Esqueça tudo o que você sabe sobre o Mandarinier. Aquela casa da Rua Alberto Torres, em plena Cidade Baixa, já não traduz o que a culinária de Leonardo Magni e Liliana Andriola é. Agora, no alto do Moinhos de Vento, os dois assumem, ainda mais, uma “gastronomia com alma, em um lugar feito para se sentir em casa”, como mesmo anunciam.
Eu já conhecia o Mandarinier da antiga versão. Tinha janelas bem iluminadas, ambiente aconchegante, obras do ilustrador e artista visual Renan Santos nas paredes, mesinhas mais reservadas no segundo andar e clima de almoço rotineiro e cheio de sabor.
Tudo novo

Na nova versão, parece que tudo está mais maduro. O almoço virou jantar. O ambiente é mais elegante. As obras do Renan ganham paredes ainda mais imponentes. A luz é baixa e a sofisticação se perpetua por todos os lados.
O menu também ganha uma nova roupagem. Antes, os pratos seguiam uma lógica: os insumos encontrados nas feiras de produtos orgânicos pela cidade ditavam o cardápio da semana. Ou seja, os menus eram sazonais. Agora, a gastronomia contemporânea da casa não depende de nada além das vivências do casal de chefs pelo mundo.
Filipinas, China, Tailândia, entre outros países, aparecem nitidamente nos pratos. Não que eu já tenha feito essas viagens. Elas aparecem na lista, com certeza. Mas saber que encontrarei sabores inspirados nesses lugares aqui pertinho de casa é reconfortante.
À mesa
Na visita ao endereço da Rua Santo Inácio, nos deparamos com uma mesinha reservada. Ao longo da noite, os chefs sugeriram as entradas, os pratos principais, os drinks e as sobremesas.
Já me adiantei para pedir o tartare e arroz (R$ 56). Eu tenho um fascínio absurdo por steak tartar. Sempre que ele aparece, eu escolho. No Mandarinier não seria diferente. A receita deles tem um toque oriental, servida sobre um bolinho de arroz thai jasmim, com emulsão de gergelim e picles de pepino com cúrcuma. A base era crocante e untuosa, que contrastava muito bem com o picante da carne. Nem queria começar assim a experiência, mas esse foi meu prato preferido.
Outra entrada enviada foi o atum e maçã verde (R$ 58). O peixe era posto em lâminas, como sashimi mesmo, intercaladas com fatias de maçã verde, com um aguachile de uva. Ainda levava vinagrete de edamame, aioli e batata palha caseira. A união de tudo era bem refrescante e interessante.
Também recebemos a lula e requeijão (R$ 56): uma lula salteada na manteiga, requeijão caseiro de bergamota e tomate com pesto. Um pãozinho de moranga acompanhava o prato.
Para fechar as entradas, recebemos ainda aquele prato que mais lembrava o Mandarinier do velho testamento. Era uma cenoura assada com molho romesco, queijo feta, azeite de manjericão e crocante de gergelim e de sementes de girassol (R$ 48). Tinha dulçor, textura e sabores que só havia provado no restaurante antigo.
Sabor de casa
Os principais já prometiam essência, e entregaram. O peixe e amendoim (R$ 146) também seguia uma pegada thai. A pescada amarela tinha molho satay (de amendoim torrado e moído), salada de repolho, arroz thai jasmim e farofa de gergelim. É bem diferente de todos os preparos com peixe que eu já tinha provado, e adorei.
Não sei ao certo se o outro prato principal tinha influência de outro país, porque achei bem a cara do que um gaúcho faz: vazio na brasa com demi-glace, batata hasselback, aioli, tomate grelhado, chimichurri e cebola roxa (R$ 149). A carne era bem rosada por dentro (o meu ponto preferido) e se desfiava só com o garfo. Era macia, mas não perdia o sabor. As batatas eram crocantes e carregavam o aioli perfeitamente. O tomate, a cebola e o chimichurri ofereciam um punch de contraste. Pediria esse prato sempre, já que ele tem gosto de domingo e de família.
No meio de tudo isso, recebemos na mesa dois drinks autorais da casa, um com álcool e outro sem. O Tai Fizz (R$ 49) foi o meu preferido. Levava gin, xarope cítrico, limão taiti, vermute extra dry, água com gás e óleo de gergelim. O Bruma, mesmo sem álcool, também não deixou para trás: água de coco, xarope de manjericão, limão siciliano, creme de leite, albumina e água com gás. Ele, inclusive, tem uma textura instigante, pois transborda o copo.
Dulçor delicado
Quindim de abóbora e coco (R$ 37) e iogurte e morango (R$ 40) foram as nossas sobremesas. Uma mais doce e outra mais sentimental. A torta de iogurte com chantilly levava ganache de mirtilo, morangos frescos e merengue. Eu sei, a cada ingrediente citado ela ficava mais saborosa. Não era diferente na colher, prometo.
Por fim, o quindim de abóbora tinha uma base de bolinho de milho e coco e acompanhava sorvete de coco com lascas da fruta. Acho que nunca comi um quindim tão cremoso e denso e cheio de sabor. E um sabor conhecido, reconfortante.
Imponência
Projetada pelo arquiteto espanhol, radicado em Porto Alegre, Fernando Corona, o casarão da Santo Inácio segue tendo vitrais coloridos, paredes e tetos ornamentados, corrimões de ferro forjado, portas em madeira maciça e chão de taco no estilo Versailles em alguns ambientes. É imponente, assim como tudo o que sai da cozinha do Léo e da Lili. A doçura e a delicadeza dos dois pode não deixar transparecer, mas há um novo tempo sendo construído pelos dois (e por sua equipe maravilhosa) que Porto Alegre tem que admirar cada vez mais: uma cozinha guiada pelo tempo do mundo.
Serviço
Endereço: Rua Santo Inácio, 295, no bairro Moinhos de Vento
Horário de Funcionamento: De terça a sábado, das 19h às 22h30min
@mandarinier


