Com certeza você já esteve em diferentes restaurantes instalados dentro de hotéis. Não é novidade, eu sei. Mas e um hotel que existe dentro de um restaurante? Para mim, foi a primeira vez. Situado em uma casa modernista no Setor Marista, em Goiânia, o Íz Hotel Conceito é o primeiro restaurant with rooms do Brasil. O lugar reúne três suítes exclusivas, spa, academia, adega e toda a estrutura de hospitalidade do Grupo Íz.
Cada quarto aborda a tríade sustentada por poesia, matéria e identidade. O primeiro quarto foi batizado de Contemplação, que combina curvas suaves, uma parede de mármore azul que se descola em formato de onda, aplicações de ouro e cortinas onduladas que reforçam a sensação de acolhimento. Depois, a suíte nomeada de Graciliano Ramos — em homenagem ao escritor alagoano — funciona como um refúgio para mentes inquietas. O ambiente reúne peças autorais, como a Mesárvore assinada por Eleonora Hsiung, uma mesa de feijão vintage, uma árvore queimada em Pirenópolis, jabuticabas de metal e uma tela inspirada em Vidas Secas, criada especialmente por Luciano Maia. A última suíte recebe o nome de Introspecção, remetendo à pausa e à arte de estar consigo mesmo. Ela revela a importância e o prazer em analisar o próprio mundo interior, trabalhando matéria e inquietação a partir de texturas cruas, madeira e uma pintura a óleo inspirada na cozinha do Íz e trazendo para dentro do quarto o núcleo criativo do chef.
Tudo isso já tinha me conquistado, mas eu ainda não imaginava o que o menu-surpresa preparado pela cozinha do Íz guardava para a noite. E foi ali, entre uma etapa e outra, que percebi que a experiência não terminava no quarto, ela começava à mesa.
Gastronomia sem amarras

Depois de 10 anos de existência, o menu da casa passou por transformações. Dessa vez, ele foi guiado por ingredientes ainda mais sazonais, orgânicos, rastreáveis e regionais. Com raízes cada vez mais brasileiras, o conceito da experiência ganha força ao olhar para o futuro e definir que comer com responsabilidade é o novo luxo. Foi a partir disso que iniciamos o menu degustação em oito etapas (R$ 635) – que se transformam em 11, mas eu explico depois. Por mais que a cozinha do Íz Restaurante flerte levemente com o tempero ibérico-italiano, todos os insumos partem de terras tupiniquins. Ao saber disso, seguimos o passeio por ingredientes que carregam a identidade mais profunda de Goiás.
No fundo do mar
Nossa noite começou ousada, com o paladar sendo provocado pelos sabores do mar e da terra. Na largada, sentimos a delicadeza do cherne encontrar o aconchego do cajuzinho e a complexidade do mole. Logo em seguida, o lagostim ganha a companhia cremosa da pamonha e o frescor cortante do capim-santo. Mas é na sequência dos peixes que o menu mostra a que veio: a trilha com uma pele perfeitamente dourada e crocante, é escoltada por bacon, banana e a textura de tubérculos laminados, criando um contraste que arrancou suspiros dos que compartilhavam o momento.
Depois dela, a língua, surpreendentemente leve, é servida sobre uma folha de couve com mandioca, destacando o amargor herbáceo e vibrante do matcha; o imponente carabineiro, que tem na cabeça sua parte mais valiosa, saborosa e disputada. O camarão de águas profundas chega à mesa por meio do conceito definido como "da cabeça na cabeça", que consiste no aproveitamento completo do alimento. Sendo assim, sua cabeça é limpa, esvaziada e cozida para ser utilizada como uma "panela" ou "cumbuca" comestível. Nem preciso dizer, que foi de uma elegância absurda, né?!
Raízes na terra
Antes de passarmos às carnes vermelhas, a transição é feita primeiro, pelo wagyu – raça bovina originária do Japão – com seu marmoreio impecável derretendo na boca, seguido pela neutralidade do chuchu, a crocância da semente de abóbora e a acidez de um ponzu de carnes. Já nos últimos capítulos, somos apresentados ao cordeiro, que faz companhia com a untuosidade do foie gras e a pegada rústica e reconfortante do feijão.

O grand finale açucarado mantém o nível de provocação. A sobremesa principal brinca com as temperaturas e texturas na casca da própria fruta, onde a romã se funde ao mascarpone, ao doce de leite e à redução sedutora de vinho do Porto. Toda a elegância e leveza, talvez, tenha feito que o doce se tornasse um dos meus favoritos.
Para fechar, uma técnica clássica brasileira executada de forma genial: uma belíssima quenelle de sorvete deitada sobre uma farofa de ovos doce.
Ao final, com o café e os petit fours, temos a sensação de ter lido um livro complexo, bem amarrado e que nos desafia. Nele, o objetivo principal não está em agradar consensos, mas contar uma história genuína e verdadeiro. Sorte a nossa em fazer parte do epílogo.
Serviço
Íz Restaurante & Hotel Conceito
Rua 1130, nº 125 – Setor Marista, em Goiânia (GO)
@izrestaurante
@izhotel
