Aos 46 anos, Cauã Reymond tem uma vasta carreira como ator. Participou de novelas, filmes, séries e peças teatrais, sendo mocinho, vilão e galã. Só que, de 2014 para cá, também começou a pensar o audiovisual por trás das câmeras e passou encarar o papel de produtor de cinema.
Agora, ele dá mais um passo nesse processo e entrega para o público a primeira série idealizada por ele — que ainda assume o papel de protagonista. Jogada de Risco vem batendo recordes de audiência no Globoplay, abordando temas que são tabus no universo do futebol, como a homossexualidade.
Maurício, personagem de Reymond, é um ex-jogador de futebol que vê sua carreira terminar de forma frustrante após uma lesão e agora tenta se firmar nos bastidores do esporte como empresário de atletas.
A trama busca mostrar "o jogo por trás do jogo", aprofundando-se nos bastidores do campo. Disputas de poder, dramas familiares, negociações tensas, contratos, traições silenciosas e jogos de influência fazem parte da história.
Contando também com nomes como Leticia Colin, Mariana Sena, Marcos Frota, Marcelo Adnet e Mauricio Mattar, a primeira temporada de Jogada de Risco terá um total de oito episódios, com dois sendo lançados a cada quinta-feira — os últimos serão disponibilizados neste dia 13.
Na entrevista a seguir, Reymond fala sobre o processo de criação da série.

Confira a entrevista com Cauã Reymond
Como é ver um projeto imaginado por ti fazendo sucesso como o conteúdo mais visto do Globoplay atualmente?
Estou vivendo uma sensação nova. Venho dormindo pouco de empolgação. A gente vem recebendo ótimas críticas, batendo recordes de visualizações nas redes sociais com a nossa campanha.
Ando muito feliz com os comentários também na rua, as pessoas falando de forma muito ativa, que é uma coisa não tão comum em série, mas sim em novelas.
Sinto que estou dando um novo passo na minha trajetória profissional.
CAUÃ REYMOND
Ator e idealizador de "Jogada de Risco"
Que figuras do mundo do futebol te inspiraram a criar esse universo tão rico da série, com personagens tão distintos entre si?
Esse baú você não vai conseguir abrir (risos). Não posso falar de forma alguma, seria muito antiético da minha parte.
Fiz um processo de pesquisa muito longo: foram seis meses com a Sofia Maria, que foi a nossa primeira roteirista. Depois, levei para a Globo, que gostou e comprou o projeto, e a gente começou uma nova caminhada de pesquisa.
O meu interesse era criar ficção em cima da realidade, não da cabeça dos nossos roteiristas ou do que a gente acha. Tenho a sensação de que a gente alcançou isso.
Eu estava esperando que tu me dissesses: "Ah, o jeito marrento daquele personagem me inspirei no Renato Gaúcho".
Tenho certeza de que ia render muito se eu dissesse isso (risos). Não foi. Mas só para deixar claro: sou fã do Renatão, tá?
Já no primeiro episódio, a série aborda assuntos que são tabus dentro do mundo do futebol, como a homossexualidade. Por que decidiste trazer esse assunto para a produção?
Como artista e indivíduo, não acho que esses assuntos deveriam acabar com a carreira de ninguém. Tenho muita curiosidade pelo comportamento humano e me interesso artisticamente por assuntos que têm muitas camadas, que têm contradições. Acho que daí nasce a melhor dramaturgia.
Com o roteiro do Thiago Dottori, supervisão do Lucas Paraizo e com o Bruno Safadi como nosso diretor artístico, fizemos muitos encontros para construir uma história que não tivesse esse preconceito com a sexualidade.

O que tu e o teu personagem, Mauricio, têm em comum?
Ambos temos zero preconceito sobre o que você está a fim de fazer entre quatro paredes. Contanto, é claro, que seja construído, conversado, que as pessoas tenham entrado em um acordo.
Nesse sentido, quando o Mauricio fala para o Geraldo "Cara, o que você faz dentro de quatro paredes não é problema de ninguém", podemos dizer que essa é uma fala minha e do Mauricio.
Esse talvez seja o único ponto em que a gente (ele e o personagem) tenha algum tipo de conexão, além de sermos dois sonhadores (risos).
Na série, os personagens enfrentam vários problemas, mas não deixam a bola parar. No ano passado, viveste desentendimentos nos bastidores de Vale Tudo. Como lidas com as adversidades? Usas como combustível para se superar?
Para mim, Vale Tudo foi uma experiência muito prazerosa. O César foi um dos personagens que eu mais gostei de fazer. Tive os meus desafios, como todo mundo tem em todos os trabalhos, mas fico muito feliz com o êxito da novela. E, de inspiração, tenho a minha mãe, que era HIV positiva desde muito novinha. E nunca desistiu. Perdi a minha mãe por um câncer.
É uma coisa que eu passo para minha filha e para os meus amigos. A luta, a prática do esporte, do jiu-jitsu, também traz isso: você vai sempre encontrar desafios.
O que posso dizer é que volto sempre a me interessar por situações que tenham algum desafio muito grande para os personagens.
CAUÃ REYMOND
Ator e idealizador de "Jogada de Risco"
Quais semelhanças tu enxergas entre o ator e o jogador de futebol?
Acho que não só o jogador de futebol, mas as pessoas que têm uma vida pública acabam tendo uma relação diferente com a privacidade. E cada um negocia da sua maneira o que é privado e o que não é.
Já vi pessoas que abriram muito esse território da intimidade e depois fecharam as portas. No meu caso, sou um cara muito reservado e vou abrindo aos pouquinhos.
Como foi teu processo de pesquisa para a série? Te inspiraste em alguma outra produção? Temos algumas séries abordando o futebol e fazendo sucesso, como Brasil 70: A Saga do Tri, da Netflix, e Ted Lasso, da Apple TV.
Não me inspirei em nenhuma, mas dei uma olhada em várias séries e filmes. A gente queria abordar o assunto de um jeito inspirado na realidade.
Conversei com agentes, jogadores, dirigentes, assessores de imprensa, boleiros, parças. Isso resultou em muito material, não surgiu da nossa imaginação.
A gente fala de um recorte do universo. De forma alguma estamos tentando generalizar comportamentos e atitudes, mas colocar uma lupa em territórios de curiosidade. Acho importante dizer que tem muita gente séria no futebol, muitos jogadores comprometidos, dirigentes e agentes que fazem um ótimo trabalho.
Vários trechos da série estão viralizando nas redes sociais, com destaque para as cenas de sexo. Como foi a decisão de desenvolver esse produto 18+?
A gente quis se aproximar ao máximo de situações que aconteceram ou que tinham semelhança (com o mundo real). Desde o início, eu, como artista, tinha muito interesse em abraçar o erótico também do universo (do futebol), sem julgamento nenhum sobre a sexualidade de jogador, dos personagens e de ninguém.
Queria trazer para a série a quebra desse tabu sobre a sexualidade e as escolhas sexuais de cada um.
CAUÃ REYMOND
Ator e idealizador de "Jogada de Risco"
Como foi reunir um elenco tão diverso e com vários nomes importantes para a teledramaturgia brasileira?
Isso é o mérito dos nossos produtores de elenco, Dani Ciminelli e Matheus Lelis, e mérito também do Bruno Safadi (diretor da série) e do Zé Villamarim, diretor artístico da Globo, que é o nosso paizão, nosso general na condução desse projeto.
Eu participei dos testes, das leituras, das conversas, tive muitas ideias. Vi o Marcos Frota em Mulheres de Areia, vi o Mauricio Mattar em A Viagem. São ídolos para mim, são pessoas que marcaram a minha vida como telespectador.
Essa é uma característica que eu admiro em produtores de elenco: as boas ideias. Você vê isso nos filmes dos Safdie Brothers, no Tarantino, em grandes autores.
No nosso elenco, cada um fala com o seu público. Um dos objetivos era trazer pessoas de diferentes escolas, cada um com as suas características, seus talentos, para somar. E vou te falar: a pluralidade e a qualidade do elenco são um dos maiores vetores da nossa série.
Tens ideias para novas temporadas?
Óbvio, claro. A gente já está trabalhando em cima disso isso, mas ainda estamos no começo da caminhada.

Entre novelas, filmes e séries, qual formato te deixa mais confortável?
Como ator, tenho muito prazer em fazer série, porque acho que você se aprofunda no personagem. Adoro fazer novela, estar todo dia na casa das pessoas. Cinema eu também adoro fazer, mas, às vezes, dependendo do filme, você fica com vontade de ter brincado um pouquinho mais no parquinho.
Então, a série, na maioria das vezes, acaba sendo um lugar em que a medida é bem gostosa. É um projeto que me traz um brilhinho especial nos olhos.
Sobre a série
Idealizada por Cauã Reymond, Jogada de Risco é criação do próprio artista, ao lado de Sofia Maria e Thiago Dottori — que também assina o roteiro final.
A supervisão de texto é de Lucas Paraizo, com direção de Bruno Safadi, produção de Isabela Bellenzani e direção de gênero dramaturgia de José Luiz Villamarim.
A produção ainda tem no elenco nomes como Leticia Colin, Mariana Sena, Marcos Frota, Marcelo Adnet, Breno Ferreira, Maria Bopp e Mauricio Mattar.



