Aos 59 anos, Claudia Raia soma quatro décadas de carreira que passam pelo balé clássico, pela Broadway, pela televisão brasileira e, mais recentemente, pela produção de musicais. Aos 13 anos, ela integrou o American Ballet Theatre e o histórico Teatro Colón, em Buenos Aires, antes de estrear como atriz. Hoje, revive nos palcos o papel-título do musical Tarsila, a brasileira, sobre a pintora Tarsila do Amaral, que está em turnê pelo país. Nesta semana, ela foi a convidada do RivoTalks, programa de entrevistas de GZH e Rivonews.
Na conversa, Claudia passou por praticamente todas as fases de uma trajetória que ela mesma descreve como um roteiro "inverossímil": a educação rígida sob o comando da mãe, que não conseguiu ser bailarina, mas se tornou uma grande empresária; a morte do pai ainda na infância; a relação com Fernando Collor, que a transformou em alvo de boatos, e a maternidade tardia, aos 47 anos.
Se sua biografia virasse roteiro de novela, conta que até ela desconfiaria de alguns episódios:
— A minha vida é inverossímil. Um negócio que você fala: 'como assim aconteceu isso com você?' — disse, lembrando do dia em que se casou com Alexandre Frota usando apenas um sapato, porque uma fã havia levado o outro, enquanto sua mãe, dona Odete, sangrava de uma hemorragia nos bastidores da cerimônia.
Do casamento turbulento ao apoio público a Fernando Collor, ainda jovem, ela diz não se arrepender de nada, nem mesmo do episódio que classifica como um dos mais dolorosos da carreira, quando boatos a associaram ao então presidente:
— Nem o apoio ao Collor, sabe, que foi uma desgraça na minha vida, em todos os sentidos. Os teatros ficaram vazios, porque inventaram que eu era amante dele, portanto eu era HIV positivo. Uma coisa surreal.
Criada por uma mãe que abriu mão da própria carreira de bailarina para virar empresária de escolas de dança, Claudia herdou dela a obsessão pela disciplina — e também a dificuldade de comemorar conquistas. Segundo ela, foi só com o professor de canto que aprendeu a celebrar os próprios acertos, depois de anos repetindo apenas o mantra que a mãe lhe ensinara: "não acredito numa vida de sucesso sem disciplina".
Sobre a maternidade tardia, ela destaca que antes de tentar a fertilização in vitro fez um pedido a Nossa Senhora de Fátima:
— Que seja de primeira, eu não quero ficar tomando hormônio, me envenenando — afirmou.
A fertilização não deu certo, mas pouco tempo depois a atriz engravidou de forma natural do Luca, hoje com três anos.

Sobre a Ramona, personagem trans que interpretou em novela no início dos anos 2000 e que hoje é tema de estudos acadêmicos, ela reconhece o caráter pioneiro do papel, ainda que hoje defenda que atores trans interpretem personagens trans.
— Ela me dá orgulho porque ela abriu muitas portas. As pessoas que chegam perto de mim falando da Ramona dizem: ali eu me enxerguei, ali eu me reconheci — relembra.
Ao encerrar a conversa, questionada sobre a proximidade dos 60 anos, Claudia recusa a ideia de envelhecimento como limitação e resume a fase atual com uma frase que também dá título a um dos capítulos de sua vida:
— Eu não tenho preguiça de melhorar. Eu sou tão melhor agora do que eu era.

