
Em dezembro do ano passado, a TV Globo colocou em sua programação o programa Viver Sertanejo, liderado pelo cantor Daniel, de 56 anos. A atração, que é gravada na fazenda do artista, em Brotas, no interior de São Paulo, foi lançada como um teste: se fosse um sucesso, entraria para a grade da emissora.
Demorou um mês para que a aposta virasse realidade: o programa se tornou fixo nas manhãs de domingo, logo após o Globo Rural. Os números de audiência para a faixa horária subiram, e a atração caiu nas graças do público, que abraçou a aconchegante proposta do bate-papo com cheirinho de café recém-passado e gosto de queijo fresco.
A ideia do programa, é claro, deu muito certo – mas o carisma de Daniel é o ingrediente principal para a boa recepção do Viver Sertanejo. Tido no meio como um dos caras mais gente boa da cena artística, ele serve como elo entre as gerações que se reúnem no seu programa, reverenciando o passado e projetando o futuro do gênero.
Não me arrependo nem um pouco do que eu fiz até aqui, porque acredito que eu não tenha perdido a essência. É importante trazer algo com tendências atuais, mas sem perder o pé na terra.
DANIEL
Cantor e apresentador do programa "Viver Sertanejo"
Entre o analógico e o digital, entre cantar o sofrimento do homem do campo e a ostentação do agro pop, entre cortejar uma dama e o feminejo empoderado, Daniel é o comandante do que hoje é o principal propagador do sertanejo na TV aberta nacional. Em entrevista a Zero Hora, abaixo, o artista fala sobre sua carreira e como enxerga a transformação do gênero ao longo dos anos.
Confira a entrevista com Daniel
Como surgiu a ideia do Viver Sertanejo e a decisão de levar a atração para a tua fazenda?
Recebi a ligação de um dos diretores da Globo sobre a possibilidade de fazer um programa e meu nome havia sido citado algumas vezes. Me senti muito honrado. Só que, na época, estava vivendo a chegada da minha terceira filha, a Olívia. E sempre procurei estar mais em casa ao longo da minha vida profissional.
Comentei que tinha um cantinho na minha terra natal, em Brotas (para fazer o programa). Eles vieram até a fazenda, tomamos um café, catei o violão e cantei uma moda lá. Saíram muito animados porque, até então, o projeto era para acontecer em um estúdio, por questões de logística. Mas já chegaram com a ideia de um programa que envolvesse receber as pessoas na minha casa, para conversar e cantar.
Aceitei o desafio, com a possibilidade de que, talvez, virasse um programa fixo na grade, dependendo do resultado. A ideia era oferecer algo bacana para as manhãs de domingo, logo após o Globo Rural. Tudo aconteceu de forma muito natural e me deixaram muito à vontade. Estou muito feliz com o resultado. Acho que, quando as coisas acontecem naturalmente, tendem a dar muito mais certo.
Sabíamos que a nossa música estava tocando alguém e era esse o nosso sonho: poder fazer parte da vida das pessoas através da nossa música.
DANIEL
Cantor e apresentador do programa "Viver Sertanejo"
No Viver Sertanejo, parece que o público está ali com vocês, comendo o queijinho fresco, tomando o cafezinho...
A proposta inicial era exatamente essa. Para isso, vários ingredientes estiveram envolvidos. Um deles é o fato de eu realmente estar conversando com as pessoas dentro da minha casa. E acho que a grande maioria dos convidados se sente muito à vontade, porque não vê ali um apresentador, mas uma pessoa que tem muito a ver com a história deles. Então, está sendo fascinante por isso – tem sido uma forma de dar uma restaurada em tudo que já vivi até aqui.

No programa, tu colocas gerações distintas para conversar. E tu és esse elo entre elas, um cara que vive esse universo sertanejo. Como tu enxergas essa diferença entre as gerações no gênero hoje em dia?
Acompanhei várias etapas ao longo da minha trajetória. O sertanejo atual fortaleceu aquilo que outros cantores já vinham plantando. Vejo uma influência muito grande desde Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Lourenço e Lourival, Teixeirinha, e tantos outros artistas que fizeram parte da nossa história.
É muito bom poder ver essas diferenças no Viver Sertanejo e, ao mesmo tempo, perceber a empatia entre eles, o carinho e a consciência dos artistas mais antigos de que esse sertanejo atual trouxe uma diferença absurda para o estilo. E também a percepção do sertanejo de hoje de que boa parte da história deles vem justamente desses artistas que vieram antes.
O sertanejo se mistura, vem passando por transições e diferentes etapas, e alcançando um público cada vez maior. O alcance do gênero é enorme e isso se reflete também na audiência do programa. A força que o sertanejo tem no interior do país é algo surreal.
E, no Viver Sertanejo, quando a gente vai gravar com determinados artistas, acontecem encontros marcantes. Uma vez, por exemplo, recebi a dupla Zé Neto e Cristiano. Eles são fãs desde a época da dupla Chico Rey e Paraná e, agora, do Paraná em carreira solo. Quando viram o Paraná chegando, a reação deles não teve preço. Para mim, é um presente estar vivendo tudo isso.
Nessa questão das gerações, o sertanejo é um gênero que vem moldando-se conforme a realidade. No começo, era sobre as dificuldades da lida no campo. Hoje, o agro é mais pop, tem mais a questão da ostentação. Como tu enxergas este movimento?
São momentos diferentes que a gente vai vivendo. Acho que o acesso que eles têm hoje é bem diferente daquele que a gente tinha antigamente, de realmente ser nascido e criado na roça. Era um jeito totalmente diferente de viver.
Vejo isso no gênero sertanejo, mas também no mundo como um todo, que tudo está mais imediatista. Sinto que, muitas vezes, o artista busca algo que seja mais rápido, mais espontâneo. Existe essa tentativa de colocar na letra algo que toque quem está ouvindo, acompanhando essa tendência e essa modernização que estamos vivendo hoje.
Tu citaste o Teixeirinha. Quais artistas gaúchos tu achas que colaboraram para a construção do universo sertanejo e que tu admiras?
Ah, tem muita gente. Estava vendo ontem, inclusive, o Engenheiros do Hawaii, por exemplo, a influência que eles têm no nosso gênero. Já o Teixeirinha eu acompanhava desde garotão. Tive a honra de estar em uma gravadora, que é a Continental Chantecler, na época, e depois a Warner, onde nós tínhamos também o Gaúcho da Fronteira, a Berenice Azambuja, e tantos outros grupos.
Participei com o saudoso João Paulo (1960-1977) de um festival de música, foi o nosso último antes de gravarmos o primeiro disco, e ficamos em segundo lugar. O primeiro lugar ficou com Oswaldir e Carlos Magrão, que tinham uma sonoridade e uma proposta bem diferentes.
Ou seja, a gente tem influência de todo e qualquer estado do país. Assim como do forró, do samba, até do funk, nós temos influência. Acho que música é isso: universal. Essa mistura acaba trazendo um resultado muito positivo.
Hoje em dia, como tu mesmo falaste, muitas músicas fazem sucesso por uma semana, depois parece que caem no esquecimento. Parece que não vemos mais clássicos nascendo, como os muitos eternizados na tua voz. O que está havendo?
Existe um mistério muito grande nisso tudo. Mas, com certeza, o jeito de falar de amor hoje é diferente. Antigamente, o casal começava a paquera devagar, era difícil até pegar na mão, dar o primeiro beijo. Essas tendências acompanham a forma como a gente vive. Também existia um outro jeito de ouvir música. Antes, você parava para ouvir. Hoje, por exemplo, as minhas filhas vão ouvir música e, quando estão no meio, já passam para outra. Não tem paciência. Então, acho que está tudo muito coligado.
Existe essa urgência de fazer sucesso com uma música, mas sem se preocupar tanto com a durabilidade. Agora, qual vai ser esse tempo? Não importa muito. Antigamente, não. O toque final de uma canção era bem demorado. E a gente lançava e a pessoa pedia no rádio. Hoje, o artista lança um trabalho e já impõe: "Essa é a música de trabalho". Mas será que é mesmo essa que o público quer ouvir?
Então, hoje tudo é muito diferente. Mas eu sou, realmente, a favor da questão do amor, ser tratado com muito carinho. Não me arrependo nem um pouco do que eu fiz até aqui, porque acredito que eu não tenha perdido a essência. É importante trazer algo com tendências atuais, mas sem perder o pé na terra.

Como foram aqueles três anos de sucesso arrebatador com o João Paulo? O que tu te recordas daquela época?
Parece que a gente já estava preparado. A gente fez tudo vislumbrando um possível primeiro disco de ouro e, realmente, acabou chegando, com um super repertório que tivemos a honra de gravar. Tivemos a chance de conhecer um grande cara, o Manoel Nenzinho Pinto, que foi nosso produtor naquela época e ficou comigo por muitos anos depois também.
Foram três anos que voaram, mas que foram verdadeiros presentes. O grande público comparecendo aos shows, a venda de discos a cada LP lançado. Ou seja, acho que a gente chegou a um lugar onde a dupla realmente merecia estar, com tudo o que já tinha vivido, com tudo o que tinha passado.
Tudo foi muito consciente. A gente nunca perdeu o pé no chão. Sabíamos que a nossa música estava tocando alguém e era esse o nosso sonho: poder fazer parte da vida das pessoas através da nossa música.
Falando em disco de ouro, tu passaste pelas épocas do vinil, da fita cassete, dos CDs e, agora, estás na fase do streaming. Como é que tu vens te adaptando a isso, Daniel? Já estás trabalhando com o pensamento de agradar o algoritmo?
É muito difícil assimilar tudo isso. O ritual de preparar um álbum era muito gostoso, porque tudo era feito com tanto carinho. Depois, era uma grande satisfação receber o vinil e ver tudo tintim por tintim. Era uma alegria toda vez que a gente ia a uma loja para comprar o disco de alguém e realmente entender do que se tratava.
Hoje, é tudo muito diferente. No streaming, você ouve a música e, às vezes, não tem acesso a nada além dela. Eu gosto de saber quem realmente fez a música, mas a maioria só ouve. Até hoje coleciono alguns discos de vinil, gosto do chiadinho da agulha, de ouvir na vitrola de vez em quando.
Há uma riqueza tão grande em tudo que a gente já viveu até aqui que não pode se perder no tempo. Eu mostro para as minhas filhas do que se trata, o que é. No camarim, às vezes, autografo CD e DVD de presente para as pessoas que chegam, principalmente para as crianças. Eu diria que estou me adaptando agora a essa coisa tecnológica e me acostumando com a atualidade.

Quais são teus próximos projetos, Daniel?
Olha, quero continuar fazendo música, que é o que eu mais gosto. Estou trazendo, bem devagarinho, um novo show depois da comemoração dos 40 anos de carreira, que a gente levou para a estrada com o repertório de João Paulo e Daniel. Estou dando uma virada de página, apresentando um trabalho acústico, com uma sonoridade diferente.
Para esse projeto, estou trazendo muitas coisas que eu não cantava mais e não trazia mais à tona para o grande público. Quero continuar com o Viver Sertanejo por um tempo, que Deus me dê saúde para continuar fazendo aquilo que eu gosto e, de alguma forma, para seguir fazendo parte da vida das pessoas, enquanto eu entender que a minha música está fazendo bem para alguém.


