
Quantas histórias existem dentro de uma vinícola? Há inúmeros contextos, que constroem estes enredos, mas em vários deles, a família está por trás da origem do negócio. É ela quem toca as burocracias do dia a dia e ensina o ofício aos mais jovens, que mais tarde passam a assumir a responsabilidade. Na Adolfo Lona não foi diferente. Segundo conta Lucca Lona, sommelier e neto do argentino Adolfo Lona, a vinícola começou a ganhar forma desde a chegada do patriarca ao Brasil, em 1974.
Formado em enologia em Mendoza — à época, um dos principais polos de formação da América do Sul — o avô, que chegara de Buenos Aires, com fome de mudança participou de um momento decisivo para o início da profissionalização do vinho brasileiro. Na Serra Gaúcha, ele trabalhou na antiga De Lantier, ligada à Martini & Rossi, ajudando a estruturar produção, incentivando viticultores a melhorarem suas uvas e participando da formação de uma cadeia que ainda estava se desenhando.

Início do sonho
Décadas depois, com o fechamento da empresa, nasce em Garibaldi a vinícola que leva seu nome. A empresa, no entanto, funciona em uma escala menor, mais autoral e, de certa forma, mais próxima de quem faz. De acordo com Lucca, hoje esse legado é compartilhado entre sua mãe, irmãos e primos.
— Aqui tudo funciona em família, onde meus irmãos e primos também se envolvem no operacional da vinícola. Para ter uma noção, eu moro em cima (do prédio), então realmente vivo essa realidade todos os dias — explica o sommelier e responsável pelo empreendimento.
Terroir urbano
Porto Alegre pode ser considerada como referência quando se trata de vinhos urbanos. Ao todo, a cidade tem cinco vinícolas registradas com produtores que fabricam suas bebidas com uvas de fora para vinificação no município. Esse conceito que, pode parecer novidade para alguns, surgiu na década de 80, na Califórnia e passou a ganhar força em capitais como Londres e Paris, chegando até diferentes estados do Brasil.
Porém, para ser considerada uma vinícola urbana, é necessário seguir alguns critérios, conforme explicam especialistas. É preciso estar localizada em uma metrópole e ser distante da zona rural. Isso não significa que elas não tenham outras peculiaridades: algumas plantam as próprias uvas e levam para a capital, enquanto outras compram de produtores; há também aquelas que ficam escondidas em garagens, enquanto existem algumas nos bairros mais movimentados.

Situada no bairro Floresta, a Adolfo Lona segue a lógica da movimentação. Com visitas enxutas, didáticas e quase domésticas, Lucca conduz a experiência (R$ 80) de forma personalizada e paciente. Durante a degustação, o visitante percorre etapas que, em grandes vinícolas, levariam horas. Nesse momento, o sommelier explica a diferença entre método Charmat e tradicional, o visitante vê de perto o remuage — o giro manual das garrafas — e acompanha a lógica do espumante, que pode ficar meses ou anos em contato com as leveduras.
— Quanto mais tempo em contato com a levedura, mais complexidade— explica Lucca, citando notas que vão do tostado ao amendoado.
Em etapas como está, onde os visitantes degutam três rítulos (dois espumantes e um vinho tinto), a bebida deixa de ser apenas produto e volta a ocupar um espaço no processo. E isso aparece até nos detalhes mais práticos: na forma correta de abrir um espumante sem “assassinar” o gás, na inclinação da taça para preservar o perlage, ou na escolha de deixar um rótulo mais tempo em cave, mesmo já premiado, esperando o ponto certo para chegar ao mercado.
No fim da visita, fica a sensação de que a cidade ganha uma outra camada. Entre prédios, ruas e rotinas aceleradas, existe um espaço onde o tempo desacelera.
Adolfo Lona
Endereço: Avenida Chicago, 307 no bairro Floresta
Reservas: A visita pode ser agendada pelo WhatsApp (51) 989859850
@adolfo.lona



