Em tempos de Copa do Mundo, tudo vira assunto. Não apenas os gols da seleção ou as chances de cada equipe levantar a taça. A gente passa a prestar atenção nas cidades que recebem os jogos, descobre países que talvez nunca tenham estado no nosso radar, pesquisa curiosidades sobre lugares distantes e troca figurinhas na fila do supermercado. Gostando ou não de futebol, é difícil escapar: durante algumas semanas, tudo respira a Copa.
E com o vinho não poderia ser diferente.
Os três países-sede da Copa do Mundo de 2026 — México, Estados Unidos e Canadá — também produzem vinhos. Pensando nisso, tivemos inspiração suficiente para viajar pelos destinos através das taças, descobrindo regiões, histórias e rótulos que ajudam a contar um pouco da identidade de cada nação. Porque toda a seleção tem a sua forma de jogar. E todo país tem sua forma de produzir vinho.
Terroir mexicano
A história da vitivinicultura mexicana é muito mais antiga do que muita gente imagina. As primeiras videiras chegaram ao país no século XVI, trazidas pelos espanhóis, o que faz a produção de vinhos no México ser uma das mais antigas das Américas.
Embora o Vale de Guadalupe, na Baja California, seja hoje a região mais conhecida e responsável pela maior parte da produção do país, o vinho mexicano vai muito além da costa do Pacífico. No México central, regiões como Zacatecas, Aguascalientes, Guanajuato e Querétaro se destacam graças às altitudes que ultrapassam os 2 mil metros e ao clima semiárido. Entre tintos ensolarados, espumantes premiados e uma nova geração de produtores, o México mostra que seu talento vai muito além da tequila e do futebol.
Rótulos norte-americanos
Já os Estados Unidos nos parecem mais familiares quando o assunto é vinho. Regiões como Napa Valley e Sonoma, na Califórnia, ajudaram a colocar o país no mapa mundial da vitivinicultura. O histórico Julgamento de Paris, em 1976, mostrou que os nativos eram capazes de produzir vinhos tão prestigiados quanto os grandes rótulos europeus.
Contudo, o vinho americano vai muito além da Califórnia. Oregon se destaca pelos elegantes Pinot Noir produzidos em pequenas propriedades (muitas delas com produções bastante limitadas). O estado também possui uma rigorosa legislação de rotulagem: para que um vinho seja considerado varietal — feito com apenas uma variedade de uva ou com uma predominância muito maior de uma casta — e leve o nome da uva no rótulo, ele precisa conter pelo menos 90% daquela variedade. No Brasil, esse percentual mínimo é de 75%.
Outro destaque está nos vinhedos de Finger Lakes, no estado de Nova York, conhecidos por seus vinhos frescos e de acidez vibrante. O país combina inovação, diversidade e uma cultura do vinho que cresce a cada safra, transformando cada taça em uma viagem por diferentes aromas, sabores e estilos.
Brindes canadenses
O Canadá talvez não seja o primeiro país que venha à mente quando falamos de vinho, mas é responsável por um dos estilos mais curiosos e admirados do mundo: o Icewine. Desenvolvido a partir de uvas que congelam naturalmente na videira, esse vinho nasce de um processo bastante particular. Quando as uvas são colhidas e prensadas ainda congeladas, o gelo se separa do mosto, resultando em um líquido extremamente concentrado em açúcar, acidez e aromas.
Como resultado vemos um vinho doce, mas equilibrado, marcado por notas cítricas, frutas maduras e toques amendoados, sem se tornar enjoativo. A principal região produtora é o Vale do Niágara, em Ontário, onde a influência dos Grandes Lagos cria condições ideais para a viticultura.
Entre as variedades mais utilizadas para a produção de Icewine estão a Vidal — uma uva híbrida especialmente adaptada ao frio intenso —, além da Riesling e da Cabernet Franc. A qualidade é assegurada pelo rigoroso sistema VQA (Vintners Quality Alliance), que regulamenta a produção e garante que o congelamento das uvas ocorra naturalmente na videira, seguindo padrões extremamente exigentes.
Viva o futebol, viva a diversidade
A Copa do Mundo surpreende dentro e fora dos estádios. Entre jogos e taças levantadas, ela nos apresenta culturas, tradições e curiosidades dos países participantes. Nesta viagem pelos anfitriões de 2026, descobrimos que o México vai muito além dos nachos e da tequila, que os Estados Unidos produzem alguns dos vinhos mais influentes do mundo moderno e que o Canadá transformou o frio extremo em um dos estilos mais singulares da vitivinicultura.
Afinal, conhecer um país também é entender aquilo que ele coloca à mesa e na taça. E, no fim das contas, toda seleção tem sua forma de jogar. Assim como cada país tem sua própria maneira de fazer — e apreciar — o vinho.



