
Comandado pelo chef Luiz Filipe Souza e com três estrelas Michelin, o Evvai mistura raízes italianas com ingredientes brasileiros, priorizando a sazonalidade com um nível altíssimo de gastronomia.
E a notícia da terceira estrela é quentíssima: a edição 2026 do Guia Michelin Rio de Janeiro e São Paulo aconteceu na última segunda-feira, 13 de abril, no Copacabana Palace, onde foi anunciado que o Evvai e o Tuju são os primeiros restaurantes com três estrelas Michelin no Brasil, tornando-se o primeiro país da América Latina com a distinção máxima do guia.
Considerado o nível máximo de excelência na gastronomia mundial pelo Guia Michelin, um restaurante com três estrelas não é só “comida boa” - é uma experiência extraordinária que oferece uma cozinha única e autêntica, capaz de justificar uma viagem por si só.
Localizado em Pinheiros, o Evvai conta com um ambiente intimista e acolhedor com a cozinha aberta, onde é possível acompanhar o preparo dos pratos e toda a movimentação dos bastidores.
O menu degustação chamado "oriundi 25.2!" - um símbolo de intercâmbio cultural - mistura raízes italianas com ingredientes brasileiros traduzindo essa fusão em onze etapas com pratos requintados e com alta criatividade. Um detalhe curioso: cada etapa é acompanhada por ilustrações desenhadas pelo próprio chef, que definem a história de cada prato. Os cards com as ilustrações são entregues no final da experiência para você levar de recordação.
Para começar, um snack feito com manga madura, pinole e pimenta de bode harmonizado com uma taça de champagne Moët & Chandon Rosé Impérial. Na sequência, provamos os pães de fermentação natural, multigrãos, queijo Canastra e croissant de alho com manteiga de maracujá e azeite. Tudo impecável!
A primeira etapa do menu “ORIUNDI 25.2!” celebra a cozinha, que há oito anos atua com criatividade entre Brasil e Itália: o Tramezzino de atum bluefin e pitanga, o Fígado de galinha e cajuína e a Ostra, pistache e jambu. O tramezzino, que reinventa o sanduíche da cozinha torinese, é feito a partir de um merengue de textura crocante guarnecido pelo atum gordo equilibrado pela acidez e complexidade da pitanga, fruta nativa da Mata Atlântica brasileira. A barquinha recheada com o patê de fígado de galinha emulsionado com vinho Marsala encontra seu equilíbrio no dulçor da cajuína, bebida clarificada do suco de caju, um patrimônio cultural do Nordeste Brasileiro. A tortinha com ostra e pistache finaliza o trio com a harmonia inesperada de seus ingredientes, coroada pela sensação quase anestésica da granita de jambu, oferecendo um contraste de temperatura em uma única mordida.
A segunda etapa é a “PASTA LA VISTA, BABY” com pasta fredda e fagioli verde. Inspirado pelo prato acolhedor pasta e fagioli, a versão inverte a natureza original, tradicionalmente quente e invernal, trazendo uma proposta nova e inusitada com frescor. A pasta é cozida e rapidamente resfriada, depois mantecata com uma emulsão de feijão verde fresco e kefir finalizado com gotas de mel de abelha nativa. E não para por aí, a pasta é finalizada na mesa com uma granita crio-congelada de salsão e ervas aromáticas acompanhada de uma salada texturizada com folhas selvagens e purê de feijão verde. Uma pasta inusitada e diferente de tudo que eu já provei.
A terceira etapa é o “HOLY CRAB!” - um dos meus preferidos - com caranguejo real, coco fresco e aroeira. Segundo o chef, a partida para criação do prato é a casquinha de não-siri (risos). Inspirado pela memória litorânea, presente nos quiosques da costa brasileira, é traduzida a referência à linguagem do restaurante, trabalhando o jogo de texturas do coco fresco e a carne delicada do caranguejo, que em boca se completam e se confundem. A temperatura aqui atua por contraste: uma royale quente feita com cabeças de camarões carabineiros, o caranguejo e o coco servidos frios e finalizados com sementes de aroeira e espuma de manteiga noisette e vinho branco.
A quarta etapa é a do “GIVE ME THAT HAND!” com uma bomba de vieiras que está no menu do Evvai desde 2017, mas sempre em transformação. Deve ser um tanto desafiador reinventar o mesmo prato há quase dez anos, mas o chef Luiz Filipe faz isso com maestria. No menu atual, o pão é cozido no vapor e frito em gordura de pato, recheado com tomate verde, lardo artesanal da Serra da Bocaina e vieiras frescas. Como acompanhamento, uma segunda versão da vieira, transformada em um crocante com sabor marcante e textura delicada e uma pasta aromática da própria vieira com ervas frescas e capim-limão, ambos feitos para comer com as mãos.
A quinta etapa “THE ELEGANT GENTLEMAN, DRESSED IN WHITE” traz uma “moqueca branca" com pupunha e lula. A provocação inicial para criação do prato foi essa mesmo: “E se retirássemos a cor vibrante da moqueca sem alterar seu sabor?”. O prato explora a estrutura clássica da moqueca por meio de um caldo translúcido, obtido por extratificação lenta e controlada dos ingredientes tradicionais em baixa temperatura. O peixe do dia, pescado de forma artesanal, é cozido à vapor, técnica semelhante ao confit, mas em temperatura mais baixa. O prato é servido com lulas confitadas, crocantes de arroz e palmito pupunha.
A sexta etapa “LIKE A HOT TUB AFTER A BUSY DAY...” com pato, enguia e tucupi. Inspiração recorrente no Evvai, o pato no tucupi na versão atual encontra a Itália com um tortellini recheado com pato assado em lenha de frutíferas brasileiras acompanhado de enguia laqueada em tucupi. O caldo é preparado com ossos do pato e tucupi, formando um brodo brasileiro de aroma intenso. A mandioca, presente de norte a sul do país, aparece como símbolo de identidade. Sem dúvida nenhuma esse pato no tucupi é a definição de “comfort food” e eu comeria todos os dias após um dia ocupado. Ponto para eles!
A sétima etapa “SAVAGE ORANGE” com javali, laranja e segurelha. O javali, criado de forma controlada em Araçariguama-SP, traz um toque de caça com sabor acastanhado e gordura equilibrada. Servido em duas versões: lombo grelhado e costela de longa cocção, a guarnição une laranja e cenoura, explorando doçura e acidez em contraponto à potência da carne e a segurelha, erva de notas resinosas, reforçando a rusticidade do prato.
A oitava etapa “NO TONGUE, REALLY?!” com língua, rabo e priprioca. Um dos maiores produtores de gado do mundo, o Brasil oferece muito mais que cortes nobres. Rabo, acém, cupim, língua - são cortes que exigem conhecimento técnico, sensibilidade e respeito ao tempo do ingrediente. Aqui, a língua é cozida lentamente até atingir textura macia, montada em forma de lasanha, grelhada e depois laqueada em um caldo colagenoso de rabo, com o toque do perfume amadeirado da priprioca, rizoma amazônico de grande expressão aromática. Duas emulsões finalizam o prato: uma de cogumelos e outra de agrião. Com toda a certeza o prato mais surpreendente. Não tenho nenhuma restrição alimentar, mas admito que língua não é algo que eu tenho vontade de comer (risos). Porém, esse pré-conceito caiu por terra depois de comer essa lasanha. Surreal a textura, técnica e mistura de sabores. O chef Luiz Filipe é um mestre nesse quesito mesmo!
A nona etapa “ESSENCE NO. 5” uma sobremesa feita com cupuaçu absoluto que reseta o paladar e marca a entrada na parte doce do menu. Da família dos Theobromas, o cupuaçu é explorado em sua forma mais pura: a polpa. São diferentes texturas e temperaturas utilizando apenas a fruta e técnica, mantendo o foco na essência do ingrediente e em sua força sensorial. Poderia facilmente dizer que, essa sobremesa foi inspirada em mim, afinal, a referência é o perfume N°5 da Chanel que eu uso há mais de 10 anos (risos).
A décima etapa “POPCORN... ICE CREAM… SINNERS” com popcorn and ice cream. Criado para trazer leveza e memória, o picolé explosivo é assinatura da chef confeiteira Bianca Mirabili, eleita a melhor confeiteira da América Latina 2025. Com passagens anteriores por sabores como foie gras e morangos fermentados, a versão atual é feita com pipoca e diferentes intensidades de cacau. Uma combinação afetiva, crocante, cremosa e sem dúvida provocadora!
A última etapa “MANDIOCA” com bolo Souza Leão, tucupi preto e baunilha do Cerrado. A mandioca está em pães, guarnições, caldos e texturas ao longo do menu e não poderia ficar de fora da parte doce também. O bolo Souza Leão, patrimônio da confeitaria brasileira, é feito com puba - uma massa de mandioca fermentada - açúcar, gemas em abundância e leite de coco, resultando em uma textura densa e untuosa, quase cremosa ao toque da colher. A receita, de origem pernambucana e com raízes coloniais, representa a sofisticação da doçaria luso-brasileira. A chef Bianca Mirabili reinterpreta o bolo como semifreddo, onde a baunilha do Cerrado com favas espessas e extremamente aromáticas é incorporada ao preparo para acentuar doçura; ainda tem um toffee de tucupi preto, ácido, salgado e rico em umami, atuando como contraponto. Já a montagem remete ao kintsugi, arte japonesa de reparar objetos quebrados com ouro. No Evvai, essa simbologia traduz o gesto de dar nova forma e novo brilho a uma receita que carrega tempo, identidade e afeto. Para completar a experiência, chega a mesa uma fava de baunilha trazendo um perfume doce e para acentuar ainda mais os aromas. Doce na medida certa, com texturas diferentes e cheio de história.
Por último, mas não menos importante, uma tábua de doces com bala, cannoli, goiabada, brigadeiro de tomate, chocolate e cappuccino - e um chá digestivo para acompanhar.
Uma experiência gastronômica de altíssimo nível e que vai muito além da comida. E agora a informação que todos devem estar esperando: quanto custa? O menu degustação custa em torno de R$ 1150 por pessoa e a harmonização varia de R$ 619 a R$ 995 por pessoa. Não é barato, assim como todo três estrelas Michelin - aqui precisa ser considerado que, além dos onze pratos do menu, o Evvai é um lugar onde você vai para vivenciar uma experiência única e memorável, não apenas comer. E isso, caros leitores, não tem preço.
Evvai
Endereço: Rua: Joaquim Antunes, 108 - Jardim Paulistano - São Paulo
Horário de funcionamento: Terças-feiras a sextas-feiras das 19h às 23h e sábados das 12h às 15h e das 19h às 23h
Reservas: @evvai.sp
