
Poucos símbolos representam tão bem a cultura dos botequins quanto a combinação entre um bom petisco e uma dose de cachaça. Agora, essa relação ganhou uma nova interpretação. Dezesseis bares do Rio de Janeiro uniram experiências, paladares e histórias para criar a Beira, uma cachaça de alambique concebida de forma colaborativa e pensada para refletir a diversidade, a informalidade e o espírito democrático dos balcões cariocas.
O projeto começou no início deste ano, quando representantes dos estabelecimentos viajaram até o alambique da Cachaça Arbórea, em Pirapetinga (MG), para participar da criação da bebida. A proposta ia além de escolher um destilado para abastecer as prateleiras dos bares. A ideia era construir, coletivamente, um blend que reunisse diferentes visões sobre aquilo que uma boa cachaça precisa entregar ao consumidor.
Foi durante essa imersão que o grupo degustou diferentes cachaças envelhecidas em madeiras brasileiras, como Amburana e Pau-Brasil, além da tradicional cachaça branca. A partir dessas provas, nasceu um blend concebido para ser versátil, equilibrado e capaz de transitar com naturalidade entre o copo americano servido no balcão e a taça utilizada na coquetelaria.
— Acho que o maior desafio foi convergir 16 opiniões, vivencias e pontos de vista em apenas um. Pode-se dizer que foi um ‘perde e ganha’ em que todos venceram. A Beira é a prova disso — conta Maurício Maia, cachacier e responsável técnico pelo blend da cachaça.
A proposta da Beira não é atender apenas aos bares envolvidos na iniciativa. O objetivo foi desenvolver uma cachaça acessível e universal, pensada tanto para ser apreciada pura, com ou sem gelo, quanto para servir de base para drinques. Uma bebida que represente, ao mesmo tempo, a tradição da cachaça de alambique e a evolução da coquetelaria brasileira.
A identidade da marca também reforça esse conceito. O rótulo foi desenvolvido pelo artista gráfico Alexandre Fernandes, conhecido como "Madruga", cuja ilustração procura reproduzir a estética, as cores e o clima dos botecos do Rio de Janeiro. A embalagem segue a mesma proposta: uma garrafa de 600 ml inspirada nos antigos modelos utilizados pelas cachaças de alambique nas décadas de 1960 e 1970, fechada por uma rolha sintética no formato das tradicionais tampinhas de garrafa de cerveja.
Todo o processo de criação da Beira foi muito legal. Viajamos juntos ao alambique e fizemos vários testes até chegarmos no exato sabor que queríamos. Agora estamos vendo o resultado pronto, com um rótulo incrível. Ficou uma obra de arte. Espero que todos curtam a Beira como nós curtimos participar desse projeto.
AFIRMA MARI REZENDE
Proprietária do Bar da Frente
O caráter coletivo da iniciativa também aparece no próprio rótulo. Cada um dos 16 bares participantes cedeu um de seus petiscos mais emblemáticos para ilustrar a embalagem, transformando a garrafa em uma espécie de homenagem à cultura botequeira da cidade. Participam do projeto o Bar da Frente (Porquinho de Quimono), Bar do Momo (Bolovo), Conserva (Petiscos no Palito), Culto (Hambúrguer), Baixela (Pau Carnudo), Bar do Trotta (Abobrinha), Bar da Gema (Coxinha), Bar Sambódromo (Língua), Enchendo Linguiça (Linguiça Croc), Noo Cachaçaria (Bolinho Cucuruqui), Sofia (Bolinho de Feijoada), Quitanda (Jovelina), Bar do Bode Cheiroso (Torresmo), Cachambeer (Costela), Raiznutéla (Bolo de Coco) e Porco Amigo (Medida Certa – Torresmo de Barriga).
Mais do que lançar um novo rótulo, a bebida nasce como um exercício de construção coletiva. Uma cachaça elaborada a muitas mãos que reúne bares, petiscos, bairros e diferentes formas de viver o balcão em um único gole, transformando a identidade dos botecos cariocas em seu principal ingrediente.


