No universo do TCG, que é a sigla para Trading Card Game — ou seja, jogo de cartas colecionáveis —, alguns títulos se consolidaram em popularidade por anos, como Pokémon, Yu-Gi-Oh!, One Piece e Magic: The Gathering. Porém, no final de 2023, surgiu uma novidade no mercado que vem se colocando entre os líderes deste universo e subindo rapidamente no ranking dos mais vendidos: o Disney Lorcana.
No segundo trimestre deste ano, por exemplo, o jogo pulou da oitava para a quinta posição entre os mais consumidos do universo das cartinhas nos mercados da América do Norte e Europa, monitorados pelo portal TCGplayer. E este boom na procura vem sendo percebida pelos varejistas, como Winston Chiba, 32 anos, sócio da loja porto-alegrense especializada em cultura geek Ilusões Industriais.
— Em questão de faturamento, ainda não representa tanto quanto Pokémon, porque é um jogo que existe há décadas, mas aqui na loja já é mais do que Yu-Gi-Oh! e do que Magic em muitos cenários. Então, se não é o segundo card game mais rentável da loja, é o terceiro. E só não é mais pela falta do produto — explica o empresário.
A ascensão do TCG vem gerando uma procura tão grande que os estoques são rapidamente esgotados. Desta forma, suprir a demanda do mercado vem se tornando um desafio. No Brasil, as cartas chegaram oficialmente há um ano, trazidas com exclusividade pela Copag, fabricante nacional de baralho com mais de cem anos de atuação — e que vem se atualizando com as demandas dos jovens.
— A procura por Disney Lorcana tem superado as expectativas em diversos mercados ao redor do mundo, e o Brasil acompanha essa tendência. Estamos trabalhando em conjunto com a Ravensburger para equilibrar oferta e demanda e ampliar a disponibilidade de produtos ao longo do tempo — explica Edgar Shinagawa, gerente de categoria TCG da Copag.
A Ravensburger citada é a desenvolvedora de Disney Lorcana. Trata-se de uma empresa alemã especializada em jogos de tabuleiro e quebra-cabeças, que já vinha trabalhando com a empresa do Mickey em outros projetos, como o Disney Villainous. A parceria, que já vinha dando resultados positivos, chegou, agora, em seu melhor momento.
Porém, para o mercado brasileiro, ainda existe uma dificuldade a ser superada: a língua. A Copag apenas importa as cartas, que chegam totalmente em inglês. Porém, esta realidade deve mudar em algum momento, segundo o gerente da empresa de baralho:
— Estamos trabalhando para viabilizar uma versão em português no futuro.
Do que se trata
O TCG coloca o jogador no papel de illumineer, um poderoso mago capaz de usar tinta mágica para dar vida a versões dos personagens da Disney, que são chamados de glimmers — estes podem ser fiéis às histórias originais ou versões completamente reimaginadas.
O competidor, então, não joga com Mickey, Buzz Lightyear ou Moana, mas, sim, convoca esses personagens para formar sua equipe e explorar o reino de Lorcana em busca de lore, que representa a energia mágica das histórias da Disney.
Desta forma, cartas de heróis e vilões lutam lado a lado — afinal, todos são glimmers criados pelo illumineer para cumprir sua missão. Nas mesas, que geralmente são compostas por dois jogadores, quem atingir 20 pontos de lore primeiro, ganha o jogo.
Importante destacar que, para uma partida, o deck — baralho — precisa ter 60 cartas e pode usar até duas das seis cores de tinta disponíveis, sendo que estas determinam qual vai ser o estilo de jogo. Cada booster, ou seja, pacotinho, conta com 12 unidades de cartas de cores variadas. O preço varia de R$ 28 a R$ 45, dependendo da coleção.
— O que move esse mundo do colecionismo de card game é a flutuação dos valores das cartas, já que, depois que uma coleção é lançada, ela pode não ser mais impressa. Assim, as coleções mais antigas acabam ficando mais caras porque já não são mais fabricadas ou se tornam muito mais escassas. É a lei do mercado — explica Chiba.
Hoje, Disney Lorcana está em sua 13ª edição, sempre apresentando personagens inéditos no jogo, vindos de um leque gigantesco que a empresa possui. E, além da competitividade, ou seja, o jogador montar o deck mais forte para o duelo, ainda existe todo um mercado para cartas raras — que são encontradas com bem menos frequência nos pacotes. São edições especiais que acabam se tornando mais caras.
Também há cartas que são fabricadas pela Ravensburger exclusivamente para serem entregues como premiação de torneios. Ou seja, tornam-se ainda mais raras e com um valor elevado, gerando grande interesse dos colecionadores, que visam a oportunidade de negócios lucrativos. Inclusive, o influenciador de investimentos Thiago Nigro, conhecido como Primo Rico, fez um conteúdo recentemente mostrando a sua coleção, que inclui um card do Mickey Mouse promocional, avaliado em cerca de US$ 40 mil (R$ 200 mil, aproximadamente).
— O colecionismo e o interesse em cartas como ativos de coleção sempre fizeram parte do universo dos TCGs. É um perfil de consumidor que convive com jogadores e colecionadores tradicionais e contribui para a dinâmica do mercado. Nosso foco continua sendo garantir o acesso ao produto e apoiar o crescimento saudável da comunidade — diz Shinagawa.
O que atrai
Lorcana começou a se popularizar no Brasil do final do ano passado e, aos poucos, o público foi abraçando as cartinhas. Um dos principais chamarizes, obviamente, são os personagens icônicos da Disney, que fizeram parte da infância de boa parte do público que consome os TCGs. A outra é que é uma novidade — e isso, para os interessados em entrar no universo dos card games, é uma vantagem, pois o nível competitivo ainda não está tão alto.
— Como o jogo é novo, está todo mundo em pé de igualdade. O pessoal está começando, então tem muita liberdade para inventar o melhor deck. No Pokémon, por exemplo, existem estratégias para ganhar que o pessoal já testa há muito tempo. Então, (no Lorcana) o pessoal ainda não conseguiu todas as cartas mais fortes e vai inventando como dá, cada um com uma estratégia diferente, aprendendo junto — diz Michel Raupp, 25, programador.
O jovem estava em uma quarta-feira à noite na Ilusões Industriais do Centro Histórico. Por lá, semanalmente, ocorrem torneios de Lorcana — com a Copag, inclusive, mandando card games especiais e outros itens promocionais para serem entregues aos participantes. Além do atrativo de conseguir uma carta exclusiva, para Raupp, estar criando relações com outras pessoas com o mesmo interesse:
— Sou programador e trabalho só no home office. O problema é que eu não saio muito para ver o sol. Então, é bom sair um pouco para um ambiente diferente, interagir com pessoas.
Se reconhecendo como uma "criança Disney", a designer Nathalie Munhoz, 34, começou a conhecer o universo de Lorcana em março deste ano, mas não demorou para mergulhar no TCG. Quando viu que poderia mais do que apenas assistir os seus personagens favoritos, expandindo as suas histórias e estando no controle das aventuras, abraçou totalmente o novo hobby.
Acompanhada pelo "namorido" Gerson Ferreira, 43, empresário, que também divide a paixão pelo card game, Nathalie comemora que a comunidade em torno de Lorcana é respeitosa, o que transforma o ambiente em uma troca amigável e convidativo. Porém, ela reconhece que é uma atividade que demanda bastante monetariamente — ainda mais que personalizou todo o seu jogo com a temática de Frozen:
— Gosto muito de comprar as booster box inteiras, (caixa) que vêm com 24 pacotinhos, porque colocaram na minha cabeça que é mais fácil de tirar uma carta rara. Só que cada uma dessas custa, mais ou menos, de R$ 900 a R$ 1 mil. Desde março, gastamos mais de R$ 10 mil. Então, é um hobby caro, é para ter um só. Não me vejo em mais TCGs além de Lorcana — diz Nathalie.

