
Existem viagens que a gente faz para conhecer um lugar. E existem viagens que a gente faz para se conhecer de novo.
Na minha família, sempre fui aquela que ficava para trás na trilha. A que media o passo, pedia uma pausa a mais, olhava o rio e preferia admirar da margem. Virou piada entre nós — "a Lela e a natureza" — um desencontro antigo, quase resignado. Eu topava a viagem, mas raramente topava o mergulho.
Foi assim que cheguei a Bonito e ao Pantanal sul-mato-grossenses, a convite da LATAM (que inaugurou, em setembro de 2025, voo direto entre Guarulhos e Bonito), sem imaginar que sairia de lá outra. Em determinado momento, me vi de pé num trampolim erguido sobre um rio de água tão limpa que parecia inventada, e pulei. Depois, presa a um sistema de rapel elétrico, desci 90 metros dentro do Abismo Anhumas — subida e descida, sem chão sob os pés, só a certeza estranhamente tranquilizadora de que aquilo era seguro. Mergulhei de snorkel em água gelada e fiquei ali, suspensa, olhando um mundo que eu nunca teria visto se tivesse ficado, como sempre, para trás.
Não foi só a paisagem que me pegou de surpresa — embora ela seja, de fato, de uma beleza que não encontra igual em lugar nenhum do mundo. Foi a sensação de que aquele lugar não pedia coragem: ele a devolvia.
Pantanal, a lida e a mesa
A primeira parada foi a Fazenda Pantanal Experiência, em Miranda. Ali, a vida pantaneira não é encenação: é rotina. Participei de uma trilha de comitiva a cavalo, a mesma tradição que por séculos levou peões a conduzir gado por longas distâncias pelo Pantanal — e entendi, na prática, por que essa lida molda tanto da gastronomia da região. Depois de um passeio de "trenzinho" puxado por trator para observar a fauna e de uma tarde de pesque-e-solte, sentei à mesa para o que viria a ser uma das experiências mais bonitas da viagem: comer, com as mãos, uma paçoca de charque preparada e servida por Edilson, nosso guia na fazenda.
A cozinha sul-mato-grossense carrega uma identidade rara — moldada, em parte, pela proximidade e pela história com o Paraguai, dos tempos da guerra até a convivência de fronteira que segue viva na mesa. Pacu frito, arroz carreteiro, feijão com carne, farofa de charque, mandioca cozida: pratos simples, mas carregados de território. Os peixes de rio — fartos, frescos, sem pretensão — são o fio condutor de tudo.
Cidade virou exemplo

Bonito não faz turismo como qualquer outro destino. Os passeios têm capacidade de carga diária, horário marcado, e só podem ser comprados através de agências de receptivo — nunca diretamente no atrativo. É o sistema Voucher Único, criado ainda na década de 1990 para proteger rios, trilhas e cavernas do excesso de visitação. A orientação das agências, como a Bonito Way, que conduziu boa parte do nosso roteiro, é reservar os passeios com quatro a seis meses de antecedência. Rígido, sim — mas é esse rigor que preserva o que se vê.
E o que se vê é extraordinário. Bonito é o primeiro destino de ecoturismo do mundo com certificação em carbono neutro, e a poucos minutos da cidade fica a Estância Mimosa — primeiro atrativo turístico do planeta com certificação Climate Positive. Fizemos ali uma trilha de 2.800 metros por dez cachoeiras, com um sistema de segurança certificado por ABNT e Inmetro que impressiona tanto quanto a paisagem, e terminamos com um almoço preparado em fogão a lenha, com alimentos orgânicos e doces da região.
Na Gruta do Lago Azul — descoberta em 1924 por um indígena Terena e tombada como Monumento Natural desde 1978 —, a experiência é puramente contemplativa: uma escadaria de quase 300 degraus leva a um lago cuja profundidade máxima já registrada é de 87 metros, cor azul-intensa formada pelo espalhamento da luz solar sobre a água cristalina. Ninguém sabe ao certo de onde vêm essas águas.
Mas foi no Abismo Anhumas que vivi a versão mais física — e mais intensa — dessa "primeira vez". A caverna foi descoberta por acaso, na década de 1970, quando um incêndio expôs uma fenda estreita na terra da antiga Fazenda Anhumas; só treze anos depois alguém teve coragem e equipamento para descer até o fundo, e a visitação começou apenas em 1999. No lago, cientistas já resgataram ossadas de tamanduás que viveram ali há milhares de anos — um lembrete de que aquela imensidão guarda tempo, não só profundidade.
Eu estava nervosa antes de descer. Setenta e dois metros de rapel elétrico, sem ver o fim, só a corda e a confiança de que o sistema era seguro. Mas assim que cheguei lá embaixo, alguma coisa mudou. Normalmente vivo pensando no depois — a próxima tarefa, a próxima preocupação, a ansiedade que já está ali na fila esperando a vez. Dentro do Abismo, isso simplesmente não aconteceu. Durante o passeio de bote, durante o mergulho de snorkel entre estalactites e estalagmites submersas, eu não pensei nem uma vez que precisaria subir de rapel de novo — que teria, de novo, que encarar aquele medo. Fiquei ali, só ali, fascinada com a profundidade, com o silêncio, com a luz entrando pela fenda lá em cima. Foi a experiência mais pura de presença que já vivi — e olha que já viajei bastante, já conheci muitos países. Só sentei na cadeirinha para subir quando a ansiedade finalmente voltou. Até lá, o tempo simplesmente não existiu.
Mesa posta
Se o Pantanal me apresentou a cozinha da lida, Bonito me apresentou a cozinha autoral construída sobre essa mesma base. No Restaurante da Juanita — cuja cozinha carrega influência paraguaia desde a infância da chef na fronteira —, provei pacu preparado com manteiga e alcaparras e, como aperitivo, língua de jacaré assada na brasa: textura e sabor que lembram barriga de porco, suculenta e surpreendente.
Na Casa do João, point quase obrigatório do centro da cidade e um dos pioneiros da gastronomia local, o prato que carrega o nome da casa é a traíra sem espinha — peixe de rio cheio de espinhos que a equipe aprendeu, ao longo de décadas, a limpar com uma técnica própria, servido inteiro à moda pantaneira.
Foi, porém, no Bacuri Cozinha Regional que a cozinha sul-mato-grossense se revelou em sua versão mais autoral. À frente da casa está o chef Sylvio Trujillo, com passagens por restaurantes renomados em São Paulo e no exterior antes de se dedicar a resgatar a culinária ancestral da região. No cardápio, entre outros pratos, provei o cupim de colher — marinado e cozido lentamente por oito horas, até desmanchar — e um peixe de rio grelhado, servido com farofa e pirão da casa. Até a decoração conta uma história: parte do restaurante é erguida com madeira reaproveitada das antigas pontes da Estrada do 21 — a rodovia que liga Bonito ao Pantanal, o mesmo caminho que eu havia acabado de percorrer.
No Recanto Ecológico Rio da Prata, depois da flutuação pela nascente, o almoço trouxe de volta o arroz carreteiro — um lembrete de que, por mais sofisticada que a mesa se torne, ela nunca se afasta muito da fazenda.
Hospedagem em Bonito
Voltei todas as noites ao Zagaia Eco Resort, base da estadia em Bonito. Além do buffet farto — que reúne saladas, carnes preparadas na hora, massas especiais e o bom carreteiro típico da região —, o que mais me marcou ali foi algo menos visível: o resort é praticamente autossuficiente. A estação de tratamento de efluentes processa 11 mil litros por hora, reaproveitando a água tratada na irrigação e gerando fertilizante sem lodo ativo; a energia vem, em parte, de sistema solar fotovoltaico. É a mesma lógica de Bonito em miniatura — um destino que entende que preservar não é discurso, é rotina.
Voltei do Mato Grosso do Sul com a sensação de que ainda existem lugares capazes de nos devolver a alguma versão mais corajosa de nós mesmos. Não foi só o Abismo, nem só o trampolim. Foi entender que a natureza mais exuberante do mundo pode, também, nos ensinar algo sobre nós — se a gente tiver coragem de saltar.
Valores dos passeios no 2º semestre de 2026
Tarifário Bonito Way, sujeito a alteração sem aviso prévio. Valores por adulto, sem transporte, para alta e baixa temporada.
Pantanal Experiência (Miranda/MS): Cavalgada Day Use completo, com almoço (Vida de Comitiva – 100% Peão): R$ 645 (alta) / R$ 645 (baixa)
Estância Mimosa: Trilha e Cachoeiras, com almoço: R$ 410 (alta) / R$ 340 (baixa)
Gruta do Lago Azul: R$ 180 (alta) / R$ 120 (baixa)
Abismo Anhumas: Rapel Elétrico + Flutuação: R$ 1.598 (alta) / R$ 1.598 (baixa) Recanto Ecológico Rio da Prata: Flutuação em Nascente, com almoço: R$ 570 (alta) / R$ 470 (baixa)
Recomendação da Bonito Way: reservar os passeios com 4 a 6 meses de antecedência, sempre por meio de uma agência de receptivo credenciada — não é possível comprar ingresso diretamente nos atrativos.





