
Ambientado cerca de um ano após a enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024, Caju, Meu Amigo chega à televisão como um convite à memória, ao afeto e à empatia. O telefilme, coprodução da TV Globo e da RBS TV com realização da Okna Produções, será exibido nesta segunda-feira (19) no Cine BBB, dentro do Big Brother Brasil 26, e também na Tela Quente, para todo o país.
A partir de um cãozinho caramelo, a produção aborda uma das dores mais sensíveis deixadas pela catástrofe: a separação entre pessoas e seus animais de estimação. A trama acompanha Rafaela, vivida por Vitória Strada, uma jovem de classe média que adota um cachorro resgatado no bairro Sarandi e constrói com ele uma relação de afeto e companheirismo.
A vida parece perfeita ao lado de Pingo, nome escolhido pela jovem para batizar o cão, até que ela descobre que o animal tem uma antiga tutora: Nice, personagem de Liane Venturella que perdeu a casa na enchente e vive desde então em um abrigo. Há mais de um ano, ela sonha em reencontrar o seu Caju, que não conseguiu levar consigo no dia do resgate.
O dilema vivido pela personagem de Vitória Strada é complexo e emocionante: como lidar com a ideia de que o cachorro que hoje faz parte da sua vida também pertence à história de outra pessoa? Como aceitar o risco iminente de perdê-lo, mesmo sabendo que alguém já sofre com essa ausência?
Apesar da confusão de sentimentos, Rafaela decide procurar a antiga tutora de Pingo, iniciando uma relação marcada por trauma e incompreensão. De um lado, Rafaela traz o olhar de quem não foi diretamente atingido pela enchente e tenta entender, muitas vezes de forma dura, por que Nice “deixou o cachorro para trás”. Do outro, Nice carrega o trauma de quem perdeu tudo e revive, a cada pergunta, a violência daqueles dias sombrios.

O encontro entre as duas escancara como a enchente foi vivida de formas diferentes e como, para quem observa de fora, nem sempre é possível compreender a complexidade das situações-limite. Essa relação, que se torna um dos pontos mais fortes da narrativa, ganha novos contornos quando Pingo/Caju foge foge de casa.
Unidas pelo afeto em comum, Rafaela e Nice passam a somar forças para encontrar o cão que, apesar das diferenças, ambas amam profundamente. A busca se transforma em uma espécie de saga pela cidade, que leva o espectador a passear por regiões que ainda guardam marcas da enchente, como o Sarandi e as ilhas.
Para o público porto-alegrense, o filme deve provocar um impacto emocional particular ao reconhecer esses espaços e reviver, ainda que de forma bastante delicada, a memória recente da tragédia. Não por acaso, como conta Vitória Strada, as gravações foram atravessadas pela emoção coletiva.
— Muitas pessoas passavam pela equipe e paravam as gravações para contar o que tinha acontecido. Foi muito dolorido, não foi fácil — conta a gaúcha, destacando a sensibilidade com a qual a produção aborda a tragédia. — É uma história muito bonita, em que retratamos a enchente de uma forma delicada, por meio das relações. Eu, como gaúcha, posso falar que nosso povo é completamente unido nessas horas.
Dirigido por Bruno Carboni, o filme aposta em uma abordagem humanizada, que evita o espetáculo da tragédia e prefere olhar para as relações que emergem depois da perda. A fotografia de Bruno Polidoro contribui para esse olhar cuidadoso, enquanto o elenco constrói personagens cheios de nuances, sem vilões ou mocinhos.

Outro destaque absoluto é o próprio Caju/Pingo, interpretado pelo simpático cão Tofu, um caramelo de presença magnética que conquista pela desenvoltura em cena e, claro, pela fofura. Mais do que um elemento emocional na narrativa, o cachorro funciona como elo entre mundos distintos e como símbolo de um amor que não precisa ser exclusivo para ser verdadeiro.
Sem entrar em spoilers, Caju, Meu Amigo caminha para um desfecho tão bonito quanto significativo: mostra que um único animal pode amar muitas pessoas, enquanto lembra que inúmeros animais resgatados da enchente ainda estão à espera de um único humano disposto a retribuir esse amor.


