
O skincare coreano deixou de ser um fenômeno local para se tornar uma referência global, impulsionado pela combinação entre ciência e cultura. O sucesso passa por fórmulas inovadoras, foco na prevenção e na constância. No Brasil, algumas práticas já são implementadas, enquanto outras surgem como apostas com potencial de conquistar espaço no futuro.
Já observada em consultórios e nas prateleiras de farmácias e lojas especializadas, a tendência é confirmada pelos indicadores: as importações brasileiras de produtos para a pele fabricados na Coreia do Sul cresceram 57% em 2024, conforme o Banco de Dados de Estatísticas do Comércio de Mercadorias de Nações Unidas (UN Comtrade). Em nível global, as exportações de cosméticos sul-coreanos ultrapassaram US$ 10 bilhões no ano passado, segundo levantamento do Ministério de Segurança Alimentar e Medicamentos do país asiático.
— Acho que a pele das coreanas se tornou uma meta para muitas brasileiras. O que vemos das mulheres de lá é essa imagem de uma pele perfeita, com sinais mais amenos do envelhecimento, que parece uma seda. Tendo essa visão da pele linda que elas costumam ter, e sabendo dos produtos e procedimentos estéticos aos quais elas têm acesso, o k-beauty, como chamam, vai se popularizando aqui também — avalia a dermatologista Gabriela Horn.
Na Coreia do Sul, o cuidado com a pele é tratado como parte de uma rotina de saúde e bem-estar desde cedo, afirma a dermatologista Mariana Scribel. A especialista, que recentemente viajou ao país – com mais de 50 milhões de habitantes – para entender a tradicional maneira coreana de cuidar da pele, pontua que o skincare é visto como uma "filosofia de vida", e não apenas como uma tarefa necessária para melhorar a aparência:
— Para os coreanos, cuidar da pele faz parte de uma cultura milenar. Antigamente, as pessoas que trabalhavam no sol eram mais bronzeadas e a nobreza tinha a pele mais clara, porque ficavam protegidos da exposição. Para eles, ter a pele bem branca, sem danos do sol, significava status. Isso foi levado para a cultura deles e esse cuidado com a saúde da pele persiste até hoje.
O que define a rotina de skincare coreana?
Mais do que uma sequência rígida de passos, a rotina de skincare coreana se baseia em princípios como prevenção, constância e cuidado gradual com a pele. A lógica prioriza tratamentos leves, respeitando as necessidades individuais, com foco em manter a pele saudável ao longo do tempo, e não apenas em resultados imediatos.
Na internet, a rotina coreana costuma ser resumida aos chamados “10 passos”, mas, na prática, ela não funciona como uma regra fixa, afirma Mariana. Segundo a especialista, o cuidado básico das coreanas costuma envolver a remoção correta da maquiagem, a higienização adequada da pele, o uso de séruns e cremes hidratantes ou com ativos voltados a queixas específicas e, é claro, a proteção solar diária.
— Os coreanos usam vários produtos diferentes, mas não têm uma rotina tão extensa quanto o resto do mundo acredita. É um cuidado constante, preventivo, que eles fazem desde novinhos. Lá também está muito em alta a terapia regenerativa da pele, que são substâncias e procedimentos que conseguem reverter os sinais do envelhecimento das células — acrescenta a dermatologista.
Nos procedimentos estéticos, a lógica segue a mesma linha de sutileza. Segundo Mariana, as intervenções coreanas costumam buscar ajustes considerados delicados, como afinar o nariz, alterar a pálpebra, corrigir orelhas proeminentes ou devolver firmeza e viço à pele. Diferentemente do que é mais comum no Brasil, a proposta não é transformar drasticamente os traços do rosto, mas preservar uma estética natural.

Aprendizados aplicáveis à realidade brasileira
Nem todos os hábitos associados ao skincare coreano se encaixam automaticamente na realidade brasileira, marcada por diferenças culturais, climáticas e estéticas. Enquanto na Coreia do Sul a pele clara é historicamente valorizada, no Brasil o bronzeado costuma ser associado à beleza e ao bem-estar, o que torna pouco aplicável a busca por um tom cada vez mais claro. Ainda assim, outros aspectos dessa abordagem, podem servir como aprendizados relevantes para a rotina das brasileiras.
— Há alguns anos, as mulheres no Brasil focavam mais em tratar do que prevenir. Hoje, já observo claramente no consultório que as mulheres querem envelhecer bem. Está sendo uma mudança de cultura positiva no Brasil, elas estão buscando mais tratamentos para a qualidade da pele, como na Coreia do Sul — defende Mariana.
Para Gabriela, o principal hábito que as brasileiras deveriam importar das coreanas é a cultura da proteção solar. O câncer de pele ainda é o mais comum no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, e está associado a fatores como a alta exposição solar. Além disso, ela destaca a preocupação das asiáticas em tornar o cuidado como algo que faz parte da rotina.
— Um conceito que acho muito legal e que deveríamos ter aqui é o da constância. As coreanas não fazem algo intensivo, vários cuidados em um só mês. Elas têm essa constância, de fazer um pouquinho a cada dia. O skincare coreano está mais para um estilo de vida do que propriamente uma receita fixa. Elas fazem com tanto gosto, não é algo que elas enxergam como uma tarefa, é algo que elas gostam de fazer, como autocuidado — relata.


