
Stranger Things foi um divisor de águas para os serviços de streaming. A série dos irmãos Matt e Ross Duffer foi lançada pela Netflix em 2016 e arrebatou o público de cara. Virou um produto gigantesco e, com isso, a expectativa para cada nova temporada era enorme. Quando o desfecho da saga foi lançado, no último dia de 2025, virou o assunto principal de conversas. O problema é que não teve a qualidade esperada pelos fãs.
Com roteiro frágil e desperdício do potencial de vários personagens, o episódio final está entre os três piores da série nas avaliações do site IMDb. Esse não é um fenômeno isolado: outros colossos do entretenimento decepcionaram na hora de fechar a conta.
Apenas neste ano, The Boys (Prime Video) e Euphoria (HBO Max) também fizeram com que a audiência repensasse se valeu a pena dedicar tantas horas àquelas histórias.
Em The Boys, os dois episódios finais ficaram entre os piores de toda a série nas avaliações do IMDb. Já Euphoria teve toda a temporada de despedida concentrando as notas mais baixas da produção.

Foco em engatilhar novo projeto
Mas, afinal, por que alguns encerramentos de programas de televisão não conseguem fazer jus ao resto da saga?
De acordo com o crítico Michel Arouca, do canal Série Maníacos, existe hoje uma tendência dos grandes estúdios de não querer que aquele produto tão valioso simplesmente acabe. Por isso, dentro da produção original, já se começa a trabalhar uma série derivada.
— Tenho notado uma preocupação maior em deixar o próximo projeto engatilhado do que finalizar um projeto 100%. Em Stranger Things, fizeram um final ambíguo que deixou o público frustrado. Não tem a ver com decisão artística, é uma decisão totalmente comercial — opina Arouca.
Às vezes, existe uma desconexão muito grande dos roteiristas e criadores de séries com o público.
MICHEL AROUCA
Crítico do canal Série Maníacos
O criador do Série Maníacos analisa que, em The Boys, ocorreu um fenômeno ainda mais cristalino: com o spin-off (Vought Rising) focado no Soldier Boy (Jensen Ackles) já em produção e com lançamento previsto para 2027, o título original deu mais foco, em sua quinta e última temporada, para criar as pontes para o derivado do que encerrar a narrativa de maneira satisfatória.
— Às vezes, existe uma desconexão muito grande dos roteiristas e criadores de séries com o público. Eles ficam querendo agradar a eles mesmos na salinha de roteiro. É uma arrogância tão grande que acabam não pensando em algo maior.
Para Arouca, um dos finais mais memoráveis é o de Breaking Bad:
— Foi excelente porque o Vince Gilligan (criador da série) decidiu finalizar sem pensar se iria ter spin-off ou continuação. Quis fechar da melhor maneira possível e fez isso.

Culpa da expectativa dos fãs?
Há quem defenda que a frustração existe, muitas vezes, por conta da grande expectativa dos fãs. Seria uma espécie de idealização inalcançável.
De acordo com o crítico Matheus Machado, do site Matinê Cine&TV, esse é um argumento raso utilizado para defender decisões que deixam em segundo plano o viés artístico do projeto:
— Não tem como culpar o fã. A partir do momento em que tu tens um Stranger Things ou um Game of Thrones, que são séries que lideram um catálogo inteiro, o estúdio vai querer de alguma maneira capitalizar depois do final.
Segundo Machado, um final aberto "não é de todo ruim, mas tem que ser bem-feito":
— O grande problema é que o estúdio não quer largar o osso.

Pressão comercial
Além dos spin-offs, há casos em que as séries são estendidas além da ideia original do showrunner.
Stranger Things foi concebida pelos seus criadores como uma antologia — ou seja, com uma história diferente a cada temporada —, mas acabou transformada em uma narrativa única de cinco temporadas por pressão da Netflix.
— É claro que uma obra audiovisual pode ter um teor mais artístico, um significado simbólico para as pessoas, mas é um produto de uma empresa. Só que os espectadores foram alimentados, a partir dos episódios, para desenvolver teorias de que tal personagem seria tal coisa. Daí, no final, não foi — enfatiza Machado.
Alta expectativa é o que dá audiência
Essa lógica faz com que algumas produções permaneçam no ar enquanto seguem lucrativas — caso de Grey's Anatomy, que já ultrapassou 20 temporadas —, além de limitar a autonomia criativa de parte dos showrunners.
— É a alta expectativa do fã que vende ingresso de cinema e dá audiência para a série. Não é necessariamente uma obrigação agradar ao fã, mas não se pode usar a carta de que a expectativa alta demais estragou um final de série — defende Arouca.
Um final aberto não é de todo ruim, mas tem que ser bem-feito.
MATHEUS MACHADO
Crítico do site Matinê Cine&TV
Conexão entre criadores e público
Em séries que mobilizam milhões de fãs nas redes sociais, como The Boys e Stranger Things, é natural que os espectadores pressionem por determinados rumos para a história.
O desafio dos roteiristas é decidir até que ponto vale incorporar esse retorno sem comprometer a identidade da obra. Querer agradar a todos pode deixar a obra sem personalidade — ou produzir um monstro de Frankenstein.
— O que precisa é existir uma conexão entre as pessoas que estão realizando aquele trabalho e os fãs daquela obra. Muitas vezes, isso se perde completamente pelo caminho — conclui o criador do Série Maníacos. — Temos o exemplo de Dexter. Muitos fãs detestaram o final da série original. E Dexter voltou mais duas vezes. Na anterior, o final também desagradou. Agora, essa nova série, Ressurreição, está muito boa. Vamos ver se vai ser a primeira série da história a ter três finais ruins.



