
Quando Paulo Vieira nasceu, há 32 anos, a sua bisavó, a dona Benedita, jogou búzios e cravou: "Essa vai ser a criança que vai levantar a família". Hoje, o ator e humorista cumpre essa profecia: é quase impossível ligar a TV ou acessar alguma rede social e não se deparar com o artista em alguma ação publicitária ou na chamada de um de seus programas.
Filho mais velho de Conceição e Luisão, Paulo chegou ao mundo na cidade de Trindade, na região metropolitana de Goiânia, mas migrou ainda criança, com a família, para Palmas, capital do Tocantins. Por conta dessa mudança, considera-se um cidadão do norte do país.
Apresentado recentemente por Pedro Bial, como o humorista "mais renovador dos últimos tempos", Paulo Vieira é um comediante que leva para as telas uma conversa bem-humorada sobre a população real do país – e não é aquela que vive nas capitais. É o Brasil maior.
Por isso, após galgar o seu espaço na TV Globo, começou a colocar o seu plano em prática: mostrar esta nação da qual ele sempre fez parte, mas que não se via nas telas. Pelo menos não com o mesmo olhar e afeto como em Avisa Lá Que Eu Vou.
No programa, Paulo Vieira viaja pelo Brasil atrás de locais pitorescos e personagens curiosos para mostrar como o país é fascinante e ainda desconhecido por seus próprios moradores. Além do sucesso da atração, o humorista ainda emplacou a série Pablo e Luisão, que narra as peripécias de sua família em Palmas.
Em entrevista a Zero Hora, Paulo Vieira fala sobre as filmagens de Avisa Lá Que Eu Vou em duas cidades gaúchas, seu carisma com o público e os planos para o futuro.
Leia a entrevista com Paulo Vieira
Em Triunfo, do Emicida, enxergo algumas conexões contigo – adaptando o rap para o entretenimento – quando ele diz: “O rap me escolheu porque eu aguento ser real”. Tu és esse cara que aguenta ser real num mundo cada vez mais artificial? E te consideras um porta-voz de quem não é ouvido?
São coisas que espero que as pessoas digam sobre mim. Busco essa fala das pessoas que me assistem. Tento fazer coisas que façam sentido para o meu coração. Um dos meus objetivos, por exemplo, é criar um trabalho autoral que reconheça o Brasil e a nossa cultura e que, ao mesmo tempo, seja divertido. Fico muito feliz quando as pessoas se sentem valorizadas por esse trabalho. Um dos propósitos do Avisa Lá Que Eu Vou é dar luz para pessoas que nunca tiveram voz.
Através disso, espero que as pessoas que estão em casa identifiquem também o valor que elas têm. Que elas falem: "Cara, eu sou isso aí". A pessoa não precisa ser famosa para ser valorizada, nem ter milhões de seguidores para ter uma história para contar. Todo mundo tem uma história e o meu trabalho contribui para as pessoas saberem disso.
Ainda em Triunfo, o Emicida manda um recado para os falsos que pagam de verdadeiros, dizendo: "Caminho nas calçadas sempre, nunca te vi!". Como se manter sendo esse cara que caminha nas calçadas, mas, hoje, imagino, com muito mais assédio?
É muito tranquilo, pois já era famoso no Tocantins. Trabalho com teatro desde os meus 12 anos e também atuava na televisão por lá. Já era reconhecido nas ruas quando vim para São Paulo. Mas, eu gosto mais quando a pessoa tem uma troca sincera comigo, fala sobre o trabalho, de uma maneira mais real.
O que me soa estranho, por incrível que pareça, é ver meu trabalho tão bem aceito pela elite intelectual do Brasil. Fico feliz, mas é um território novo para mim – quando recebo prêmios da crítica, ou quando acadêmicos discutem meu trabalho.

Vamos falar do Avisa Lá Que Eu Vou. O primeiro episódio foi em Monte Belo do Sul, no Rio Grande do Sul. Como foi essa experiência?
Gravamos dois programas: um em Monte Belo do Sul e outro em Ametista do Sul, que vai ao ar no final da temporada. Foi muito legal gravar esses programas, fomos extremamente bem tratados. Nunca duvidei do carinho do povo do RS por mim. Já fiz muito show de stand-up comedy pelo Estado no início da minha carreira, e sempre gostei muito, sobretudo do gaúcho rural. É uma terra de gente trabalhadora, e me identifiquei com esse lugar do rural.
Acho que o homem do campo e a mulher do campo são parecidos no Brasil inteiro. Então, quando estou no interior do RS e converso com um senhor, com uma senhora, muda o sotaque, a maneira de falar, mas os valores são muito parecidos.
Desde quando começamos o Avisa Lá, a gente queria fazer o Sul, e começamos a pesquisar. Às vezes, a gente queria fazer um evento no Rio Grande do Sul, mas a agenda não permitia. Então, foi bom que calhou de a gente estar gravando essa temporada, nessa época, para gente conseguir cobrir o polentaço.
Como tu escolhes estes lugares para gravar? Como é o garimpo por esses personagens curiosos?
Às vezes, é através de temas ou de pessoas. Por exemplo, falei: "Cara, quero muito fazer o Rio Grande do Sul tradicional". Encontramos o polentaço e os personagens. Também descobrimos Ametista do Sul, que tem um monte de empreendimento debaixo da cidade. Quase uma cidade em dois andares. A gente chega nisso pesquisando.
A curadoria é tentar ampliar na cabeça do público o conceito que eles têm do Brasil. A nossa ideia é surpreender quem está assistindo: "Caramba, isso é no Brasil? Aqui tem isso também?". E fazer com que a pessoa que é daquele lugar se sinta valorizada e feliz.
E essa proximidade de sentar-se e conversar com todo mundo tão diferente como se fossem amigos?
É uma coisa muito natural. Meu pai fala assim: "O emprego do Paulo é conversar fiado". Gosto muito de conversar, e eu nunca chego como uma celebridade. Trato todo mundo com muito respeito e amor. E acho que as pessoas sentem isso e correspondem na mesma medida. O meu olhar para o entrevistado é sempre um olhar de igualdade. Tanto no sentido de me expor quanto no sentido de saber que aquela pessoa tem muito a me oferecer.
Aquela pessoa tem sabedoria, ensinamento e comédia. Estou ali para perguntar e ajudá-la a contar a própria história. Graças a Deus, a minha imagem foi construída nesse lugar. As pessoas já têm intimidade comigo. Parece que sou um primo chegando na casa das pessoas, um parente que está voltando. Quando começo a conversar, a pessoa já está íntima minha. Isso facilita muito fazer o programa.
Das quatro temporadas de Avisa Lá Que Eu Vou, qual foi a situação mais pitoresca que aconteceu?
Tem tantas. Tenho até dificuldade, mas poderia te falar algumas coisas que me marcaram. Por exemplo, a gente ensaiou o enterro de um cara que organizou o próprio funeral. Fomos lá e fizemos tudo para que ele pudesse ver – o enterramos vivo. Isso, pra mim, é a cara do Avisa Lá, é muito doido.
Nessa nova temporada, entrevistamos um casal de vampiros, a filha do Lampião e da Maria Bonita. A cada cidade que vamos, fico mais encantado e impressionado com o tanto de história rica que o Brasil tem.
E o Pablo e o Luisão? Como foi o processo de expor a intimidade da sua família e, ao mesmo tempo, criar algo que dialoga com outras famílias brasileiras?
Ele é o último passo de um processo de desenvolvimento e amadurecimento do meu trabalho. Nas duas pontas, tanto na minha linguagem como artista quanto a aposta da TV Globo no meu trabalho. É uma série que tem tudo a ver com a minha trajetória e, ao mesmo tempo, é absolutamente pessoal, feita no meu quarto.
Se você assistir o Avisa Lá Que Eu Vou, você vai ver como Pablo e Luisão é influenciado pelo programa. Eles são o mesmo trabalho, praticamente. Então, tento sempre pensar qual será o próximo passo artístico, mas sempre com o objetivo de me comunicar com o povo.
Quero ser, sempre, um comunicador popular. É para o povo que eu trabalho. A TV Globo é um veículo para o meu trabalho, mas o meu verdadeiro patrão, para quem eu trabalho mesmo, é o público brasileiro. Pablo e Luisão é uma série toda pensada para esse público. E é aquela coisa: quanto mais você fala de si mesmo, mais você fala do mundo inteiro.

O que vem pela frente? Ouvi boatos sobre um programa de auditório, inclusive...
Eu queria muito descansar. Estou querendo ficar um tempo quieto (risos). Mas tem algumas coisas ainda para cumprir. Devo fazer mais uma temporada do Devolve Aí para o Fantástico, que é um quadro que deu muito certo, além do Melhores do Ano. E, ao que tudo indica, devo gravar um filme ainda este ano, mas não será de comédia.
Não sei a quantas andas essa história de programa de auditório. Mas quero seguir fazendo o Avisa Lá Que Eu Vou por, pelo menos, umas 10 temporadas. Mas agora a minha prioridade está sendo ficar mais quieto, dar uma descansada.
Para fecharmos, só para a gente voltar naquela primeira pergunta, que era sobre a música do Emicida, Triunfo. Tu achas que o Paulo Vieira, hoje, triunfou?
Não. No frigir dos ovos, somos todos trabalhadores, operários dessa indústria. Está todo mundo batalhando sempre pelo próximo projeto. Me sinto orgulhoso da minha história e de onde eu cheguei.
Mas a palavra “triunfar” parece uma ideia de ter conquistado um lugar. Acho que as coisas não são tão sólidas, acho que elas apenas “estão”. Eu estou feliz e orgulhoso onde estou agora. Isso já é bom, dá um conforto no coração. Não vou botar objetivo, não. Mas uma hora a gente triunfa.


