
Alanis Guillen estreou nas telas no final da tarde como a protagonista Rita, em Malhação: Toda Forma de Amar (2019), última temporada da novela juvenil. Depois disso, não saiu mais do horário nobre da TV Globo: viveu Juma Marruá no remake de Pantanal (2022) e Michele em Mania de Você (2023).
Aos 27 anos, a atriz faz história na teledramaturgia com a personagem Lorena, em Três Graças, que vive um romance com Juquinha (Gabriela Medvedovski), em cenas de beijo sem cortes ou desfoques, noites de amor e uma trama que lava a alma de casais de mulheres que, até então, não se viam representadas na TV.
Em entrevista, Alanis Guillen comenta o sucesso do casal Lorena e Juquinha, os reencontros com colegas em cena e critica a permanência da homofobia e do machismo na sociedade.
Confira a entrevista com Alanis Guillen
Em Três Graças, você contracena com antigos parceiros de cena como Pedro Novaes e Murilo Benício. Como foi esse reencontro?
É muito especial reencontrar amigos e contracenar com parceiros de cena que fazem parte da nossa trajetória. É bonito perceber nossa evolução como artistas e como o estudo e o trabalho individual de cada um se fortalecem quando estamos juntos em cena.
Lorena sempre bateu de frente com o pai, principalmente no que diz respeito ao machismo. Na vida real, como você lida com pessoas que insistem em discursos retrógrados, como os de Ferette (Murilo Benício)?
Precisamos enfrentar essa realidade e responder com firmeza aos discursos machistas e misóginos. É fundamental que haja respeito em todas as relações. Sou uma pessoa que valoriza a qualidade dos vínculos e dos afetos e acredito na empatia e na generosidade que devemos ter uns com os outros. O respeito precisa ser a base que orienta a convivência entre as pessoas e, quando há isso, naturalmente, nasce a admiração.
Por isso, faço um movimento consciente para contribuir com um mundo mais respeitoso, mais cuidadoso e mais justo, especialmente com as mulheres, que ainda são tantas vezes agredidas e desrespeitadas.
Este é seu terceiro trabalho no horário nobre, e a repercussão tem sido maior até do que quando você viveu Juma em Pantanal. Esperava por esse sucesso todo?
São novelas muito diferentes, com personagens encantadores. Cada uma tem sua espinha dorsal, suas delícias e também suas dores. No caso de Lorena, esse sucesso acontece porque estamos falando de temas reais, tratados com verdade: falamos do amor em sua forma mais livre e chegamos cada vez mais à casa das pessoas, abrindo diálogos necessários sobre o afeto entre pessoas do mesmo sexo e sobre os afetos de maneira mais ampla.
O casal "Loquinha" foi abraçado de forma apaixonada pelo público, com direito a fã-clubes e a uma repercussão que já movimentava as redes sociais antes mesmo de as duas se conhecerem. A que você credita esse sucesso todo?
Esse sucesso vem muito da verdade como tratamos esse tema e do fato de que, agora, muitas pessoas conseguem se enxergar nesses personagens. Existe um grupo que ama, vive, constrói suas histórias e também deseja se ver representado. É muito bonito poder dar voz a essas trajetórias e representar pessoas que, por muito tempo, talvez não tenham se visto na televisão ou na ficção.
Três Graças tem mostrado casais LGBT+ de forma inédita e sem cortes. Como você avalia a abordagem dessas temáticas na teledramaturgia atual e o que ainda falta ser alcançado na questão da representatividade?
É fundamental, nos dias de hoje, falarmos sobre temas contemporâneos. Tenho dito isso cada vez mais nas entrevistas e também em conversas com amigos e colegas de profissão: precisamos tratar de assuntos reais, com verdade. A arte tem o papel de representar e de ser espelho da sociedade, para que as pessoas possam se enxergar, se reconhecer, se analisar e também aprender a se amar e a se respeitar.
Por isso, é tão importante trazer esses temas à tona e levá-los aos quatro cantos do país, alcançando lugares onde, muitas vezes, essas conversas não chegam. Quando percebemos que essas histórias estão abrindo diálogo e tocando as pessoas, surge também uma sensação muito bonita de dever cumprido.
Você e Gabriela Medvedovski parecem muito amigas nos bastidores, e isso tem se refletido na sintonia das personagens. Como tem sido a troca? O que vocês têm em comum além do fato de ambas terem estreado na TV como protagonistas de Malhação?
Eu e a Gabi temos uma troca muito bonita, baseada em amizade e em um grande respeito pelas atrizes que somos e pelas personagens que interpretamos. Construímos uma intimidade dentro e fora de cena de forma muito natural. Isso tem sido muito rico para a história que estamos contando, porque essa conexão verdadeira também se reflete na tela e fortalece ainda mais a relação entre as personagens.
As cenas de Lorena sendo expulsa de casa e, posteriormente, ouvindo palavras duras do pai repercutiram muito com o público. Você chegou a receber mensagens de pessoas que passaram por situações parecidas?
Depois dessa cena, recebi muitas mensagens de pessoas que passaram por situações semelhantes. Isso mostra como retratar essas histórias com verdade na dramaturgia – e na telenovela – é importante, porque nos permite amplificar essas vozes e trazer à tona histórias que muitas vezes ficam silenciadas.
Também é uma forma de lembrar da importância de cuidarmos uns dos outros, de quem vive na mesma casa, na mesma família, na mesma comunidade. A arte tem esse poder de iluminar lugares que, muitas vezes, estão escurecidos ou adormecidos.
Você já viveu ou presenciou situações de homofobia na vida real? Como lida com isso?
A homofobia e outros preconceitos ainda estão presentes no cotidiano de muitas pessoas, no Brasil e no mundo. Por isso, é fundamental que possamos conversar abertamente sobre o assunto e ajudar a desmistificá-lo.
Quando falamos de amor, falamos de encontros, de trocas, de afeto e de verdade. Mais do que discutir gênero, precisamos olhar para a humanidade que existe nessas relações e para o direito de todos de viver seus afetos com liberdade e respeito.
