É muito comum que, ao falarmos da Alemanha, automaticamente pensemos em cerveja, chucrute e salsichas. Essas são as referências que logo vêm à cabeça, fruto da identidade cultural do país. Mas a vitivinicultura alemã tem registros desde a época do Império Romano.
Hoje, o país está entre os dez maiores produtores de vinho do mundo, é o quarto maior consumidor da bebida — atrás apenas de França, Itália e Estados Unidos — além de ser o maior importador mundial de vinhos, à frente do Reino Unido e dos EUA. Ou seja, tradição não falta, e os germânicos também apreciam uma boa taça de vinho.
Classificação de vinhos

Essa nação é referência mundial na elaboração de vinhos brancos, reconhecidos pela elegância, precisão e capacidade de expressar o terroir. Mas, calma que eu explico. O clima frio tem uma grande influência nesse resultado, já que proporciona uma maturação lenta das uvas, preservando naturalmente a acidez e favorecendo a formação de aromas delicados e complexos. Diante disso, a bebida traz grande frescor, equilíbrio e excelente capacidade de envelhecimento. Tudo isso significa se deparar com uma combinação de leveza, intensidade aromática e longevidade.
A variedade Riesling é a grande protagonista do país pela sua versatilidade, dando origem tanto a vinhos secos e frescos, com notas cítricas e florais, quanto a vinhos doces, marcados por aromas de frutas maduras e biscoito. Além disso, o composto responsável pelas notas de petróleo e gasolina, o famoso TDN, destaca-se pelas características das uvas mais evoluídas, explica Bruno Siufi, sommelier e professor do UniSenac.
Mais de 100 mil hectares de vinho
A Alemanha possui 13 regiões vitícolas (Anbaugebiete), concentradas principalmente às margens do Rio Reno, onde a presença do rio ajuda a regular a temperatura e favorece a maturação das uvas.
Entre os principais locais está Mosel, conhecida por seus vinhedos extremamente íngremes, que favorecem a incidência solar. O espaço também se destaca pelos solos de ardósia, capazes de absorver calor durante o dia e liberá-lo durante a noite, contribuindo para o amadurecimento das uvas, explica o professor. Os vinhos de Mosel ainda carregam a fama de serem doces e de baixa qualidade, mas os grandes produtores da região elaboram Rieslings de altíssima qualidade, com açúcar residual equilibrado por uma acidez vibrante.
Outro destaque é Rheingau, localizada na margem norte do Rio Reno, onde surgiu o conceito de Spätlese, a colheita tardia alemã. Segundo a tradição, durante a Idade Média, a colheita só podia começar após a autorização da Igreja. Em determinada safra, o mensageiro do bispo se atrasou cerca de duas semanas, obrigando os produtores a colherem uvas mais maduras do que o habitual. O resultado surpreendeu pela qualidade dos vinhos e deu origem a um dos estilos mais famosos da Alemanha.
Pfalz, a segunda maior região em volume de produção, possui um clima relativamente mais quente e ensolarado, favorecendo o cultivo de uvas tintas, como a Spätburgunder, nome alemão da Pinot Noir. Os vinhos apresentam coloração rubi clara, aromas de frutas vermelhas e acidez marcante. "Vale experimentar", reforça Bruno.
Rheinhessen é a maior região produtora da Alemanha. Formada por colinas suaves às margens do Reno, apresenta um dos climas mais quentes e secos do país. Foi dessa região que surgiu o famoso Liebfraumilch, estilo que ficou conhecido internacionalmente por meio da icônica "garrafa azul". Embora tenha impulsionado as exportações dos vinhos alemães nas décadas de 1970 e 1980, também contribuiu para criar o estigma de que todo vinho alemão é doce e de baixa qualidade, percepção que está longe da realidade da vitivinicultura alemã contemporânea.
Para muitos brasileiros, o primeiro contato com um vinho alemão aconteceu justamente por meio da famosa garrafa azul. Embora seja um vinho leve, frutado e de perfil adocicado, ele representa apenas uma pequena parcela da diversidade dos vinhos produzidos na Alemanha.
Conhecimento acessível

Outro aspecto interessante é que os rótulos alemães costumam trazer informações que ajudam o consumidor a compreender o estilo do vinho. Trocken significa vinho seco, com pouco açúcar residual. Halbtrocken indica um vinho meio seco, com uma leve percepção de doçura, mas ainda marcado pelo frescor e pela acidez. Já Feinherb é um termo bastante utilizado pelos produtores, embora não seja uma classificação oficial. Em geral, descreve vinhos com um pouco mais de açúcar residual do que um Halbtrocken, sempre equilibrados pela alta acidez. Na prática, indica um estilo macio, harmonioso e levemente adocicado, sem ser um vinho doce, complementa o sommelier.
Com a tendência de mercado voltada para vinhos mais leves, com menor teor alcoólico, e o crescimento do consumo de vinhos brancos, os rótulos alemães tendem a ganhar espaço no Brasil. O desafio ainda está na oferta: nem todas as regiões chegam com facilidade ao mercado brasileiro e muitos vinhos desembarcam por aqui com um valor agregado elevado, o que faz com que ainda sejam pouco presentes na mesa dos consumidores que gostam de descobrir novos rótulos.
Com base nisso, separamos alguns vinhos para quem deseja conhecer um pouco mais das diferentes regiões produtoras da Alemanha. Afinal, esta coluna trouxe apenas uma pequena amostra da riqueza da vitivinicultura alemã. Que fique o gostinho de querer mais.



