
Acreditava-se que algumas taças de vinho poderiam desonrar as mulheres, já que a embriaguez feminina era associada a vícios e adultério. A rígida moral romana instituiu a chamada lei do beijo, conhecida como ius osculi (direito ao beijo), pela qual maridos e parentes masculinos beijavam as mulheres na boca para verificar se haviam consumido vinho. Caso fosse comprovado, elas poderiam ser espancadas até a morte. Esse direito pertencia aos homens, mesmo que eles próprios retornassem das festas após terem bebido.
Evoluímos, mas nós, mulheres, ainda enfrentamos desafios na sociedade. No mundo do vinho, que ainda é predominantemente masculino, quando surgiam vagas destinadas a nós, elas costumavam ser os estágios de laboratório, por serem considerados trabalhos mais leves, diferentemente da cantina, que exige força e habilidade. Uma forma simplista de nos manter no mesmo lugar.
Cresce a presença feminina no setor
Eu tenho 1,54 m de altura, sou barulhenta e desastrada. Nem preciso dizer que um único dia no laboratório foi suficiente para fazer um “strike” com as vidrarias e, assim, conquistar uma vaga na cantina — muito mais alinhada ao meu perfil. Nos cursos da área, estamos ampliando nossa presença.
Em 1960 apenas 5% das turmas de enologia eram formadas por mulheres. Hoje, já somos cerca de 35% dos formandos e estamos mais ativas no mercado, com vinícolas lideradas por mulheres (desde o vinhedo até a elaboração do produto e a gestão do negócio).
Blend de talentos
Existe também a habilidade feminina de executar múltiplas tarefas e uma sensibilidade olfatogustativa reconhecida por estudos que indicam que mulheres podem ter até 50% mais bulbos olfatórios na região do cérebro responsável pelo processamento de odores. A enóloga, engenheira química e sommelier Graziela Boscato, da Vinícola Caetano Vicentino (Est. Travessão Curuzu, km 0,7, na cidade de Nova Pádua), comenta o assunto.
—Ser mulher, enóloga e conduzir uma vinícola é o maior atrevimento que já cometi. Em um setor predominantemente masculino, romper padrões é quase mandatório — explica
Segundo a especialista, grande parte das mulheres concede atenção especial aos detalhes, fazendo com que a característica reflita no cuidado ao cultivo da uva, à colheita, à vinificação, ao amadurecimento e ao envase, até o produto final nas prateleiras. Graziela, que ousou ocupar seu espaço e hoje vê seus vinhos encantarem e despertarem curiosidade, se depara com pessoas buscando jantares no meio do vinhedo.
Além dela, outras também estão se destacando no ramo. Talita Nicolini Verzeletti, gerente de qualidade da Vinícola Courmayeur (Av. Garibaldina, 32, acesso secundário ao Vale dos Vinhedos) — empresa administrada por mulheres — lembra que muitas vezes precisou ter sua capacidade técnica testada. Isso acontece porque há uma suposição de que gerir é mais simples do que estar na cantina, mas sua trajetória na nutrição e na enologia foi importante para unir conhecimento técnico e desafios de gestão (inclusive liderando equipes compostas por homens mais velhos).
— Levou um tempo até sermos vistas como gestoras da Vinícola Courmayeur. Hoje conduzimos a empresa com responsabilidade e muito trabalho, respeitando a história construída pela nossa família, mas sempre olhando para a tecnologia e para o futuro. Se a gestão não olha para frente, a empresa fica para trás — diz.
Frescor e inovação
Na ponta da cadeia do vinho está a empresária Marielly Lautert, fundadora da Depósito Vinhos (Demétrio Ribeiro, 1168, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre), que transforma vinho em experiência e encontro. Historiadora por formação, ela brinca que escolheu o vinho por vocação, uma vez que sempre teve curiosidade em compreender a estrutura e o encantamento em atender, ouvir e perceber o que o outro deseja antes mesmo que consiga explicar. Quando inaugurou a loja, em 2019, tinha um propósito claro: devolver às mulheres o poder de escolha, porque por muito tempo alguém escolheu por elas.
—Empreender no vinho é um exercício diário de presença. Muitas vezes visto máscaras: a ‘máscara do homem’ para negociar, impor respeito e ocupar a mesa de decisão; e minha essência feminina para acolher, criar experiências e transformar vinho em conexão. Entre firmeza e delicadeza, fui construindo meu espaço — não para me adaptar ao mundo do vinho, mas para também transformá-lo — contextualiza.
Cada uma de nós tem uma história e uma trajetória. Todas, de alguma forma, precisaram se impor para alcançar seus objetivos e seu espaço no mercado do vinho — seja com atrevimento, vestindo máscaras ou quebrando vidrarias. E, principalmente, sendo nós mesmas, exigindo respeito por nosso trabalho e por nossas competências.
Por isso, hoje, o brinde é com o vinho produzido por elas. Ergam as taças e fiquem à vontade para fazer as compras na Depósito Vinhos, pelo WhatsApp (51) 99309-2442.



