Dinossauros. Chico Xavier. Boi Zebu. É bem provável que você, gaúcho, não consiga fazer uma ligação entre esses três seres. Mas há pessoas, como a Cidinha, que conseguem conectar tudo isso entre um café fresquinho e um pão de queijo recém-saído do forno.
Mineira, Maria Aparecida, a Cidinha, foi quem nos recebeu (Márcio, Mariana, Tárcia, Taynara e eu) para apresentar, com aquele mineirês único, um pedacinho de Uberaba. A cidade fica em uma espécie de “encruzilhada” na região central do país, a praticamente 500 quilômetros das capitais mais próximas, como Belo Horizonte, São Paulo e Brasília.
Daqui de Porto Alegre a distância triplica: são mais de 1.500 quilômetros. O caminho, desde janeiro desse ano, deixa de passar pela capital mineira e começa a ter conexão em São Paulo, mais especificamente pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos, de onde saem, semanalmente, quatro voos de ligação direta Uberaba-Guarulhos da LATAM.
Geoparque

O nome Terra de Gigantes não está ali por acaso. Em 2024, Uberaba passou a integrar a rede de Geoparques Mundiais da Unesco, reconhecimento dado a territórios que reúnem patrimônio geológico de relevância internacional e trabalham, ao mesmo tempo, com preservação, pesquisa, educação, turismo sustentável e participação das comunidades locais.
No caso de Uberaba, o geoparque ocupa todo o território do município e reúne paisagens e sítios que contam diferentes capítulos da história da Terra. São os fósseis que a fazem ser especialmente conhecida. Mais de 10 mil já foram encontrados por lá, entre dinossauros, crocodilos, tartarugas e outros animais. Um deles é o Uberabatitan ribeiroi, que chegava a 27 metros de comprimento e 10 metros de altura.
A história, no entanto, não está espalhada apenas pelas vitrines de museus. O próprio Geoparque trabalha com uma ideia mais ampla de patrimônio, que junta aquilo que está na terra com aquilo que foi construído por quem vive nela. É aí que entram os três grandes símbolos de Uberaba: os dinossauros, o zebu e Chico Xavier. Os dinossauros ajudam a contar uma história de milhões de anos; o zebu, a transformação da cidade em uma das referências brasileiras da pecuária; e Chico Xavier, a relação da cidade com a espiritualidade e com milhares de pessoas que passaram por aqui em busca dele. E talvez não exista lugar melhor para começar a entender essa mistura do que Peirópolis, onde milhões de anos de história convivem com uma pequena vila mineira que segue muito viva.
Peirópolis

A cerca de 25 quilômetros do centro de Uberaba, às margens da BR-262, Peirópolis é daqueles lugares em que a primeira impressão não entrega o tamanho da história que existe ali. O bairro rural recebeu esse nome em homenagem a Frederico Peiró, imigrante espanhol que trabalhou com a produção de cal a partir do calcário. Décadas depois, em 1945, a construção da ferrovia revelou os primeiros fósseis que transformariam o lugar em uma referência da paleontologia brasileira. O paleontólogo Llewellyn Ivor Price passou a conduzir escavações na região e, até 1974, realizou trabalhos que ajudaram a revelar uma coleção extraordinária de animais que viveram por aqui entre 80 e 66 milhões de anos atrás.
Hoje, a antiga estação ferroviária abriga o Museu dos Dinossauros e o Centro de Pesquisas Paleontológicas, que reúne aproximadamente quatro mil fósseis, entre dinossauros, crocodilos, tartarugas, peixes, aves, mamíferos, plantas e microfósseis.

Há ainda uma mostra a céu aberto que recria o ambiente de cerca de 70 milhões de anos atrás. É o tipo de lugar em que a gente pode sair do centro de Uberaba depois do café e, pouco tempo depois, estar diante de ossos de animais que caminharam pela mesma região quando o mundo era outro.

O bairro ganhou uma estrutura própria para receber quem chega, com restaurantes de cozinha mineira, pousadas, artesanato, doces caseiros, bares, sorveteria, trilhas e cachoeiras. O gramado central recebe atividades culturais e de lazer, e o lugar mantém aquele jeito de povoado em que a visita pode facilmente se estender além do tempo previsto. E é justamente nesse cenário, entre fósseis de milhões de anos e receitas muito mais recentes, que aparece um dos Museus Orgânicos de Uberaba: os doces da Dona Darci.
Pingo de leite, puxa, bala de coco, goiabada, bananada e cocada fazem parte desse repertório de doces caseiros, preparados a partir de receitas e conhecimentos que atravessam gerações. É uma pequena mudança de escala: em Peirópolis, a gente passa dos gigantes que viveram há milhões de anos para os saberes de quem vive hoje.
Museus orgânicos

Lançada oficialmente em junho, a Rota dos Museus Orgânicos reúne nove espaços espalhados. Na viagem, conhecemos seis deles de perto. A proposta é diferente de um museu tradicional: em vez de reunir objetos em um acervo distante de quem os produziu, o visitante entra na casa, no ateliê, na oficina ou na cozinha onde aquele conhecimento continua vivo.
A primeira parada foi a Casa do Cleofas Galeria de Arte, instalada em um casarão histórico no centro da cidade. O espaço conta a trajetória do ceramista Antônio Cleofas e de uma tradição que atravessa gerações da família. Autodidata, o artista começou a trabalhar com o barro em 1979 e foi desenvolvendo, na prática, um estilo próprio, com peças moldadas à mão, muitas delas de grandes dimensões e marcadas por texturas e tons terrosos. Ao lado da esposa, Anita, levou o ofício para dentro de casa e ensinou a técnica aos 15 filhos.
Da cerâmica, fomos para o Espaço Arte Ateliê Hélio Siqueira e Paulo Miranda, onde a casa também funciona como galeria. Criado ainda nos anos 1980, o espaço reúne pinturas, gravuras, tecelagem e cerâmica. Hélio transita por diferentes técnicas, da pintura à cerâmica, e tem obras em acervos como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Paulo também trabalha com cerâmica, tecelagem e telas de grandes formatos.

Depois, a matéria-prima mudou completamente. No Ateliê Arte em Papelão, José Eduardo Araújo e Sandra Monteiro transformam papelão em maquetes minuciosas de construções, paisagens e patrimônios de Uberaba. Há mais de duas décadas, os dois dão forma a cada detalhe e também aceitam encomendas pela internet, reproduzindo casas, prédios e outros espaços a partir de fotos e referências enviadas pelos clientes.

A Doceria Mestre Darci, da Dona Darci, é um dos exemplos mais literais do que significa um museu orgânico: o acervo está na cozinha, nas receitas e na memória de quem aprendeu a fazer doces como se fazia antigamente. Goiabada-cascão, frutas em calda, doces cristalizados e geleias fazem parte dessa tradição.
No Ateliê das Chiteiras, a chita aparece em vestidos, bolsas, acessórios e peças para a casa. O espaço reúne mulheres que trabalham com o tecido e também promovem oficinas e atividades de arte. A estampa colorida, tão conhecida da cultura popular brasileira, ganha ali outros formatos e usos.
E, para fechar, fomos conhecer a Luteria Mestre Souza, onde a madeira encontra a música. O espaço preserva o trabalho do mestre D'Souza, referência na fabricação artesanal de violas, e hoje tem a continuidade do ofício nas mãos do filho, o luthier Wagner Braga e Souza. Ali, o visitante acompanha de perto um processo que exige tempo, precisão e conhecimento.

Zebu

Se os dinossauros explicam uma parte muito antiga de Uberaba, o boi zebu ajuda a entender a cidade que veio depois. A pecuária ganhou força por aqui a partir do fim do século XIX, quando os primeiros animais da raça chegaram à região. Com o tempo, virou referência nacional na criação e no melhoramento genético do zebu, e a pecuária passou a fazer parte não só da economia, mas da própria identidade local. É difícil andar pela cidade sem esbarrar nessa história, seja nas fazendas, nas conversas ou em uma das maiores feiras de gado zebu do país, a ExpoZebu. Em 2026, na sua 91ª edição, foram cerca de três mil animais inscritos e a expectativa de receber aproximadamente 400 mil visitantes. Em 2025, só os leilões da feira movimentaram mais de R$ 200 milhões.
Vinho e comida
Mas Uberaba também gosta de contrariar expectativas. A mais de 1.000 quilômetros de distância do Rio Grande do Sul, o centro do país também produz vinho. No meio do Cerrado Mineiro, a Vinícola Arpuro nasceu da aposta da família Marega em plantar uvas por ali. Hoje, são 15 hectares de vinhedos, com variedades como Syrah, Sauvignon Blanc, Marsanne, Marselan, Viognier, Cabernet Franc e Merlot. A dupla poda permite que a colheita aconteça no inverno, aproveitando o período mais seco da região. E os resultados já começaram a aparecer. O Arpuro Pix 2024 recebeu 92 pontos no Guia Descorchados 2026, entrou na lista dos melhores tintos brasileiros e também recebeu 91 pontos da Revista Adega. O Syrah Concreto 2024 ganhou ouro no Brazil Wine Challenge e prata no Decanter World Wine Awards.
Na nossa ida, além de conhecer os vinhedos e provar os rótulos, vivemos um almoço com a chef Manoela Lebrón, que preparou um menu de sabores afetivos. O receptivo teve tábua de frios com requeijão de corte, pão de queijo recheado com pernil de porco e mandioca frita. Depois, peixe com caldo de galinha e quiabo tostado; como principal, porco com purê de abóbora cabotiá e feijão tropeiro; e, para fechar, suflê de goiabada com requeijão cremoso.
Tudo harmonizado com os vinhos da Arpuro, em um almoço que juntou a produção da vinícola com alguns dos sabores mais reconhecíveis de Minas.
Fé
Se algum amigo espiritual por ventura estiver determinado a me proporcionar a alegria de uma visita, aviso que estarei nesta noite, somente hoje, no quarto à esquerda, onde estarei com a satisfação de receber.
CHICO XAVIER
O recado, deixado por Chico Xavier para os amigos espirituais, está na Casa de Memórias e Lembranças Chico Xavier, em Uberaba. É uma frase simples, quase como um convite deixado na porta de casa. E é justamente ali, dentro da residência onde o médium viveu por mais de quatro décadas, que a história dele parece ficar mais próxima. O quarto, os móveis, as fotografias, as roupas e os objetos pessoais ajudam a contar a vida de um dos nomes mais conhecidos do espiritismo brasileiro.
Chico chegou a Uberaba em 1959 e permaneceu na cidade até sua morte, em 2002. Nesse período, recebeu milhares de pessoas e transformou a cidade em um importante destino para quem buscava conhecê-lo. Além da casa, visitamos também o Memorial Chico Xavier, espaço dedicado à preservação de sua trajetória e de sua obra.
Os verdadeiros gigantes
Cidinha foi a primeira delas. Depois vieram Alexandre, Ali, Renata, Raposo, Eduardo, Paula, Cleofas, Hélio, Paulo, José Eduardo, Sandra, Dona Darci, as Chiteiras, Mestre Souza, Wagner, Manoela e tantos outros que apareceram pelo caminho. Gente que, de um jeito ou de outro, foi nos mostrando a cidade e seus costumes, como o pão de queijo da esquina da prefeitura, a escapada até o mercado público para um pastel e tantos outros.
No começo, eram só três nomes que pareciam não ter muita coisa em comum: dinossauros, Chico Xavier e boi zebu. Depois de alguns dias por lá, a ligação começa a fazer sentido. Eles contam pedaços diferentes da história de um mesmo lugar. E talvez seja por isso que Uberaba seja, de fato, uma Terra de Gigantes. Não apenas pelos animais que viveram milhões de anos atrás, pelo gado que ajudou a construir sua economia ou pela figura que colocou a cidade no mapa da espiritualidade. Mas pelas pessoas que continuam fazendo tudo isso existir. Como a Cidinha, que consegue juntar um dinossauro, um zebu e Chico Xavier entre um café fresquinho e um pão de queijo.






