falta para alcançarmos esse patamar?
Acredito muito no potencial do Brasil. O brasileiro é muito criativo e autêntico, mas isso independe só do querer. Temos que acreditar que o país vai estar junto, acreditando nesse potencial. Dá para cada vez mais ser referência, não só na área de maquiagem, mas em outras áreas. Precisamos que as pessoas estejam cada vez mais interessadas nessa construção.
Cada vez mais influenciadoras lançam suas próprias marcas de beleza. Por que você decidiu criar a sua do zero, em vez de optar por licenciamento com uma empresa já consolidada?
Sempre acreditei que as marcas precisam ter uma pessoa que fala, que comunica, que conta a história dos produtos, que mostra sobre inovação, que tem essa coerência com o público final. Por isso, quis ter a minha marca de forma independente. Queria garantir que tudo o que eu digo chegasse sem ruídos, totalmente alinhado ao meu público e às pessoas que gostam de maquiagem. Se tivesse uma outra pessoa junto seria mais complicado, porque poderia ter conflitos de interesses. A minha marca de maquiagem sempre esteve em um lugar muito pessoal. Meu marido é o meu sócio e sempre acreditamos em fazer a construção juntos. Sempre tivemos essa disposição para aprender e criar juntos. Acredito que se você encontrar um bom sócio, que vai estar com você nos momentos fáceis e difíceis, é importante. A marca tem que comunicar a história, uma verdade.
Trabalhando com o seu marido e família, é possível não misturar as coisas?
É inevitável, porque precisamos fazer o negócio avançar. Em momentos que não queremos falar sobre um assunto, mas é importante, acabamos falando e tentando resolver da melhor forma. Trabalhamos com uma comunicação mais assertiva, tentando ter muito carinho na hora de comunicar. É sobre ter transparência e objetivos muito claros. Estamos nadando e remando no mesmo rumo. Nem sempre vamos estar acertando, mas o importante é estar preocupado em fazer ajustes e melhorar.
Como você vê a responsabilidade dos influenciadores na formação de tendências e na autoestima das pessoas?
Acho que tem melhorado bastante. Eu os vejo mais preocupados com o que falam, com o que está passando, com a construção daquilo que estão fazendo. Temos muito para melhorar como um todo. Estamos cada vez mais trazendo conteúdos assertivos, querendo nos associar com aquilo que faz sentido para o nosso país.
Como mãe, criadora de conteúdo e empresária do setor de beleza, como você enxerga o interesse cada vez maior de crianças pela maquiagem?
Como mãe, vejo que a maquiagem é algo que chama atenção. Por isso, cada vez mais precisamos ter cuidado com as fórmulas, porque acontece da criança querer brincar. É importante ter sempre a orientação de um adulto e evitar usar todos os dias. Temos que estar sempre acompanhando com os especialistas. As crianças acabam tendo interesse. Eu mesma, quando era pequenininha, lembro de brincar com as maquiagens da minha mãe. Mas é algo que temos que tomar cuidado para as fórmulas serem cada vez mais limpas e para fazerem sentido para as pessoas usarem.
Você cresceu rodeada por mulheres, ao lado da sua mãe e de quatro irmãs. De que maneira esse ambiente feminino marcou quem você se tornou? O quanto leva disso para a criação dos seus dois filhos?
Sou a última filha de cinco mulheres, então minhas irmãs foram minha referência, inspiração, admiração maior, minhas melhores amigas. Desde pequena, sempre tive muito apego com todas elas, muita admiração. Elas me ensinam muito, e até hoje a gente aprende muito juntas. Então, a minha mãe e meu pai sempre trouxeram isso muito forte lá em casa, sobre sororidade, sobre cada uma manter o seu espaço, e como juntas a gente sempre foi mais forte. Então, isso me trouxe uma força muito grande dentro de mim, de querer ver brilho em outras mulheres, de querer trazer para o meu convívio outras mulheres, encontrar outras mulheres para me inspirar, então isso foi muito importante.
Como é a sua rotina? Quais rituais de autocuidado são indispensáveis para você?
Minha rotina é muito corrida, então os meus rituais são objetivos. Me exercito, me alongo, medito, faço minha oração, me conecto com aquilo que acredito. Em todos os momentos que consigo, eu faço. O meu ritual de autocuidado é sempre beber bastante água e lavar o meu rosto e os meus pés antes de dormir. Minha rotina de pele é voltada para o que ela está precisando no momento. Às vezes, precisa mais de hidratação ou está com uma área com acne. Depende do dia.
Que tendência de maquiagem você acredita que deve ganhar força neste ano?
Acredito que o que vai ganhar força é o maximalismo: você se divertir e conseguir criar coisas novas com maquiagem. Eu trouxe a Hype Up justamente para abrir esse universo. Para as pessoas poderem criar mais, se divertir com a maquiagem, encontrar seu tom de base perfeito e poder fazer o que quiserem.
*Sob supervisão de Lou Cardoso e Letícia Costa














