
Cabelos assimétricos, figurinos extravagantes, entrevistas caóticas em meio à pista de dança e uma sucessão de rostos que, décadas depois, se tornariam emblemas da época de maior efervescência cultural de Porto Alegre. Bastaram poucos minutos dessas cenas, registradas em uma reportagem da RBS TV resgatada recentemente pela produtora Prana Filmes, para reavivar memórias que pareciam adormecidas.
As imagens registram a primeira edição do Troféu Scalp, premiação criada em 1985 pelo cabeleireiro Valter Costa, do salão de beleza Scalp Cabeleireiros, para reconhecer os destaques da cultura gaúcha.

Ao longo de quase uma década, o prêmio se consolidaria como um dos eventos mais aguardados da cidade, reunindo nomes dos mais diversos segmentos artísticos em cerimônias tão irreverentes quanto disputadas, seguidas de festas marcadas por liberdade e intensidade.
Não por acaso, o vídeo viralizou nas redes sociais (assista abaixo) e despertou a nostalgia de quem viveu aquele período. Nos comentários, multiplicaram-se relatos saudosos sobre uma Porto Alegre descrita como muito mais moderna, ousada, cosmopolita e libertária. E o Troféu Scalp era a grande celebração dessa atmosfera.
Festa de "gente que transa o barulho"
A primeira edição, em maio de 1985, foi reportada para Zero Hora pelo jornalista Juarez Fonseca. Ao descrever o público que agitava a festa no Canecão de Ouro, casa noturna do gênero bailão instalada no prédio do antigo Cine Castelo, na Azenha, o repórter resumiu que se tratava de "gente que transa o 'barulho' da cidade em música, artes plásticas, meios de comunicação, teatro, moda, cinema, transações noturnas e tal".
Cerca de 60 jurados escolheram os vencedores das 12 categorias em disputa. Foram premiados nomes como Haydée Porto, Giba Assis Brasil, João Carlos Castanha, Eduardo "Peninha" Bueno e um jovem Nei Lisboa, que protagonizou um dueto com a Maria Bethânia de Antônio Carlos Falcão — imitação que também engatinhava naquele 1985, mas viria a se tornar célebre na cena artística de Porto Alegre.
Apesar de alguns problemas de organização, como descrito pelo então repórter de Zero Hora, foi um início promissor. Tanto que, ao fim do texto, Juarez arrisca uma previsão que acabaria por se concretizar: "Se levada adiante nos próximos anos, a festa tem tudo para transformar-se em acontecimento marcante".
— De fato, o Troféu Scalp marcou época na cidade — conclui Juarez Fonseca, hoje com 80 anos. — Era um período de efervescência, com muitas coisas surgindo ao mesmo tempo na área cultural. O Valter Costa conseguiu flagrar e sintetizar tudo isso nesse prêmio, que era uma reunião da loucura que movia a cidade naquele momento.
"Oscar de Porto Alegre"
A importância se tornou tamanha que o Troféu Scalp passou a ser considerado "o Oscar de Porto Alegre". A comparação com a maior distinção do cinema mundial aparece em várias notícias publicadas por Zero Hora entre as décadas de 1980 e 1990, trazendo detalhes do que se transcorria durante a entrega dos prêmios e, com algum pudor, nas badaladas festas que acompanhavam a cerimônia.
O que mais chamava atenção eram os encontros promovidos pela premiação, que agrupava membros das mais variadas tribos em eventos caóticos pela "loucura" do período, mas hamônicos no que tangia à convivência entre os diferentes. É o que lembra Werner Schunemann, 67 anos, presente em diversas edições do Troféu Scalp desde a primeira.
Ninguém tinha nada contra ninguém. Podia entrar pilchado e podia entrar vestido de punk, que não fazia mal nenhum
WERNER SCHUNEMANN
Ator presente em diferentes edições do Troféu Scalp
— Naquele contexto, entre aquelas pessoas, não passava pela cabeça discriminar alguém, seja por gênero, estilo ou qualquer outra coisa. Todo mundo ali só queria curtir. Era tudo mais simples nesse sentido; a alegria era mais simples — recorda o ator e cineasta.
Edição "felliniana"
A expectativa pela festa era tão grande quanto pela divulgação dos vencedores do prêmio. A balada costumava ter uma temática central a cada ano. Embora não fosse necessariamente uma festa a fantasia, o tema ajudava a inspirar os looks e as sempre bem-vindas intervenções artísticas do público.
Em 1987, quando mais de mil pessoas lotaram o Clube Gondoleiros para uma edição descrita por Zero Hora como "felliniana", em referência ao cineasta italiano Federico Fellini, o tema foi justamente Decadência de Hollywood.
Entre os modelitos mais irreverentes, o jornal destacou "o homem robô, a vedete que carregava uma caixa de engraxate nas costas, o brigadiano, uma miss com cavanhaque e um ousado mascarado que desfilava com um avantajado pênis de esponja".
A reportagem define as festas do Troféu Scalp como eventos em que "vale tudo para aparecer". Não deixava de ser verdade. O ator, cantor e performer Antônio Carlos Falcão, 71 anos, lembra que a premiação era uma das maiores vitrines de arte da época, e todos queriam estar presentes para divulgar seus trabalhos ou, ao menos, "dar um close".
— Era um evento que trazia visibilidade até mesmo para quem não estava concorrendo. Até porque os troféus eram dados para pessoas que tinham feito alguma coisa realmente bacana em cada ano. Eu mesmo nunca ganhei nenhum (risos) — diverte-se.
"Chocar a sociedade gramadense"
Apesar disso, Falcão foi o apresentador da edição de 1989, realizada em Gramado. Exímio imitador, o artista foi convidado por Valter Costa para apresentar o prêmio imitando ninguém menos que o idealizador do Troféu Scalp, ele próprio. A única regra era "chocar a sociedade gramadense", abusando da ironia e das tiradas de duplo sentido que eram marcas registradas do cabeleireiro e agitador cultural.
— Falei barbaridades em nome do Valter. Foi chocante e muito divertido — recorda Falcão.
A desinibição do apresentador foi destaque na notícia publicada no dia seguinte por Zero Hora. Conforme o jornal, no encerramento da cerimônia, Falcão "mandou todas as peruas e bichas para bem longe e aconselhou a todos que logo soltassem a franga no Gramadense", clube que sediaria a festa pós-prêmio.
Início do fim
Aquela foi a primeira edição com vencedores definidos por voto popular. A mudança se deu porque, nos últimos anos, as escolhas do júri estavam sendo alvos de críticas e despertando vaias quando os vencedores eram anunciados — o que demonstra o quão disputada e relevante a premiação havia se tornado.
— Algumas pessoas ficavam insatisfeitas, achavam que o Valter interferia no resultado, mas o júri era soberaníssimo. Cada jurado fazia suas escolhas e os votos eram reunidos depois — garante Werner Schunemann, que foi avaliador de algumas edições.
O fato é que a abertura ao voto popular permitiu situações curiosas, como a vitória de Mary Terezinha, uma artista ligada ao nativismo, na categoria de música, tradicionalmente vencida por nomes do rock. A conquista naturalmente deu o que falar, evidenciando o desgaste que começava a marcar a premiação cinco anos após sua estreia.
"Piorou o Scalp ou piorou Porto Alegre?"
As críticas não se limitavam aos vencedores. À medida que crescia e ganhava prestígio, o Troféu Scalp também parecia perder parte de sua despretensão fundadora. Para muitos, o prêmio havia se tornado sério demais para uma reunião de quem "transa o barulho da cidade", como havia sido descrito em sua primeira edição.
Essa transformação foi registrada nas páginas de Zero Hora. Em 1992, o jornal observava que expressões divertidas como "naja do teatro" e "peruca das artes plásticas", usadas para anunciar os vencedores nas primeiras edições, haviam dado lugar a nomenclaturas formais. Em seu oitavo ano de realização, o prêmio foi descrito apenas como "cult".
Já ao noticiar a edição de 1993, Zero Hora questiona: "O Troféu Scalp piorou ou piorou Porto Alegre?". O texto afirma que o evento já não tinha "o mesmo frisson", tampouco "o punch anárquico e anavalhado de outras eras". Mais adiante, sintetiza dizendo que "a festa foi frau".
Esta é a última edição do Troféu Scalp de que se tem notícia no jornal. Mas não há certeza se a cerimônia de 1993 realmente foi a derradeira ou se, nos anos seguintes, o prêmio desidratou tanto a ponto de não mais figurar na mídia.
Mais que um salão de beleza
A memória de quem viveu aquele período também falha ao tentar apontar quando exatamente o Troféu Scalp chegou ao fim. Mas é certo que, em maio de 2002, quando Valter Costa foi encontrado morto em seu apartamento na Rua Fernando Machado, no centro da Capital, o prêmio criado por ele já não consagrava nenhum vencedor havia alguns anos.
— O Valter teve problemas na perna e passou a andar de bengala, embora nunca tenha deixado de ser elegante e circular pela noite. A premiação foi parando aos poucos, e o salão de beleza também já estava fechado quando ele faleceu — comenta Antônio Carlos Falcão.
Ao lado do Troféu, o Scalp Cabeleireiros também foi responsável por inscrever o nome de Valter Costa na memória da cidade. Instalado em um casarão na Ramiro Barcelos, quase na esquina com a Vasco da Gama, o salão de beleza fundado por ele era sinônimo de atualidade e autenticidade na Porto Alegre oitentista. Quem queria estar na moda, obrigatoriamente passava por ali.
— O Scalp foi um dos pontos de encontro fundamentais do Bom Fim, o coração artístico da cidade. Era um espaço aberto para todos, com um clima de festa permanente. Ninguém parecia estar apenas trabalhando ali. Todos tinham alma de artista — conta Wander Wildner, 67 anos, à época vocalista dos Replicantes.
Valter realmente fazia arte com as tesouras e as máquinas de corte. Não à toa, uma reportagem publicada por Zero Hora em 1990 definou o Scalp Cabeleireiros como "não apenas um salão de beleza, mas um ateliê de criação".
Depois de uma temporada em Nova York, o visagista voltou trazendo técnicas e referências ainda pouco conhecidas no Brasil. Em plena ascensão da estética new wave, ele era o profissional mais gabaritado em fazer os cortes assimétricos e texturizados que todos desejavam ter, como lembra a cineasta e produtora Luciana Tomasi, 67 anos.
— Éramos muito influenciados pelo que vinha de fora, e o Valter era quem melhor captava essas tendências. Toda a comunidade artística passava pelo salão dele, que sempre encontrava uma forma de apoiar os nossos trabalhos. Acredito que, justamente por isso, ele acabou criando o prêmio — diz.
A Porto Alegre que passou
Hoje proprietária da Prana Filmes, Luciana foi a responsável por publicar o vídeo que reacendeu as memórias sobre o universo que orbitava ao redor de Valter Costa. À época repórter da RBS TV, é ela quem aparece entrevistando as personalidades daquela Porto Alegre nostálgica.
A ideia da publicação partiu das filhas da cineasta, casada com o também realizador Carlos Gerbase — que, inclusive, é entrevistado por ela na reportagem que viralizou. Luciana acreditava que o vídeo pudesse gerar algum engajamento, mas não imaginou que a comoção seria tamanha.
— As gurias viram o material e disseram que ele não poderia ficar guardado. Desde então, não paro de responder perguntas, sobretudo da geração mais nova, querendo saber onde a festa acontecia e por que era daquela forma — conta.
As pessoas querem saber, na verdade, que Porto Alegre era aquela.
LUCIANA TOMASI
cineasta e produtora, à época repórter da RBS TV

Para o multiartista Renato Del Campão, 61 anos, tratava-se de uma cidade mais fraterna, onde as diferenças davam lugar à vontade comum de fazer algo relevante.
— As barreiras e polarizações se dissolviam em prol da arte, sendo o Valter a figura agregadora capaz de transformar ilhas em arquipélago. Era uma espécie de "terceira via" que faz muita falta. Hoje, vejo muita separação e fragmentação. Porto Alegre vive conflitos tristes de tribos que não se juntam — avalia o artista, que era figurinha carimbada em todas as edições do Troféu Scalp.
A opinião é compartilhada por João Carlos Castanha, 65 anos, ator e performer que também viveu intensamente o período e aparece na reportagem resgatada. Nas imagens, ele usa uma roupa extravagante, inspirada no filme Amadeus, e divide com o jornalista Bira Valdez a missão de anunciar uma das categorias da noite — embora mostre-se mais disposto a fazer graça, acariciando a cabeça do colega de palco.
Para ele, aquela era uma época em que as pessoas se levavam menos a sério, mas tinham um entusiasmo ímpar em relação à cultura.
— Sinto saudades, porém, não sou saudosista ao ponto de dizer que "no meu tempo era melhor". Meu tempo é agora. Mas as pessoas eram muito mais envolvidas culturalmente. Íamos ao cinema à meia-noite para assistir a filmes de arte. Hoje, o porto-alegrense vai ao cinema para comer pipoca — compara.
Werner Schunemann resume o espírito daquela Porto Alegre em uma frase: "faça você mesmo". Por isso, para ele, trata-se de um período a ser lembrado não só com saudade, mas também admiração.
— O Valter criou o Troféu Scalp porque não existiam prêmios oficiais para as artes. Essa era a mentalidade da época. Em vez de esperar de alguém, nós abríamos os caminhos por onde queríamos caminhar.




