
Após quase 40 anos, uma nova personagem da Turma da Mônica ganha um gibi recorrente. Com publicação quinzenal, a revista da Milena, primeira protagonista negra desse universo ficcional em 67 anos, está sendo lançada pela editora Panini nesta segunda-feira (11).
A última a ganhar esse protagonismo havia sido Magali, em 1989. Agora, Milena passa a integrar o catálogo ao lado dos títulos clássicos do bairro do Limoeiro, criados por Mauricio de Sousa: Turma da Mônica, Mônica, Cascão, Cebolinha e a já citada Magali. Também há Chico Bento, que vive na Vila Abobrinha e tem sua turma própria.
Milena atende a uma reivindicação antiga do público por uma protagonista negra. Antes dela, a representação se dava por meio de personagens pontuais ou secundários — caso de Jeremias.
Ela foi apresentada por Mauricio de Sousa durante o primeiro evento Corrida Donas da Rua, em dezembro de 2017 — embora o autor já comentasse a intenção de incluir uma família negra (que, em um primeiro momento, seria baiana) na turma desde meados dos anos 2000. A primeira história com Milena foi publicada em janeiro de 2019.
Marina Sousa, diretora-executiva do MSP Estúdios e filha de Mauricio, explica:
— Sentíamos falta de uma personagem exatamente como a Milena. Independentemente da raça, era o que estava faltando para a Turma da Mônica. A construção dela foi muito responsável e natural.
Solidária e persistente
De lá para cá, a personagem apareceu em histórias de diferentes plataformas da Turma. O primeiro livro protagonizado por ela saiu no ano passado pela Malê Editora, intitulado Milena e o Enigma do Pássaro Antigo.
A publicação é assinada por Eliana Alves Cruz, escritora conhecida por trabalhar em suas obras questões como memória, ancestralidade e perspectivas afro-brasileiras — vide O Crime do Cais do Valongo, Meridiana e A Vestida, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos. A autora também é a responsável por uma das histórias da primeira edição da revista.
Com sete anos de idade, Milena é a filha do meio da família Sustenido. A mãe, Sílvia, é veterinária, enquanto o pai, Renato, é diretor de arte em uma agência de publicidade. A irmã mais velha, Sol, é descrita como uma fã de música romântica, que "usa a internet como espaço para se expressar", segundo o material de divulgação. O caçula da família é Binho, que vive se metendo em confusões.
A nova protagonista é descrita como curiosa, investigativa, brutalmente honesta e com um comportamento proativo, ligada nos 220 volts. Eliana acrescenta:
— Ela é muito solidária e persistente. Então, isso também leva a uma certa teimosia.
Características marcantes

Giulia Ebohon, coordenadora de conteúdo da Mauricio de Sousa Produções e que assina o roteiro de uma das histórias da primeira edição, recorda que cada personagem da turminha tem uma característica marcante que é aproveitada como gancho cômico das histórias.
Por exemplo, Mônica tem sua força e o pavio curto; Cebolinha troca o "R" pelo "L" e faz planos infalíveis; Cascão tem medo da água; Magali traz seu apetite insaciável. No caso de Milena, Giulia aponta que a personagem deve ser lembrada pela bagunça.
— Pensamos o que poderia ser construído nessa personagem que criasse essa conexão com as infâncias — relata Giulia. — É muito comum a gente ver pais falando: "Nossa, minha filha é muito bagunceira". É justamente a esse lugar que gostaríamos de chegar. Milena é aquela bagunceira, mas sem consciência disso. "Milena, o seu quarto está tão bagunçado", e ela: "Como assim está bagunçado?".
Personagem em formação

Originalmente, a principal característica de Milena seria o amor aos animais. Porém, sua personalidade foi sendo revisitada ao longo dos anos — agora, por exemplo, ela é especialmente fã de dinossauros. O estúdio avaliou que seria importante que a personagem tivesse uma característica independente e menos óbvia.
Aliás, há alguns anos, fãs adultos da Turma da Mônica criticaram Milena nas redes sociais e em fóruns da internet por uma suposta falta de personalidade. Conforme as críticas, ela simplesmente seria "a filha da veterinária", ou uma personagem que só têm características positivas, o que não renderia muita história ou impacto cômico.
— É uma personagem em formação — diz Eliana. — A Mônica, por exemplo, tem 60 anos e toda uma trajetória consolidada. Essa personalidade vai sendo formulada. Falando não apenas de histórias em quadrinhos, a literatura como um todo é um processo: você começa em um lugar e vai construindo.
Trabalhando a autoestima

Com 48 páginas, a primeira edição da revista da Milena já traz em sua abertura uma história que reforça sua característica bagunceira. Mais da metade do time de roteiristas do gibi de estreia é composta por autoras negras, que trabalham diferentes aspectos da personagem.
A história de Eliana, por exemplo, aborda a autoestima. Para a escritora, o tema precisa ser reforçado em todas as crianças, mas em especial em meninas com as características como as da Milena.
— São meninas que recebem muitos "nãos" com relação à sua aparência — aponta Eliana. — É um não para o cabelo, é um não para o nariz. É uma história que pretende dizer "sim" para essa menina. Olha, você é linda do jeito que é, não precisa mudar nada. Mas é tudo com muita leveza, com um toque, assim, de poesia. De uma forma que encante a criança.
Ritmo acelerado
Para Marina, é possível esperar da revista um ritmo acelerado, que condiz com o da própria Milena:
— Vamos acompanhar uma menina que tem uma família grande e superestruturada, mas com personalidade e muito engraçada.
Giulia realça que Milena já tem um histórico de protagonismo nos últimos anos dentro dos conteúdos da Mauricio de Sousa Produções. A revista, portanto, é uma evolução natural desse processo.
— As gerações de hoje já conhecem a Turma da Mônica como um quinteto, não como um quarteto — sublinha a coordenadora de conteúdo. — Assim como a infância dos anos 1980 foi uma, a de agora é completamente diferente. Isso exige ajustes, atualizações e cuidado para a gente se posicionar com coerência e responsabilidade, favorecendo a conexão e a identificação com o público.
Revistas terão reboot
Além do lançamento de Milena, as revistas com os personagens clássicos da Turma da Mônica passarão por um reboot a partir desta segunda — ou seja, serão reiniciadas e comercializadas a partir do nº 1.
Marina ressalta que o estúdio vive uma fase de reestruturação editorial, visando a se aproximar da geração alfa (nascidos a partir de 2010):
— Há uma nova visão criativa aqui dentro, uma nova MSP. Essas revistas a partir do nº 1 refletem esse momento. O ritmo está acompanhando mais essa geração de crianças, que estão mais ligadas e fazem muita associação com telas.

