
Bilionária, bonita e misteriosa. Esse coquetel é pouco para definir Lily Watkins Safra, gaúcha com trajetória internacional, personagem destacada em um dos sucessos do momento na plataforma de streaming Netflix: Assassinato em Mônaco. Esse documentário de true crime está centrado na intrigante morte do marido dela, o banqueiro libanês-brasileiro Edmond Safra, dono de um patrimônio acumulado de US$ 30 bilhões (cerca de R$ 160 bilhões na cotação atual), segundo a revista Forbes (especializada em listar os ricos e famosos). Vivia guarnecido por 25 seguranças particulares e morava em um principado que se orgulha de quase não registrar crimes. Mas o financista morreu em 1999, aos 67 anos, em incêndio criminoso que consumiu seu luxuoso apartamento no edifício Belle Époque, em Monte Carlo, bairro mais emblemático de Mônaco. Uma cuidadora morreu junto, asfixiada. A mulher do magnata conseguiu escapar.
A polícia monegasca apontou como autor do crime um enfermeiro e guarda-costas de Safra, o ex-militar norte-americano Ted Maher, que teria ateado fogo ao prédio e simulado ter sofrido ataque de assaltantes. A intenção dele, supostamente, seria salvar o banqueiro e cair nas suas graças, talvez recebendo recompensa pelo ato heroico. Entretanto, o bilionário morreu e Maher foi condenado pelo crime — que sempre negou ter cometido.
É uma trama mirabolante, em que sobram suspeitas sobre a autoria do assassinato, começando pelo enfermeiro e passando pela máfia russa (que teria perdido muito dinheiro nos bancos de Safra). Abundam também no filme insinuações de que Lily seria a maior beneficiada com a morte do marido. Ela morreu em 2022, aos 87 anos, vítima de um câncer no pâncreas, mas antes processou vários autores de obras que a apontavam como uma espécie de "Viúva Negra" (por ter se casado quatro vezes, com melhoria da situação financeira a cada casamento).

Em 2005, Lily conseguiu na Justiça embargar a venda da obra Empress Bianca ("Imperatriz Branca", em livre tradução), escrito pela aristocrata inglesa Lady Colin Campbell. Foi considerado um roman à clef (um romance com personagens reais disfarçados) sobre a vida da bilionária, com insinuações de que Lily seria uma alpinista social. O estoque não vendido do livro foi destruído pela própria editora, a Arcadia, após determinação da Justiça britânica.
Lily e Edmond se uniram em 1976 em Londres, com presença da realeza e magnatas do mundo inteiro. Ela, milionária, por herança de uniões conjugais anteriores. Ele, bilionário, graças ao fato de ser um dos controladores do Republic National Bank, que fundou com dois irmãos. Originários de uma família de Aleppo (Síria), mas radicados em Beirute (Líbano) e posteriormente naturalizados brasileiros, eles foram também fundadores do Banco Safra. Os Safra fizeram fama como guardiões do dinheiro dos afortunados do planeta, entre eles monarcas, astros de Hollywood e oligarcas russos.
Edmond e Lily, ambos de origem judaica, se conheceram em um leilão de joias em Paris — o bilionário teria dado o lance vitorioso, ela perdeu, mas ele a teria presenteado com a coleção leiloada. Foi o quarto casamento dela e o mais duradouro.
O casal era globe-trotter, com residências em Nova York, Londres, Paris, Genebra e Mônaco. Sua casa na Riviera Francesa — chamada Villa Leopolda por ter pertencido ao rei Leopoldo II, da Bélgica — era uma mansão junto ao mar, com 11 suítes e durante muito tempo apontada como a residência mais cara do mundo. Era avaliada em US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6,4 bilhões).
Champagne e leilões

Edmond e Lily mantiveram o hábito de frequentar leilões, como recorda o mais notório colunista social do Rio Grande do Sul, Paulo Raymundo Gasparotto, que conheceu o casal pessoalmente.
— Eu trabalhava para a empresa Couro Moda e ia umas quatro vezes por ano a Paris, onde me encontrava com o diplomata Walther Moreira Salles e sua esposa, Lucia. Eles eram muito amigos dos Safra e uma vez fui apresentado por Lucia a eles, num coquetel no Ritz da Place Vendôme — relata.
Chamou a atenção de Gasparotto que tanto Lucia como Lily não gostavam de borbulhas nas champanhes e usavam batedores de prata e marfim para diminuir o gás dessa bebida. Vários desses objetos foram posteriormente leiloados pela bilionária e o lucro, doado a instituições de caridade. Os leilões eram organizados pela Sotheby's, de Nova York, e tiveram inúmeros catálogos editados, apresentando as peças. Em outubro de 2011, Gasparotto acompanhou duas vendas de coleções de batedores, cujo valor inicial para os lances foi de US$ 5 mil o conjunto (quase R$ 27 mil).
Sobre rumores de que Lily poderia ser beneficiada pela morte dos maridos, Gasparotto desdenha, com uma frase:
— Sucesso causa inveja.
Vontade de visitar o RS
O colunista diz que, na ocasião em que a conheceu, Lily ressaltou ser gaúcha de Canoas e ter vontade de rever o Rio Grande do Sul, de onde saiu quando criança. Queria visitar as Missões, algo nunca concretizado.
Lily nasceu em 20 de dezembro de 1934 em Canoas, quando a cidade tinha 40 mil habitantes e ainda era um distrito de Gravataí (que também não tinha esse nome, era chamada Aldeia dos Anjos). A Base Aérea estava em construção.
O pai dela, Wolf Watkins, era um engenheiro ferroviário tcheco-britânico que se mudou para a América Latina para prestar serviços à indústria ferroviária brasileira. Ele trabalhava para a The Porto Alegre & New Hamburg Brazilian Railway Company Limited, propriedade do empresário inglês John MacGinity, responsável pela linha férrea entre a capital gaúcha e o Vale do Sinos.
A esposa de Watkins, Annita Noudelman de Castro, era uma dona de casa judia que fugiu da Ucrânia para o Uruguai (depois, Brasil) por causa da violência antissemita. O jornalista canoense Jeison Karnal pesquisou as origens de Lily. Tudo indica que ela nasceu em uma casa no centro de Canoas (hoje demolida), no quarto dos pais, porque eram assim os partos naquela época, com ajuda de doulas (ou parteiras).
A menção a Canoas consta de uma biografia não autorizada escrita pela jornalista canadense Isabel Vincent chamada Gilded Lily ("Lily Dourada", em livre tradução). O livro foi proibido no Brasil a pedido do sobrinho de Lily, Leonardo Watkins, porque algumas pessoas entrevistadas na obra levantam suspeitas de que a bilionária poderia estar por trás da morte do marido.

Wolf Watkins e Annita moraram também em Porto Alegre, na Cidade Baixa. Estivemos na Rua Joaquim Nabuco, 80, onde Lily teria residido com os pais. Era um sobrado, já demolido. No local hoje fica um prédio de cinco andares, onde ninguém consultado ouviu falar da bilionária ou dos seus pais. Ao lado, no número 78, fica uma casa parecida com a que teria sido dos Watkins, mas o atual dono diz que foi construída nos anos 1970 —portanto, muito depois de Lily ir embora do Rio Grande do Sul.
O sobrado na Joaquim Nabuco foi o último endereço dos Watkins no Estado. Quando Lily tinha por volta de oito anos, o pai dela foi em busca de novas funções no Sudeste, onde as ferrovias tinham expansão maior do que no Sul. Ele e a família se mudaram para o Rio de Janeiro, na cidade de Mesquita, onde o tcheco montou uma fábrica de vagões. Virou um industrial de referência, tanto que a via principal de Mesquita, Rua Sr. Watkins, o homenageia.
Quatro casamentos e três mortes
Na juventude, Lily morava em Mesquita mas estudava no Rio, em bons colégios, onde aprendeu francês, espanhol e inglês. Ela gostava de se vestir com elegância e frequentar festas. Foi em uma delas, no Uruguai, em que conheceu o primeiro marido, o industrial argentino Mario Cohen, fabricante de meias de nylon. Eles casaram quando ela tinha 17 anos.
Tiveram três filhos e se separaram em 1965. Ele morreu em um acidente de carro no início dos anos 1970. Em 1989, um dos filhos do casal, Claudio, também morreu em um acidente automobilístico, junto de um neto de Lily.
Na época da morte de Cohen, Lily já se relacionava com o empresário Alfredo Greenberg, o Freddy, filho de um romeno refugiado de guerra e que abrasileirou o sobrenome para Monteverde. Ele era dono da rede de lojas Ponto Frio, especializada em importar dos EUA geladeiras para o abrasador Rio de Janeiro, além de outros eletrodomésticos. Virou milionário. O casal teve um filho.
Em 1969, em meio a uma crise depressiva e logo após se separar da esposa, Monteverde foi encontrado morto, com dois tiros no tórax. A investigação concluiu que foi suicídio. Lily ficou milionária e ainda vendeu sua participação no Ponto Frio para o Grupo Pão de Açúcar, por cerca de R$ 824 milhões. Notícias dão conta que, em 2015, a viúva ganhou uma ação judicial contra a rede de supermercados por ter se sentido prejudicada na maneira com que foi feito o pagamento da venda. Na ocasião, a gaúcha teria levado mais R$ 212 milhões em indenizações.
Logo após a morte de Monteverde, Lily se mudou para a Europa. Lá ainda teria um rápido casamento com um empresário britânico-marroquino, Samuel Bendahan, mas eles se separaram depois de apenas algumas semanas, em 1972. A solteirice durou até 1976, quando ela conheceu e se casou com Edmond Safra — por coincidência (ou não), o banqueiro que cuidava das aplicações financeiras de Freddy Monteverde.
Fortuna e filantropia

A relação de Lily e Edmond Safra durou 26 anos, até a fatídica noite de 1999 em que ele morreu sufocado pela fumaça do incêndio. A viúva herdou cerca de US$ 1,3 bilhão, segundo a revista Forbes (algo próximo de R$ 7 bilhões, na cotação atual). Mas não gastou nem perto disso, pois fez da filantropia uma prática constante.
A fundação criada por Edmond e Lily financiou o Centro Edmond J. Safra para Ética em Harvard, o campus Edmond J. Safra na Universidade Hebraica de Jerusalém e o Hospital Infantil Edmond e Lily Safra em Israel. Além disso, pagou para que estudantes visitassem o campo de concentração de Auschwitz (Polônia) e estudassem na Ópera de Paris. Na França, aliás, a gaúcha também doou o equivalente a R$ 88 milhões para a reconstrução da catedral de Notre-Dame, danificada por um incêndio.
Depois que o furacão Katrina devastou o campus da Universidade Dillard, uma instituição historicamente negra em Nova Orleans, Lily doou US$ 500 mil (R$ 2,7 milhões) para a recuperação da universidade e outros US$ 500 mil para os sem-teto nova-iorquinos.
Na velhice, ela vendeu parte da vasta coleção de arte e pedras preciosas para fazer doações. Em 2012, se desfez de 70 peças de joias (incluindo um anel de diamante de 34 quilates), para beneficiar 20 instituições de caridade, entre elas uma que auxiliava crianças carentes em Ruanda.
No Brasil, Lily ajudou a financiar a construção do Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra, que fica em Natal (RN) e conta com a participação do pesquisador Miguel Nicolelis.





