
Tem coisa que a gente como todo dia sem saber de onde veio. O chimarrão que aquece as mãos do sol nascer, a carne que vai para a brasa todo domingo, a farinha de milho que prepara a polenta: cada um desses gestos carrega uma história de 400 anos.
E foi justamente para contar essa história que o Destemperados se debruça sobre a herança gastronômica das Missões Jesuíticas-Guaranis, em quatro episódios no Youtube. A data não é coincidência, já que em 2026 as reduções completam 400 anos na região que hoje conhecemos como o noroeste do Rio Grande do Sul.
Essa é uma das histórias mais ricas e menos contadas da formação cultural do nosso Estado. E, por isso, o Destemperados entrará pelo lugar de costume: a cozinha. A pesquisa irá contar como a nossa gastronomia é herança dos povos guaranis e da chegada dos jesuítas.
Diogo Carvalho e Lela Zaniol visitaram alguns dos lugares onde tudo aconteceu: percorreram a região das Missões, visitaram ruínas, conversaram com pesquisadores, conheceram a aldeia Tekoá Koenju e mergulharam nos registros históricos da região.
Além disso, em pleno Memorial Jesuíta Unisinos, Diogo conversou com a historiadora Débora Salvi e com a coordenadora do curso de gastronomia da Unisinos Sarah Winck de Almeida sobre o passado e o futuro da culinária regional.
A HERANÇA

Erva-mate: o ritual que ficou
Antes de qualquer coisa acontecer, os Guaranis já tinham a erva-mate, e não como um simples hábito. Era caá, palavra que significa planta por excelência. Os indígenas a consideravam sagrada, medicinal e a tinham como um ato coletivo. Passar a cuia era dividir riqueza, estabelecer confiança e marcar pertencimento.
Com a chegada dos jesuítas, a erva foi proibida, já que tinha efeitos estimulantes. Depois, experimentaram, aprovaram e construíram o maior empreendimento comercial de erva-mate da época.
Peixe e churrasco: do moquém ao espeto
Antes do boi, havia o rio. Os Guaranis eram grandes pescadores, e o peixe, assado no moquém (técnica ancestral indígena de defumação para preparar e conservar os alimentos), era a proteína central da dieta. Com a chegada do gado, criado nas reduções e solto nos campos da região, o boi se torna protagonista desse preparo. A carne foi para o espeto, incorporou a técnica que já existia e criou um ritual social.
Milho e mandioca: a base indígena que sustenta tudo
Se há dois ingredientes que definem a cozinha do Sul — e do Brasil —, são o milho e a mandioca. Ambos são herança direta dos povos originários, cultivados e dominados pelos Guaranis. A mandioca, além disso, tem uma lenda para explicar sua origem. O resultado está até hoje na mesa gaúcha: na farofa, no beiju, na polenta.
Uva e butiá: as bebidas fermentadas
Engana-se quem pensa que o vinho chegou ao Sul com os imigrantes italianos há 150 anos. Os jesuítas já cultivavam uvas nas Missões para produzir o vinho das missas. Ao lado da uva, o butiá é parte da paisagem do Rio Grande do Sul há séculos, e seus frutos já eram usados para bebidas fermentadas pelos indígenas.
A WEBSÉRIE
Os quatro episódios da série estarão disponíveis no canal do Destemperados no Youtube a partir deste mês. O projeto é uma realização do Grupo RBS e do Destemperados com o apoio histórico e acadêmico da Unisinos e do Colégio Anchieta.
- Assista ao primeiro episódio:



