
Um médico renomado, referência para uma região e com mais de 25 mil cirurgias no currículo, é suspeito de causar mortes e lesões em pacientes no Rio Grande do Sul. A trajetória de João Couto Neto, do bloco cirúrgico ao banco dos réus, é o tema da série Quebra de Juramento, que estreia nesta quinta-feira (8) no Globoplay.
Em três episódios, o documentário narra o drama das supostas vítimas e acompanha a investigação policial que indica que o cirurgião teria cometido erros que vitimaram mais de cem pessoas no Estado. Conforme a apuração da série, Couto Neto responde a 140 inquéritos – 108 por lesão corporal e 32 por assassinato. Ele também é réu em dois processos por homicídio de seis pacientes. Nenhum caso foi julgado ainda.
Formado pela Universidade Católica de Pelotas, o médico fez carreira em Novo Hamburgo, município de 227 mil habitantes a 45 quilômetros de Porto Alegre. Especialista no tratamento de endometriose e em cirurgias de hérnia e vesícula, cultivou fama pela habilidade demonstrada em videolaparoscopia, técnica cirúrgica pouco invasiva que exercitava em profusão.
Dados compilados pelo documentário mostram que Couto Neto teve 925 pacientes operados por apenas um plano de saúde em 2021, 1.030 em 2022 e realizou 1.139 procedimentos em apenas um hospital em 2022.
— Ele tinha mãos ágeis — conta uma enfermeira.

Para a Polícia Civil, tamanha efetividade equiparava o ambiente hospitalar à linha de produção de uma fábrica, em detrimento dos cuidados exigidos durante uma cirurgia. Em um cenário que reproduz um bloco cirúrgico, sucedem-se depoimentos de pacientes que foram internados para procedimentos considerados simples, mas até hoje guardam sequelas, como o uso de bolsa de colostomia e incapacidade para o trabalho.
Em depoimentos impactantes, os órfãos detalham a rotina de dor e sofrimento dos pais que sucumbiram após a cirurgia. São relatos de perfuração do intestino, infecção generalizada e outras complicações severas que, comunicadas a Couto Neto, teriam sido respondidas com grosserias, ofensas ou orientação para o paciente tomar leite de magnésia.
Em contrapartida, colegas médicos e ex-pacientes de Couto Neto destacam o profissionalismo e a perícia do médico, que se jactava de fazer até 20 cirurgias em um único turno de trabalho. Ao longo dos três episódios, a série também ouve a Polícia Civil, o Ministério Público, entidades médicas e especialistas.
— É um drama médico-judicial. João Couto Neto é denunciado por homicídio doloso, não é um enquadramento comum, e nenhum caso foi julgado. Nosso objetivo não é transformá-lo em vilão; estamos apresentando todos os lados, todos os argumentos que estão postos nessa discussão — explica o diretor e roteirista da série, Thiago Guimarães.
"Não é um true crime tradicional"

Produzido ao longo de oito meses, Quebra de Juramento surgiu a partir de uma inquietação da editora-executiva de documentários do Globoplay, Clarissa Cavalcanti. Após ler uma matéria sobre o caso, Clarissa passou a pesquisar o assunto, entrou em contato com alguns pacientes do médico e se convenceu de que estava diante de uma história que ia além dos documentários criminais.
— Não é um true crime tradicional, um crime que já foi esclarecido, que se comprovou algo. Não se sabe tudo o que aconteceu. É um documentário que traz outras camadas, discute a questão médica, a relação médico-paciente e a judicialização da saúde no país — afirma Clarissa.
Proibido pela Justiça de exercer a medicina, Couto Neto não quis dar entrevista, delegando as explicações ao advogado. Em um país em que as ações por danos morais e materiais na saúde mais que dobraram em cinco anos, passando de 29,3 mil em 2020, para 76,9 mil em 2024, a série começa com o doutor Drauzio Varella explicando o célebre juramento de Hipócrates e como as frases proferidas pelo pai da medicina foram adaptadas ao longo dos séculos para acompanhar a evolução da profissão.
A despeito da pompa solene de uma promessa de formatura, o mais célebre médico do país resume a essência da atividade:
— O que faz da medicina uma profissão respeitável não é o que juramos, e muito menos essa aura sacerdotal, mas a empatia e o compromisso diário com os pacientes. Nesse sentido, está lá no Código de Ética Médica como a primeira responsabilidade das médicas e dos médicos: não causar dano ao paciente.


