
Altíssima carga dramática em episódios de curtíssima duração. Assim são as novelas verticais — folhetins pensados para consumo no celular — que caíram nas graças do público brasileiro e chamaram atenção até mesmo da TV Globo, que, na última semana, anunciou sua entrada no mercado dos microdramas.
Em comunicado à imprensa, a gigante da teledramaturgia informou o lançamento de duas novelas verticais ainda neste ano: Tudo Por uma Segunda Chance, que será veiculada nas redes sociais e terá integração com a trama de Dona de Mim, exibida na faixa das 19h; e Cinderela e o Segredo do Pobre Milionário, que entrará no catálogo do Globoplay e terá o cantor Gustavo Mioto como protagonista.
Mas, afinal, o que são as novelas verticais? E por que esse tipo de produção está fazendo tanto sucesso entre o público?
Episódios de um minuto e meio
Apesar de remeterem a um gênero bastante conhecido (e amado) pelos brasileiros, os folhetins para celular são muito diferentes das novelas tradicionais, pensadas para o consumo em telas horizontais.
A distinção mais gritante diz respeito ao tempo de duração dos episódios. Enquanto o capítulo de uma produção televisiva tem quase uma hora, a trama das novelas verticais é construída em capítulos que atingem, no máximo, três minutos – sendo que a maior parte não ultrapassa um minuto e meio.
Essa extensão responde à lógica das redes sociais. Conforme Luciano Romanieli, produtor executivo da Cine8 Filmes, empresa pioneira na realização de novelas verticais no Brasil, o formato é influenciado por plataformas como o TikTok e o Instagram, onde imperam os vídeos curtos. A premissa é que, com uma duração reduzida, o espectador sempre estará disposto a assistir aos conteúdos.
— Muitas vezes, deixamos de ver um filme porque não temos tempo naquele momento, então migramos para as redes sociais. Quando a gente percebe, estamos há uma hora vendo reels. A mesma coisa ocorre com os microdramas: o capítulo atrai por ser curto, mas as pessoas acabam assistindo a vários capítulos de uma vez — explica.
Quanto ao modo como as cenas dos microdramas são captadas, Romanieli explica que não se trata de gravar um folhetim na horizontal para depois ajustá-lo ao formato da tela dos celulares. Todo o processo é realizado levando em consideração o dispositivo em que a novela será assistida.
— A dinâmica é totalmente diferente, apesar de a linha dramática lembrar uma novela tradicional. A gravação já é feita com a câmera na vertical. Em termos de linguagem cinematográfica, a maioria das produções foca em plano e contraplano, porque o formato limita os movimentos de câmera — detalha.
Roteiro direto e dramático
A verticalidade impacta também as histórias contadas nas novelas para celular. O enredo deve ser capaz de prender a atenção quase instantaneamente; por isso, grande parte dos folhetins verticais privilegia “histórias universais” — jornadas de superação, romances entre pessoas de classes sociais distintas e amores de infância que se reencontram na vida adulta estão entre os temas mais recorrentes.
O roteiro também deve ser capaz de fidelizar o espectador, que, idealmente, deve terminar um capítulo querendo assistir ao próximo. Para alcançar esse objetivo, a narrativa é dividida de forma estratégica, como explica o gaúcho Emanuel Orengo, diretor do sucesso De Volta ao Jogo, novela vertical produzida pela Cine8 que alcançou 50 milhões de visualizações em apenas três semanas.
— Os episódios começam e terminam com um clímax, para incentivar a continuidade. Não há tempo para enrolação, tudo acontece muito rápido. Isso coloca o foco no trabalho dos atores, porque a narrativa depende do que eles estão mostrando. Às vezes, a atuação acaba sendo mais carregada, até um pouco caricata, para que o público entenda rapidamente as viradas do roteiro — diz Orengo.
Atuação em evidência
Estrela de A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário – microdrama que soma cerca de 500 milhões de visualizações – Jéssika Alves afirma que atuar em novelas verticais é desafiador, devido à facilidade que o público mobile tem de se dispersar.
— No celular, a atenção é muito mais disputada. O espectador pode receber uma notificação a qualquer momento — reflete a atriz, que já esteve em produções da Globo como Malhação e Em Família. — Isso nos desafia como atores a prender o público de imediato. Precisamos ter ritmo e entrega desde o primeiro segundo.
Outro desafio é a movimentação em cena, conforme Jéssika. Com a captação das imagens feita na vertical, os gestos dos atores precisam ser minimamente calculados, a fim de evitar que algo fique fora dos limites da câmera.
— É quase como reaprender a se mover dentro do quadro — diz.
Já no que diz respeito à construção dos personagens, o processo é semelhante a qualquer outro trabalho de atuação, defende a atriz. Jéssika diz que sua preparação para viver a protagonista de A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário envolveu a mesma entrega dada aos papéis na televisão.
— A diferença foi pensar em como transmitir as emoções dentro de uma linguagem que pede agilidade, sem perder as nuances e a verdade da personagem.
A preocupação faz sentido, pois, segundo Emanuel Orengo, as novelas verticais dispõem de menos tempo para apresentar os personagens e desenvolver seus arcos dramáticos.
— A trama principal precisa ser estabelecida já no primeiro episódio. Enquanto narrativas tradicionais introduzem os personagens antes da grande virada, no formato vertical a reviravolta acontece no início. Só depois é que os personagens vão sendo melhor trabalhados e o público vai entendendo o porquê das coisas.
Baixo custo e lucro alto
Entre os profissionais envolvidos na produção das novelas verticais, é consenso que o gênero terá espaço no mercado audiovisual brasileiro.
— O formato conversa diretamente com a forma como consumimos conteúdo hoje: rápida, imersiva e pelo celular. É uma porta incrível que se abre para o público e para nós, artistas, que temos a chance de experimentar linguagens diferentes e ampliar nosso alcance — avalia Jéssika Alves.
Na visão de Luciano Romanieli, da produtora Cine8, o baixo custo de produção também é um dos atrativos das novelas verticais. Ele explica que os microdramas são gravados em poucos dias – geralmente entre uma e duas semanas – e costumam utilizar apenas uma locação, onde todos os cenários são montados.
Isso faz com que as novelas verticais sejam bem mais baratas do que os folhetim convencionais, que duram meses, e até mesmo os filmes. Desta maneira, a margem de lucro aumenta.
— Os números são muito interessantes — pontua Romanieli.
O principal player de novelas verticais é a ReelShort, plataforma de streaming chinesa que vem investindo na produção de conteúdos brasileiros para o gênero. Entre os títulos financiados pela empresa estão De Volta ao Jogo e A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário, além de outros microdramas brazucas que já integram o catálogo.
— O Brasil já é considerado o terceiro maior mercado desse formato, o que explica a atenção que as plataformas estão dando ao país — projeta o produtor executivo da Cine8.
O modelo de negócio das novelas verticais segue o sistema freemium: as plataformas liberam um lote inicial de capítulos gratuitamente, e o público paga para assistir ao restante da trama.
O acesso aos episódios é liberado mediante o acúmulo de moedas virtuais, que podem ser compradas ou conquistadas com a visualização de publicidade – outro canhão de lucro.
Adesão do público
Contudo, o maior trunfo das novelas verticais é a boa recepção que as produções encontraram junto aos espectadores do Brasil. Para Maria Immacolata Vassallo de Lopes, professora e coordenadora do Centro de Estudos de Telenovela da USP (CETVN) e do Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva (Obitel), o sucesso dos microdramas está relacionado à paixão dos brasileiros pelo gênero novelístico.
Na prática, os folhetins verticais oferecem mais uma alternativa para os amantes da teledramaturgia. Não há uma concorrência direta com as produções televisivas, que seguem ocupando um papel central na cultura brasileira.
Contudo, para a professora, ainda é cedo para projetar se as novelas do celular se tornarão tão relevantes quanto as da televisão.
— É uma nova roupagem para algo que os brasileiros já amam, então, tem muita chance de crescer cada vez mais — diz Maria Immacolata. — Só que leva tempo até que uma coisa vire hábito. Por exemplo, hoje é muito comum as pessoas assistirem aos capítulos das novelas pelo Globoplay. Mas lá atrás, quando a plataforma surgiu, ninguém entendia direito essa dinâmica — pondera.
Maria Immacolata enxerga a entrada da Globo no mercado das novelas verticais como um sinal de que o formato tem potencial de futuro.
— A Globo sempre foi aberta a inovações, mas não costuma tomar decisões impensadas. Ela tem como vantagem a sua experiência na produção de telenovelas. Poderá utilizar os seus próprios estúdios, a sua própria equipe técnica e os atores da casa, que já são conhecidos pelo público.
Apesar dos atributos, a chegada da emissora não assusta quem já está fazendo girar a roda das novelas verticais. Para o sócio da Cine8 – produtora que já atuou em títulos "globais" como a série Ilha de Ferro – o mercado nacional dos microdramas só tem a ganhar com a participação da Globo.
— É algo que vem para legitimar o formato. O Brasil tem tradição na produção de novelas, e a nossa intenção é fazer do país um polo mundial também para esse tipo de conteúdo.




