“A comida era uma linguagem sem palavras entre a gente.” A frase da cantora de rock independente Michelle Zauner, no livro 'Aos Prantos no Mercado', escrito em homenagem à mãe, pode despertar uma sensação familiar em muitas pessoas. É no alimento que muitos de nós encontram uma forma de traduzir sentimentos.
Na cozinha, há espaço para confraternizar e explorar o desconhecido sem medo. Não por acaso, o preparo devolve até mesmo a chance de brincar e, por que não, se reconectar com a infância. Um terreno fértil para deixar a imaginação fluir e ocupar um lugar que, muitas vezes, é passado de geração em geração.
Mesmo que tantas histórias comecem ali, no espaço doméstico, por lazer ou necessidade, quando o assunto passa para o âmbito profissional, o cenário é diferente. Segundo uma pesquisa desenvolvida pelo Chef’s Pencil, apenas 7% das mulheres comandam restaurantes renomados no Brasil. A estatística revela uma distância histórica.
Ainda assim, são as trajetórias individuais que começam a encurtá-la. Entre panelas, estudos, consultorias e cozinhas de restaurantes, entrevistamos seis mulheres presentes na cena gastronômica gaúcha que ajudam a redesenhar esse cenário.

Pudim da Zuzu
Desde criança, Zuleica Corrêa acompanhava a mãe na cozinha. O momento com ela, era quase um ritual doméstico: entre um preparo e outro de pudim, ela aguardava atenta a chance de provar os ingredientes que sobravam das receitas. Não demorou para que Zuzu — como é conhecida — começasse a se arriscar também. Primeiro com a sua criação, o pudim de brigadeiro, que se transformou em presente para os amigos.
Na época, porém, a cozinha ainda dividia espaço com outras atividades. Enquanto cursava Educação Física, se dedicava às aulas de hidroginástica e natação ela também atendia clientes com shiatsu — terapia corporal de origem oriental. Foi nesse período que os pedidos pelos doces começaram a crescer.
Com menos de um ano de formada, a gaúcha decidiu mudar de rota. Em 2013, deixou a carreira na Educação Física para se dedicar integralmente à produção das sobremesas. A partir disso, restaurantes e cafeterias passaram a encomendar os Pudins da Zuzu e o cardápio, que inicialmente se resumia ao brigadeiro, ganhou novas versões. O tradicional pudim de leite condensado da mãe tornou-se o carro-chefe da casa, seguido por sabores como iogurte, coco, fava de baunilha e até parmesão.
Mais de uma década depois, a doceira olha para a própria trajetória e reconhece que a sorte também teve seu papel no caminho. Sem recordar grandes obstáculos no início do empreendimento, ela define a própria cozinha como afetiva — herança direta daqueles momentos ao lado da mãe, em que aproveitava o restinho do leite condensado direto na lata.
São pudins feitos com muito carinho. Eles me levam para o início daqueles momentos ao lado da minha mãe.
ZULEICA CÔRREA, CONHECIDA COMO ZUZU
Proprietária e chef do Pudim da Zuzu
Mesmo com o crescimento do negócio, Zuzu comenta orgulhosa que a essência permanece: a atenção aos ingredientes e o cuidado no preparo continuam sendo a base do trabalho. Todos esses fatores levaram a profissional a ser eleita, pelo quinto ano consecutivo, como Melhor Pudim do Estado pela Revista Sabores do Sul.
Serviço
Endereço: Rua 24 de Outubro, 435, loja 28, no Moinhos de Vento, em Porto Alegre
Horário de atendimento: De segunda a sábado, das 10h às 19h.
Encomendas podem ser feitas por direct no Instagram
@pudim_da_zuzu

Samosa’s Bar
Uma galeria no bairro Moinhos de Vento guarda um pequeno portal para a Índia. Foi assim que nos sentimos ao entrar no Samosa’s Bar para conhecer a trajetória da proprietária e chef Jilu.
Natural de Kerala, no extremo sudoeste da Índia, ela conta que a paixão pela gastronomia nasceu dentro de casa, observando os preparos familiares. Hoje, comanda dois endereços em Porto Alegre: o Jil Jil’s e o Samosa’s Bar.
Segundo a chef, curiosamente, os empreendimentos surgiram de forma inesperada. Durante uma atividade escolar que homenageava diferentes países, ela — única indiana entre os pais — levou alguns pratos típicos. A repercussão foi imediata. Pais e amigos começaram a pedir novamente aquelas receitas, dando origem ao primeiro restaurante, o Jil Jil's. Enquanto o local explora a culinária indiana tradicional, com especiarias marcantes e mais picância, o Samosa’s Bar apresenta versões com menos pimenta, pensadas justamente para dialogar com o paladar brasileiro.
Todas essas decisões vieram pautadas a partir das vivências e das diferentes influências da gastronomia. Antes de chegar ao Brasil, a chef também viveu na Finlândia e na Malásia. As experiências ampliaram seu repertório e, como ela mesma resume, “aumentaram seu mundo”.
Entre acaso e técnica, a cozinheira transforma o que vê, visita e pinta em pratos. Carregando uma veia artística forte, quem visita o Jil Jil's acompanha a pintura da profissional estampada em quadros pelas paredes do casarão.
Isso é motivo de grande felicidade, já que a maioria das pessoas me conhecem pela comida, mas ainda não sabem o quanto a pintura está presente na minha vida.
CHEF JILU
Seu talento natural para a criação também é visto nos pratos. Por mais que a chef diga que busca ser reconhecida pelo sabor, algumas opções do cardápio demonstram até onde sua criatividade e imaginação podem chegar. Um exemplo é o Frankie Samosa (R$ 27), que surgiu quando ela serviu a receita em um copo de shot em tom de brincadeira para a família. O nome pegou e hoje o prato integra o cardápio.
Com opções que vão de pratos com carne a versões vegetarianas e veganas, o menu reflete a proposta inclusiva da chef: transformar sabores da Índia em um convite à descoberta.
Serviço
Endereço: Rua 24 de Outubro, 636, Loja 04, no Moinhos de Vento, em Porto Alegre
Horário de atendimento: De segunda à quinta das 12h às 18h; aos sábados das 12h às 18h. Nas sextas e domingos, Jilu reserva seu tempo para o restaurante intimista Jil Jil's no bairro Rio Branco.
@samosa_bar

Mammacello Bolos
Enquanto algumas histórias nascem de receitas de família, outras podem surgir da coragem em recomeçar. Esse foi o caso de Miriam Oliveira, ao misturar um pouco dos dois e, ao revelar que a confeitaria sempre fez parte da sua vida.
Ainda jovem, acompanhou a rotina de uma confeitaria familiar, experiência que lhe rendeu décadas de aprendizado e também o olhar atento para a qualidade e o cuidado com o cliente. Anos depois, porém, a vida pediu uma pausa: vieram mudanças pessoais e um período delicado que incluiu enfrentar a depressão. Foi justamente nesse momento que Miriam decidiu fazer o que, segundo ela, lhe dá mais alegria: voltar para a cozinha.
Por mais apaixonante que fosse, o processo também foi árduo. No começo a profissional passava dias e noites preparando bolos para vender na companhia do filho, Marcelo, em universidades e eventos.
Quando a pandemia mudou novamente os rumos do trabalho, ela precisou se reinventar mais uma vez. Foi assim que nasceu a Mamma Cello, marca batizada em homenagem ao filho, e que logo encontrou espaço em mercados e cafeterias da cidade. Um cliente indicou para outro, que indicou para outro e o negócio cresceu.
Mesmo produzindo em escala maior e, eventualmente, contando com a ajuda de outros profissionais, a cozinheira ainda faz questão de acompanhar cada etapa de perto.
Trabalho longas horas de pé supervisionando massas, recheios e decorações. Faço isso porque gosto, mas também para saber que todos os bolos saem com a qualidade ideal.
MIRIAM OLIVEIRA
Chef do Mammacello
Serviço
Conheça as redes sociais da chef e saiba quais são os sabores disponíveis.
@mammacello_bolos

Cozinha nigeriana
Muito antes de qualquer restaurante ou reconhecimento, a cozinha de Elizângela Alejo começou dentro de casa, aos sete anos. Filha mais velha entre seis irmãos, ela aprendeu a cozinhar cedo para ajudar a mãe, que trabalhava fora. Primeiro vieram os pratos simples do cotidiano — arroz, macarrão, feijão — preparados com a responsabilidade para ajudar à mãe.
O gosto pela cozinha cresceu, mas a profissão surgiu por necessidade. Aos 20 anos, já mãe de dois filhos, Eliz – como prefere ser chamada – começou a trabalhar em uma cozinha industrial, servindo refeições para mais de 200 pessoas. Entrou lavando louça. Observando, ajudando e aprendendo no dia a dia, até que um imprevisto mudou seu caminho: em um dia em que a cozinheira faltou, ela se ofereceu para assumir o fogão. O cardápio era simples — polenta, carne de panela, arroz, feijão e legumes —, mas a responsabilidade era enorme. No fim do expediente, vieram os elogios com as avaliações do refeitório. Foi ali que percebeu que aquele também poderia ser o seu lugar.
A trajetória não foi fácil. Foram anos entre funções e cozinhas até assumir seu reconhecimento como cozinheira. Hoje, sua história se conecta com algo ainda maior: a diversidade das cozinhas africanas. Com ingredientes naturais, técnicas tradicionais e uma base vegetal, a profissional constrói seu nome no ramo ao apresentar sabores ligados à tradição do país.
— Uma das dificuldades que encontro é a falta de conhecimento sobre as minhas origens. Me refiro a origem do povo preto, que de certa forma, foi apagada pela escravidão. Focar na cozinha africana, estudar temperos e dividir o alimento é a minha missão de vida.
ELIZÂNGELA ALEJO
Chef de cozinha especializada em comida africana.
Para ela, cozinhar se tornou um ato capaz de mudar vidas, conceitos e opiniões.
Atualmente, a profissional atua com eventos mediante agendamento e também atua como chef convidada em restaurantes da cidade — como já aconteceu em edições da feijoada africana no Griô Burguer.
Serviço
Acompanhe o trabalho da chef pelas redes sociais.
@chef_eliz_alejo

Buena Pizza Social Club
Pizza de pancho com massa leve e saborosa, diversas opções de cervejas e vinhos para brindar com os amigos e aquela sensação imbatível de viver o Centro Histórico de Porto Alegre. Assim que chegamos à casa da Buena Pizza Social Club, sabíamos que ali tinha uma cozinha colaborativa feita por mulheres.
Comandada por Gabriela Fiori e Juliana Rodrigues, a “pizza das gurias” – como é conhecida – nem sempre foi o caminho mais óbvio. Mesmo com os familiares tendo o empreendedorismo pulsando nas veias, antes de assumirem o negócio, as duas atuavam na área de consultoria ambiental. Gabi, como prefere ser chamada, é bióloga e Ju, geógrafa. E naquela fase, a cozinha surgia quase como um respiro em meio à rotina intensa: cursos de risoto, massas, pães e vinhos eram a válvula de escape que encontravam para desacelerar.
Mas o que começou como curiosidade logo virou uma faísca. Depois das aulas, elas voltavam para casa e repetiam as receitas, testando técnicas, aperfeiçoando massa, adicionando novos sabores. Entre experimentos, descobriram a pizza napolitana — e ficaram intrigadas com sua leveza e elasticidade. A pergunta era sempre a mesma: como reproduzir?
A inquietação acabou virando projeto. Incentivadas por amigos que provavam as pizzas caseiras, decidiram abrir a Buena Pizza em agosto de 2019. Pouco tempo depois, veio a pandemia. Sem clientes e com o negócio recém-aberto, as duas passaram a entregar as pizzas de bicicleta pelo bairro. A estratégia funcionou: os pedidos cresceram, e os vizinhos começaram a fazer suas encomendas e, mais tarde, a visitar o endereço.
Hoje, a casa mantém um espírito experimental. Os sabores surgem de testes improvisados na cozinha ou de conversas com amigos e clientes. A ideia é criar pizzas com ingredientes acessíveis e combinações criativas, muitas vezes inspiradas em pratos do cotidiano.
Outro traço marcante é o espírito colaborativo. Com frequência, as proprietárias convidam outras pessoas para criar sabores especiais. A inspiração para essa prática veio de longe: da chef internacional Christy Alia, que certa vez reproduziu uma pizza da casa e aproveitou para publicar em suas redes sociais.
Um dia levei um susto: a Christy reproduziu uma das nossas pizzas, postou nas redes e ainda dedicou a criação. Pensamos que talvez ela, de lá, também compartilhasse a sensação de muitas vezes se sentir sozinha nesse ramo. Foi um daqueles momentos que dão força para seguir nesse caminho.
GABRIELA FIORI
Chef e Sócia proprietária da Buena Pizza.
Serviço
Endereço: Rua Coronel Genuíno, 131, no Centro Histórico de Porto Alegre.
Horário de funcionamento: De terça a sábado, a partir das 18h30.
@buena.pizza.social.club

Pesquisa, estética e tempero
Com 25 anos de trajetória na gastronomia, a doutora em Design Estratégico, Ágata Morena construiu uma trajetória que atravessa cozinhas profissionais, transita pela pesquisa acadêmica e chega até projetos sociais. O interesse pela área surgiu ainda na infância, inspirada pela avó.
A figura da matriarca representa muitas mulheres que, ao longo da história, cozinharam dentro de casa sem reconhecimento profissional. Transformar essa memória em profissão também foi uma forma de homenageá-la.
ÁGATA MORENA
Chef de cozinha, consultora e doutora em Design Estratégico
Ao longo da carreira, seu repertório foi sendo construído por diferentes experiências. Trabalhou em cozinhas na França, onde chegou ao cargo de subchef, viveu o cotidiano intenso de restaurantes e também enfrentou desafios comuns a muitas mulheres em ambientes tradicionalmente masculinos. Cada etapa contribuiu para moldar sua visão sobre a gastronomia e, segundo ela, reforçar o quanto cozinhar envolve técnica, estética e respeito aos ingredientes.
De volta ao Brasil, encontrou na sala de aula um novo território de para desbravar temperos, ingredientes e explorar seu lado mais curioso. Hoje desenvolve pesquisas sobre processos criativos ligados à comida e à experiência da mesa. Paralelamente, participa de projetos sociais voltados à formação culinária, como oficinas com mulheres em comunidades, além de atuar como consultora gastronômica no Musa Velutina. Nesses ambientes, segue explorando sua especialidade em panificação, confeitaria e fermentação natural.
Para mais informações sobre cursos e mentorias com a profissional, o contato pode ser feito pelo Instagram.
@aagatamorena
