
Há quem vá ao restaurante em busca de certezas. Quer o filé com fritas de sempre, o ponto exato da carne que não sobressalta o espírito, o garfo que encontra o prato sem muitas surpresas. Eu pertenço a outra seita. Prefiro o susto. Gosto quando o garçom deposita na mesa um pedaço de papel rosa com meia dúzia de palavras enigmáticas que nos guiarão ao longo da noite.
O cardápio em questão é o novíssimo Menu às Cegas do Libertino (R$ 190), aquele casarão de alma antiga que a gente tanto ama no Bomfim. A proposta, que une as técnicas clássicas do chef Mauri Olmi à curadoria de vinhos da sommelier Fernanda Souza, serve como um "test-drive" para o público: é a oportunidade de provar em primeira mão as receitas que passam a integrar o cardápio oficial da casa.
A noite começou com aquele silêncio reverente de quem examina o papel rosa. Manteiga, Grappa, Uvada. Logo na primeira mordida, viajamos para o interior do Rio Grande do Sul. Ou será que seria a infância? Vemos de perto a releitura poética da nossa clássica nata com chimia. Tudo isso para lambuzar o pão de fermentação natural.
Depois, veio o primeiro ato de coragem. Língua, Gribiche, Pepino. Olha, vou confessar uma coisa sobre a língua. Para muitos, é um divisor de águas; para mim, é poesia pura quando bem tratada. No Libertino, ela retorna em formato de terrine, preparada segundo a tradição francesa.
Servida em temperatura ambiente, ela se desfaz na boca como uma nuvem untuosa. A acidez estalada do molho gribiche e o frescor da conserva de pepino cortam a gordura com uma precisão cirúrgica. É o tipo de entrada que a gente queria comer em potes, de colherinha, no sofá de casa assistindo à novela. Uma das estrelas incontestáveis da noite.

Logo depois, veio o Tartar, Curry Verde e Coentro. O tartar de carne é um clássico de Porto Alegre, mas a casa resolveu levá-lo para passear no Sudeste Asiático. A carne, picada na ponta da faca com precisão, ganhou a picância aromática e o perfume fresco do curry verde. O coentro — esse incompreendido que aqui brilha como herói — e as fatias translúcidas de cebola coroavam o topo, acompanhados de folhas crocantes para dar o suporte físico à mordida. Outro ponto alto, com direito a mais suspiros de aprovação.
Ainda fomos apresentados a uma panelinha de ferro que trazia Atum, Batata e Creme Azedo (um fish and chips de luxo, com a cebolete picadinha) e a um solitário e majestoso Tortelloni de Amendoim e Missô, cujo molho grudava nos lábios com o sabor profundo do umami.
Para limpar a alma antes do grand finale, a refrescância quase medicinal do Kefir com Beterraba e Mel abriu caminho para o Quindim com Maracujá e Tapioca. O quindim e o doce de ovos encontrou no sorbet azedinho de maracujá e na textura da tapioca o equilíbrio perfeito para que a janta terminasse sem nenhum rastro de arrependimento.
Sair do Libertino depois de um menu desses é como acordar de um sonho bom onde a gente não controlava os rumos da história, mas adorou o final. Vá sem preconceitos. Vá de olhos abertos para o novo. Vale cada mordida. Ah! A próxima mudança acontecerá em setembro, na primeira quarta-feira (02), do mês. Então se prepara se quiser conferir em primeira mão as novidades.
Serviço
Endereço: Rua Santo Antônio, 801, no Bom Fim em Porto Alegre
Horário de funcionamento: De terça a sábado, das 19h às 23h. Aos sábados e domingos o almoço é servido das 12h às 15h.
@libertino.poa




