
Kadu é um jovem prodígio que ascendeu na vida como jogador de futebol, fazendo sucesso em clubes de Portugal e Espanha. Ao retornar ao Brasil, uma má fase coloca sua carreira em dúvida. Se fosse baseada apenas nessa premissa, Chuteira Preta poderia se parecer com o enredo de um melodrama. No entanto, esta impressão some logo nos primeiros segundos do seriado produzido no Rio Grande do Sul, que estreia neste sábado (13) no canal por assinatura Prime Box Brazil.
Logo no início da trama, o presidente de um clube está subornando um árbitro. Esta é uma das questões do mundo da bola também levantadas pelo diretor e roteirista Paulo Nascimento (dos longas-metragens Em Teu Nome e A Oeste do Fim do Mundo) nos 13 episódios da produção. É um universo de nuances que estão fora das quatro linhas, como corrupção, religião, dívidas, chantagens emocionais e até as “marias chuteiras”.
— É uma conjunção de várias questões que acontecem pelo futebol ao redor do mundo, as ruins, a parte “dark” mesmo. É um thriller em que o futebol é o pano de fundo. Tentamos retratar, de fato, a podridão que ficamos sabendo fora de campo — explica o ator Zé Victor Castiel, que interpreta Dr. Sangaletti, presidente de um clube de futebol disposto a pagar o preço que for para ver seu time decolar.
O glamour do futebol carrega dramas humanos. Para Paulo Nascimento, é tocante o quanto Chuteira Preta retrata falta de estrutura emocional de garotos que são jogados em um mundo de disputa e de muita grana.
— Tem uma imensa maioria que sente, ainda na adolescência, o peso do fracasso de ser mandado embora do clube porque chegou outro mais talentoso e precisa ocupar o lugar dele no dormitório do clube. Esse conjunto todo me toca muito, porque pouca gente percebe o drama envolvido em tudo isso. Essa é a espinha dorsal da primeira temporada — complementa o cineasta nascido em Porto Alegre.
Ao não dar certo em seu retorno ao Brasil, o protagonista Kadu, vivido por Marcio Kieling, recorre ao tio Jair (Nuno Leal Maia), ex-craque da década de 1970 para tentar recuperar sua paixão pelo esporte. Enquanto isso, ele precisa lidar com a ex-esposa Flávia (Karin Roepke), que simula uma agressão física para lançar o jogador nos tribunais (coincidência com a realidade?), e o pai Cedenir (Kadu Moliterno), que decide viver às custas do filho.
Identificação
Gravada em Porto Alegre e Região Metropolitana, entre março e abril do ano passado, Chuteira Preta se passa em um lugar não marcado geograficamente. Segundo Paulo Nascimento, a capital gaúcha “é um lugar muito mais cosmopolita do que se imagina”:
— Vi a reação de pessoas que viram trechos da série nos EUA, por exemplo, e Porto Alegre tem um conjunto de lugares diferentes e atraentes. Ela é internacional como são as cidades interessantes do mundo. Só a gente não percebe na maior parte do tempo.
Essa atmosfera de universalidade fica evidente na estética da produção. Assinada por Renato Falcão (de animações como A Era do Gelo e Rio), a fotografia da série utiliza a luz natural, sem refletores, buscando o maior naturalismo das imagens, aspecto que, segundo o diretor, complementa a densidade da trama:
– O que se conta é uma história de pessoas tentando achar rumos na vida, e a vida mostrando sua face mais dura em um universo cruel que aparece sempre travestido de cores, bandeiras, paixões de torcidas. O futebol é mágico e continuará sendo, mas não falamos sobre isso. Vamos para o lado B, o inusitado mesmo.
A identificação também foi sentida pelo próprio protagonista. Na juventude, Márcio Kieling foi jogador da base do Internacional e, na tela, vive um jogador frustrado. Como seu personagem, já foi artilheiro do time, sempre vestiu a camisa 9 e até passou pela perda da mãe recentemente.
Conhecido por ter vivido Zezé Di Camargo em 2 Filhos de Francisco, o ator porto-alegrense acredita que Kadu tem muito a ver com o cantor sertanejo, já que ambos utilizam o corpo como ferramenta de atuação. Por ser seu primeiro trabalho como ator dentro da temática, Kieling acredita que Kadu fala sobre superação o tempo todo. É algo que Chuteira Preta busca transmitir ao espectador:
— Na vida, passamos por altos e baixos. De uma hora para outra, as coisas mudam e ficam sem chão. A vida é uma roda gigante, acontece para qualquer pessoa. É preciso ter cabeça para suportar isso. E isso pode mudar, só depende de você.
Chuteira Preta
Prime Box Brazil. Episódios inéditos aos sábados, às 21h.


