A sorte de quem tem um pai presente é de outro mundo. Eu tenho um superpresente, que até hoje recebe um WhatsApp dizendo: "Paiê, me ajuda nisso". É um privilégio que, mesmo na vida adulta, continuo tendo. Ele me ajuda nas entregas de vinhos, diz como consertar a torneira do banheiro, me busca nos eventos de vinho e, sempre que volto de Garibaldi, levo comigo uma sacolinha com produtos da horta, queijo e outras iguarias que o mesmo separa por lá.
Meu pai é do Direito e empresário. Eu não segui exatamente a carreira dele; preferi me aventurar pela enologia, pela comunicação e por outras coisinhas mais. Mas ele sempre foi meu suporte. Além do apoio financeiro, é claro, sempre esteve ao meu lado nas tomadas de decisão, nas mudanças de trabalho e nos momentos em que precisei escolher novos caminhos.
Um brinde aos pais
Tenho colegas da enologia que seguiram o projeto vitivinícola da família e transformaram as empresas com a chegada da nova geração, trazendo inovação, tecnologia e novas formas de fazer, sem deixar de lado o legado construído pelos pais. Por isso, perguntei a três vinícolas familiares como acontece essa passagem de bastão entre as gerações.

Courmayeur Domaine
As respostas revelam um padrão interessante. Na Courmayeur Domaine, Talita Verzeletti conta que a sucessão ainda acontece de forma gradual, com decisões compartilhadas e respeito pelos ensinamentos do pai, principalmente a honestidade e o compromisso com um trabalho bem-feito.
Pergunta: Como aconteceu a passagem de bastão entre pai e filhas?
Talita Verzeletti: A passagem ainda está ocorrendo. A transição em alguns setores da empresa, como turismo, qualidade e comercial, foi acontecendo naturalmente. Mas nos demais setores, como infraestrutura e investimentos, as decisões ainda ocorrem de forma conjunta.
Pergunta: Quais ensinamentos da geração fundadora vocês fazem questão de preservar até hoje?
Talita Verzeletti: Hoje nossa empresa está sob a gestão das duas filhas mulheres. Para nós, o valor do trabalho justo, honesto e bem-feito é o principal ensinamento de nossos pais — com o nosso pai participando ativamente e presente até hoje. Além disso, eles sempre foram exemplos de que devemos nos manter atualizadas, acompanhando de perto as novidades e tecnologias que surgem.
Pergunta: O que a nova geração trouxe de diferente para a vinícola?
Talita Verzeletti: Trouxemos inovações em sistemas de atendimento, integração de sistemas, maior controle de qualidade dos produtos, novos produtos, a reformulação de degustações e visitações, além de uma forte valorização da marca.
Pergunta: Existe algum vinho do portfólio que represente esse encontro entre tradição e inovação?
Talita Verzeletti: Temos o espumante Nature Retrato, que é elaborado com as uvas plantadas pelo nosso pai na propriedade da família, mas que também traz um rótulo inovador, com um projeto piloto de rastreabilidade por meio de um código 2D. Ele une a tradição do nosso pai no cuidado com as videiras à inovação da nossa geração em tecnologia, blockchain, rastreabilidade e qualidade.
Pergunta: Se você pudesse resumir em uma frase o legado que passa de pai para filho dentro da vinícola, qual seria?
Talita Verzeletti: Honestidade.
Zílio Vinhos Únicos
Na Zílio Vinhos Únicos, Matheus Zílio explica que as decisões continuam sendo tomadas em conjunto com o pai. Entre os valores preservados estão o respeito pela terra, pela uva e pelo terroir, enquanto a nova geração investe em equipamentos, identidade visual e inovação, sem abrir mão da qualidade.
Pergunta: Como aconteceu a passagem de bastão entre pai e filho?
Matheus Zilio: A transição ocorre de uma forma natural, e a maioria das decisões ainda é tomada em conjunto. Desde a elaboração do vinho até a escolha dos rótulos, a gente ainda procura sentar e tomar as decisões juntos.
Pergunta: Quais ensinamentos da geração fundadora vocês fazem questão de preservar até hoje?
Matheus Zilio: É preciso preservar o respeito pela terra e pela uva, nossa matéria-prima. A gente sabe que, para se ter um bom vinho, é necessária uma boa uva. Buscamos ter um vinho que realmente represente a safra e o terroir. Além disso, valorizamos a honestidade e a dedicação, que vêm de várias gerações de toda a nossa família.
Pergunta: O que a nova geração trouxe de diferente para a vinícola?
Matheus Zilio: Como nova geração na vinícola, acho que agreguei mais inovação e tecnologia. Estamos sempre buscando melhorar os equipamentos. Também trouxe melhorias na questão do design dos rótulos e na construção da nossa nova marca, mas sempre mantendo a qualidade do produto.
Pergunta: Existe algum vinho do portfólio que represente esse encontro entre tradição e inovação?
Matheus Zilio: Temos um vinho que será lançado ainda este ano, o TACET, um Cabernet Franc. As uvas estavam em perfeita maturação e sanidade e, por conta disso, decidimos fazer um vinho de fermentação espontânea. Depois, deixamos em barricas de segundo e terceiro uso para que não houvesse tanta interferência da madeira, aproveitando a micro-oxigenação e um leve aporte da tosta, sem que se sobressaísse à fruta.
Pergunta: Se você pudesse resumir em uma frase o legado que passa de pai para filho dentro da vinícola, qual seria?
Matheus Zilio: O legado é cultivar os valores. Nós não estamos apenas elaborando vinhos, estamos contando uma parte da nossa história através dos nossos produtos. O que temos de deixar para as próximas gerações é essa paixão pela terra, pelo solo e pelo vinhedo, para dar continuidade ao projeto.
Casa Pedrucci

Já na Casa Pedrucci, a sucessão também acontece naturalmente. Guilherme e Ana Paula cresceram acompanhando a rotina da vinícola e hoje cada um contribui com sua especialidade. Enquanto Guilherme atua na elaboração dos espumantes e na gestão, Ana Paula fortaleceu a comunicação e o relacionamento com o consumidor, sempre respeitando a essência construída pela família.
Pergunta: Como aconteceu a passagem de bastão entre pai e filhos?
Gilberto Pedrucci: A sucessão na Casa Pedrucci está acontecendo de forma natural. Quando crianças, o Guilherme e a Ana Paula sempre estiveram acompanhando a rotina da vinícola. Hoje, trabalhamos juntos, lado a lado, com cada um contribuindo com aquilo que faz de melhor.
Pergunta: Quais ensinamentos da geração fundadora vocês fazem questão de preservar até hoje?
Gilberto Pedrucci: Qualidade não se negocia. A tecnologia evoluiu e o mercado muda, mas alguns princípios precisam permanecer os mesmos: a dedicação à matéria-prima, a paciência com o tempo de cada vinho e o compromisso de fazer o melhor possível, sem atalhos.
Pergunta: O que a nova geração trouxe de diferente para a vinícola?
Gilberto Pedrucci: Acredito que cada geração tem o seu papel. O meu foi construir a base da Casa Pedrucci; o deles é fazer essa história continuar crescendo. O Guilherme escolheu seguir os passos também na formação acadêmica, tornando-se técnico em Enologia. Isso me dá muita segurança, porque sei que o conhecimento construído ao longo de tantos anos continuará sendo preservado e aperfeiçoado. Hoje, ele participa ativamente da elaboração dos espumantes e também contribui na gestão, atuando nas áreas comercial e financeira.
Enquanto, a Ana Paula trouxe um olhar diferente para a marca, fortalecendo a comunicação e o relacionamento com o consumidor. Ela conseguiu traduzir, por meio da identidade da Casa Pedrucci, tudo aquilo em que sempre acreditamos como família. É gratificante perceber que cada um encontrou sua forma de contribuir, respeitando a essência da vinícola e, ao mesmo tempo, preparando a empresa para o futuro.
Existe algum vinho do portfólio que represente esse encontro entre tradição e inovação?
Gilberto Pedrucci: O Millèsime 2021 representa o encontro perfeito entre tradição e inovação na Casa Pedrucci. Ele é um espumante elaborado pelo método tradicional (champenoise), resultado de muitos anos de experiência, estudo e dedicação à enologia. Ao mesmo tempo, é um símbolo da nova fase da vinícola: reflete o olhar da nova geração sobre o futuro, com o objetivo de fortalecer a marca e buscar levar nossa história a mais pessoas. É a tradição e a inovação andando juntas.
Pergunta: Se você pudesse resumir em uma frase o legado que passa de pai para filho dentro da vinícola, qual seria?
Gilberto Pedrucci: Na Casa Pedrucci, o maior legado não é apenas fazer grandes espumantes, mas transmitir, de geração em geração, a paixão pelo que se faz, o respeito pelo tempo e o compromisso com a excelência.
Ensinamentos na vida
Eu resumiria que as lições do meu pai são o comprometimento e o fazer bem-feito — e claro, sem tirar proveito nem passar por cima de ninguém. Escrevendo esta coluna e conversando com meus colegas enólogos, fica claro o "jeito gringo de ser": você vai passando o bastão, deixando as próximas gerações fazerem o seu trabalho, mas mantém-se sempre por perto, sempre pronto para escutar um: "Paiêê, me ajuda com isso!

