
Nessa terça-feira (14) é celebrado o Dia Mundial do Café. Parece até estranho colocar café e vinho na mesma frase. Mas, quando olhamos com mais atenção, as duas bebidas compartilham muito mais do que imaginamos — não necessariamente na forma de consumo, mas na maneira como são produzidas e percebidas sensorialmente.
O cheiro de café passando está facilmente no top 10 dos melhores aromas do mundo — pelo menos na minha opinião. Além de despertar, ele conforta. O perfume do coado invadindo o quarto pela manhã já anuncia um bom começo de dia. Um café quente antes de chegar à estação de trabalho deixa de ser hábito e vira quase um pequeno ritual.
Do outro lado, o vinho também ocupa esse lugar simbólico. Depois de um dia intenso, abrir uma garrafa pode significar pausa, recompensa e presença. Sentir os aromas da taça nos transporta: ativa memórias, conecta com o momento e, muitas vezes, ajuda a desacelerar. Há algo de silencioso nesse processo — e até de resolutivo.
São bebidas poderosas quando falamos de ritual, prazer e diversidade. Cada café é único, influenciado pela variedade do grão, pelo terroir e pelo método de extração. Assim como o vinho: cada uva, cada solo, cada técnica de vinificação impacta diretamente no resultado final.
Para entender melhor essas conexões, conversei com Isis Rodrigues, head barista do Grupo Press, e reunimos alguns pontos em comum entre as duas bebidas — caminhos possíveis para explorar aromas e sabores com mais atenção.
Terroir
Solo, altitude e clima influenciam diretamente tanto a maturação do café quanto da uva. São fatores que determinam identidade, complexidade e expressão no produto final.
Fermentação
No vinho, o processo é amplamente conhecido: o açúcar da uva se transforma em álcool, liberando também compostos aromáticos. No café, a fermentação também pode acontecer — especialmente quando o grão permanece com a polpa — contribuindo para maior complexidade sensorial.
Acidez
Elemento essencial nas duas bebidas. No vinho, a falta de acidez resulta em um perfil “cansativo”, pouco convidativo. Já quando bem equilibrada, ela traz frescor, salivação e vontade de continuar bebendo. No café, a acidez também é desejável — especialmente nos especiais — e pode lembrar frutas cítricas ou tropicais.
Aromas
Apesar de cada bebida ter sua própria roda aromática, há muitas intersecções. Notas frutadas, como laranja e morango; florais, como jasmim e rosas; e até nuances lácteas ou achocolatadas aparecem tanto em cafés quanto em vinhos.
Claro, fatores como torra (no café) e passagem por barrica (no vinho) alteram profundamente essas características. Ainda assim, quando olhamos para as famílias aromáticas, percebemos semelhanças interessantes — camadas construídas por compostos voláteis que despertam sensações muito próximas.
No fim das contas, seja na xícara ou na taça, estamos falando de experiência. E poucas coisas são tão simples — e tão poderosas — quanto parar por alguns minutos e se permitir sentir.



