
Você prepara a pipoca, apaga as luzes de casa, escolhe um filme de suspense no serviço de streaming que assina há anos e, bem no meio da revelação de quem é o assassino da história, puff!: um comercial publicitário de dois minutos interrompe a imersão. E não dá para pular. Resta assistir à propaganda ou, então, pagar um valor mensal a mais para que isso não ocorra novamente.
Essa é a realidade que os assinantes dos planos básicos das plataformas de mídia sob demanda vêm encontrando ao tentar assistir a conteúdos que, antes, só eram interrompidos caso o próprio usuário desejasse. Esse tipo de imposição dá a impressão de que, a cada nova atualização promovida pelas gigantes do entretenimento, mais vantagens os clientes vão perdendo – os anúncios chegaram depois da restrição ao compartilhamento de senhas, por exemplo.
Segundo a professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Indústria Criativa da Feevale, Vanessa Valiati, a inserção de propagandas nas plataformas de streaming representa uma mudança estrutural no modelo que originalmente diferenciava esses serviços da TV por assinatura.
— No início, o streaming se consolidou justamente pela liberdade: sem interrupções de anúncios, maior controle sobre o conteúdo e modelos mais flexíveis. Pode-se falar em um rompimento de uma espécie de "contrato" com a audiência — ressalta.
Essa ruptura, para o jornalista e crítico de cinema Matheus Machado, vem acompanhada de um incômodo ao usufruir da programação dessas plataformas, em comparação à soberania que o usuário tinha antes. Além da quebra da imersão, o tempo até o término do anúncio pode distrair o espectador, que tende automaticamente a levar a mão ao celular e passar a consumir outros conteúdos.
— A pessoa abre as redes sociais e começa a receber uma carga de incentivos, sendo atraída para ficar no celular. Para as plataformas, imagino que seja prejudicial, porque pode ser que o espectador saia tanto da experiência de assistir ao filme que decida até não ver mais ou, então, volta dividindo a atenção. Mas, como cinéfilo, realmente, atrapalha a experiência — aponta Machado.
Há pesquisas de mercado que elencam os anúncios como um dos principais motivos para o cancelamento de serviços de streaming.
VANESSA VALIATI
Pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Indústria Criativa da Feevale
Mais investimento
Entre as gigantes do streaming, a Netflix anunciou mudanças em seus pacotes de assinatura em 2022, passando a incluir anúncios já no plano mais básico. Na mesma época, outras plataformas também já seguiam – ou estudavam seguir – o mesmo caminho, como Prime Video e Disney+, em uma espécie de experimentação com o usuário.
O motivo? Lucrar mais, claro, mas também ajudar a sustentar a produção da grande quantidade de conteúdo presente nos catálogos, em uma tentativa de superar a concorrência em volume.
Esse movimento, porém, conforme explica Vanessa, pode gerar frustração no público a ponto de o espectador desistir não apenas de voltar para o filme ou a série, mas do próprio streaming, que vai ficando cada vez menos vantajoso:
— Há pesquisas de mercado que elencam os anúncios como um dos principais motivos para o cancelamento de serviços de streaming.
Às vezes, esse intervalo, que é puramente para lucro, também serve como um respiro para a pessoa perceber: "Peraí, o que está acontecendo ao meu redor?".
CLARICE GRECO
Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Paulista
Hoje, o plano padrão da Netflix, com anúncios, custa R$ 20,90 por mês. Para ter as mesmas condições – qualidade do vídeo (1080 pixels) e quantidade de aparelhos simultâneos (dois) –, mas sem as propagandas, o usuário tem que desembolsar mais que o dobro do valor: R$ 44,90. Já no Prime Video, o plano é de R$ 19,90 mensal e, caso o usuário não queira interrupções nas produções, precisa desembolsar mais R$ 10.
No Disney+, o padrão com anúncios é R$ 27,99 por mês e, com as mesmas configurações, só que sem as propagandas, o valor dispara para R$ 46,90. Entre as plataformas populares, é o valor mais alto. Na HBO Max, o plano passa de R$ 29,90 para R$ 44,90. Enquanto isso, no Globoplay, o valor vai de R$ 22,90 para R$ 39,90 caso o assinante não queira ter interrupções durante a experiência audiovisual.
Machado explica que a ideia dos serviços de streaming foi se aproximar de um formato que dá certo e tem grande aceitação do público, como o do YouTube – a diferença é que, nesse modelo, o usuário não paga nada além da internet para consumir conteúdo e só passa a desembolsar dinheiro, com o YouTube Premium, caso não queira ser impactado por anúncios:
— Existem dados que comprovam que as pessoas assistem muito mais YouTube pela TV. Os serviços de streaming, notando essa popularidade, mesmo com muitas interrupções, tentaram seguir por este caminho de monetização e, assim, sustentar esse negócio. Afinal, são empresas que estão comandando essas plataformas. Elas não existem apenas pela arte. Querem fazer render dinheiro.
Mas, como cinéfilo, o principal fator é, realmente, que atrapalha a experiência.
MATHEUS MACHADO
Jornalista e crítico de cinema
Outro lado
Segundo Clarice Greco, professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Paulista (Unip), a interferência causada pelo intervalo é discutida desde o começo dos estudos sobre televisão, décadas atrás.
Com o tempo, mesmo que tenha viés de lucro, os comerciais se tornaram uma questão cultural – o público aguardava a pausa para ir ao banheiro, ver o feijão no fogo, conversar com familiares, recolher a roupa. Com a chegada do streaming, isso mudou.
— A ideia de maratonar filmes e séries sem interrupções, na verdade, é criticada por uma vertente de teóricos. A pessoa não bebe água, não respira, não sai mais de casa. Às vezes, esse intervalo, que é puramente para lucro, também serve como um respiro para a pessoa perceber: "Peraí, o que está acontecendo ao meu redor?". Ele incomoda, mas também pode interromper a hipnose — explica Clarice.
Ou seja, o streaming, que já vem incorporando transmissões ao vivo, com horários pré-determinados – apesar destes conteúdos, posteriormente, ficarem disponíveis no catálogo – está caminhando para se aproximar cada vez mais de formatos que já existiam antes dele, como da televisão.
Os especialistas detalham que a principal diferença, que é a liberdade para a escolha de conteúdo, deverá se manter. De resto, não há certezas.
— Tudo o que aconteceu nos streamings até agora são testes: de consumo, de cultura, de lucro, de comportamento do consumidor. Tudo tem sido cada vez mais efêmero com as tecnologias digitais. As mudanças estão mais aceleradas e a gente não sabe se vai chegar em uma estabilidade ou se faz parte do futuro a gente viver cheio de mudanças o tempo inteiro. São esses dois caminhos — completa Clarice.


