Há lugares em Porto Alegre que, mesmo quando deixam de existir, continuam vivos na memória de quem passou por eles. Estão nas histórias de família, nos jantares especiais, nos encontros que atravessaram décadas e, principalmente, nos sabores. É justamente esse território entre lembrança e presente que o Saguão Restaurante, da CASACOR RS 2026, decidiu explorar.
Operado pelo MuleBule Gastronomia, o restaurante tem seu conceito gastronômico assinado pelas chefs Caroline Moretti e Priscila Oliveira, que se basearam em uma pesquisa sobre a gastronomia que marcou Porto Alegre nas décadas de 1980 e 1990. O período também coincide com os anos de grande movimento do antigo terminal do Aeroporto Internacional Salgado Filho, uma referência importante para a construção da identidade do espaço.
A proposta não é simplesmente reproduzir receitas antigas. É olhar para esses clássicos com os olhos de hoje, preservando a memória afetiva, mas incorporando ingredientes regionais de produtores locais e técnicas contemporâneas.
Uma viagem pelos sabores
O cardápio funciona quase como uma pequena viagem pela história gastronômica da Capital. Entre as referências estão pratos que fizeram parte dos menus de restaurantes tradicionais da cidade, como o Filé à Moscovita, inspirado em casas como Floresta Negra e Il Gattopardo; o Scaloppini ai funghi, que remete ao Al Dente; e a panelinha de cogumelos com alho-poró, uma homenagem ao saudoso Constantino, da Fernando Gomes.
Foi justamente por essa entrada que começamos a experiência. A panelinha chega reconfortante, trazendo uma das referências mais afetivas do menu. Na sequência, o sanduíche aberto Gengis Khan amplia a viagem pelo passado: enquanto a seleção de queijos gaúchos aproxima essa memória dos ingredientes e produtores que fazem parte da gastronomia atual.
Nos principais, o restaurante mantém a mesma proposta. O Filé à Moscovita resgata um dos grandes clássicos da gastronomia porto-alegrense, enquanto o camarão com curau de milho traz uma leitura mais regional.
O Scaloppi ai cinque funghi aposta na potência dos cogumelos, e o Wellington de salmão foi, para nós, o grande destaque da noite, combinando técnica, apresentação e sabor em um prato que facilmente entrou para a lista dos favoritos.
Gosto de memória
Nas sobremesas, experimentamos todas, mas duas chamaram especialmente a atenção.
O sagu com creme é uma homenagem ao Komka, outro nome importante na história gastronômica de Porto Alegre — prato que carrega uma expectativa enorme justamente por fazer parte da memória de tanta gente. E, felizmente, a versão do Saguão consegue entregar aquilo que se espera: sabor, conforto e uma conexão bastante direta com o clássico que a inspirou.
A Pavlova de bergamota segue por outro caminho. Mais fresca e delicada, valoriza um ingrediente tão ligado à identidade gaúcha e aproveita o fruto da estação para trazer um toque contemporâneo ao encerramento da experiência.
Vista para a história
Se a comida já cria uma ponte com a Porto Alegre do passado, o endereço ajuda a completar essa narrativa.
O Saguão tem vista para a pista do atual Aeroporto Internacional Salgado Filho, justamente no local que guarda tantas lembranças relacionadas às antigas estruturas do terminal. É uma conexão interessante entre diferentes momentos da cidade: enquanto o cardápio revisita restaurantes e sabores que ficaram na memória dos porto-alegrenses, a paisagem diante das janelas mostra uma cidade que continua em movimento.
É preciso dizer: fiquei especialmente encantado com essa vista. Ver os aviões chegando e partindo enquanto o jantar acontece cria uma atmosfera muito particular e complementa a experiência de um jeito difícil de reproduzir em outro endereço. É uma daquelas situações em que o cenário não é apenas bonito; ele passa a fazer parte da refeição.
A combinação entre a vista, o ambiente e pratos muito bem executados faz o Saguão funcionar não apenas como restaurante dentro da CASACOR, mas como uma experiência gastronômica que conversa diretamente com a cidade.
O passado como ponto de partida
A escolha dos pratos mostra que existe uma pesquisa cuidadosa por trás do projeto. São referências que poderiam facilmente cair apenas na nostalgia, mas que ganham nova vida pelas mãos do MuleBule.
“A gente quis resgatar um pouco do glamour da gastronomia dos anos 80 e 90, mas trazendo essa memória para o que valorizamos na cozinha hoje”, explica a chef Caroline Moretti. A ideia, segundo ela, é partir dessas lembranças para criar algo que tenha identidade própria e dialogue com a gastronomia contemporânea.
Com 22 anos de atuação e mais de 10 mil eventos realizados, o MuleBule também leva para o projeto uma trajetória construída justamente na relação entre gastronomia, eventos e experiências.
No fim, o que torna o Saguão especial é justamente essa capacidade de fazer o passado aparecer sem transformar a experiência em uma viagem puramente nostálgica. Os pratos lembram uma Porto Alegre que já não existe da mesma maneira, mas chegam à mesa com ingredientes, técnicas e uma leitura que pertencem ao presente.
É como abrir um antigo álbum de fotografias e descobrir que, entre uma imagem e outra, ainda existe espaço para criar novas memórias.
Serviço
- Endereço: Avenida dos Estados, 747
- Data: de 12 de agosto a 4 de outubro.
- Horário de funcionamento: Terça a sexta-feira: 17h às 23h
Finais de semana: 12h às 23h - Entrada gratuita: o acesso ao restaurante é independente da visita à CASACOR RS 2026 e não exige a compra de ingresso para a mostra.




