
A exposição Porto Alegre – Caras e Coroas completa 50 anos em 2026. Figuras como o escritor Erico Verissimo, autor da clássica trilogia O Tempo e O Vento, o poeta Mario Quintana, o político Paulo Brossard, a coreógrafa Marina Fedossejeva, o jornalista Tatata Pimentel e o folclorista Paixão Côrtes foram retratados por Leonid Streliaev, com apoio e produção de Sérgio Axelrud.
— Foi um sucesso estrondoso. Essas imagens estão guardadas em uma caixa há 50 anos — conta Streliaev, que tem 76 anos e vive em Gramado, na Serra.
Para concretizar o ensaio e expor as imagens em preto e branco na Galeria Eucatexpo, que ficava na Avenida Independência, recebeu financiamento do Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria de Educação e Cultura do Estado. Os 34 retratos – alguns exibiam mais de uma pessoa – foram produzidos em formato de pôster. A ideia surgiu após Streliaev fotografar Quintana na rua.
O trabalho consumiu dois meses da dupla. A exposição foi inaugurada em 28 de outubro de 1976 e ficou aberta até 19 de novembro do mesmo ano. Além de figuras conhecidas, os retratos também exibiam personagens populares e até anônimos (confira algumas fotos na galeria de imagens).
— A escolha das pessoas foi independentemente da posição social e econômica de cada um. Eram pessoas conhecidas da cidade pelas atividades que desenvolviam — explica.
Em 13 de novembro de 1976, o Guia de ZH Variedades dedicou uma página inteira à exposição. Sobre Streliaev, o texto dizia:
"Ele é o fotógrafo do incomum comum, e isso não é apenas um trocadilho ou um jogo de palavras. (...) Ele procura a situação mais óbvia – que no caso da fotografia é muitas vezes a mais real e verdadeira – para transcendê-la. Os rostos/caras porto-alegrenses são vistos em seu habitat ou, se não, há sempre um detalhe aparentemente banal, mas que marca com objetividade o perfil psicológico do fotografado".
— Foi uma escolha bem democrática. Postei desde o vendedor de bilhetes da loteria até um grande escritor.
O fotógrafo afirma que tinha consciência de que o material se transformaria em um registro histórico. O primeiro a ser retratado foi Erico Verissimo, ainda em 1975, ano em que viria a falecer.
— Esse material é um verdadeiro retrato de uma época. Considero uma relíquia impressionante. Cada pessoa dessas tem uma história longa.
Histórias curiosas
Fotografar tanta gente gerou algumas histórias inusitadas. Uma envolveu o folclorista Paixão Côrtes, um dos fundadores do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), que recebeu o fotógrafo em casa.
— Quando fui fotografar o Paixão Côrtes, ele disse: "Espera um pouco aí, tchê!". Aí eu escutava um barulho, "tec, tec, tec". E ele: "Tô cortando os cascos pra bater a foto". Ele estava cortando as unhas — diverte-se com a lembrança.
Outra situação inesperada ocorreu com Lydia Moschetti, que foi a criadora do Hospital Banco de Olhos. Além de filantropa, foi autora de cinco livros.
— Quando fui fotografar, ela foi embaixo da pia, onde saía o ralo. Enfiou a mão e tirou uma trouxa de pano. Eram as joias dela. Ela botou os anéis de brilhante que escondia embaixo da pia — relata.
Fato curioso também aconteceu quando Paulo Brossard foi retratado. O então senador do Rio Grande do Sul era um dos líderes da Oposição ao Regime Militar (1964-1985), denunciando arbitrariedades na tribuna.
— A ordem veio do governador e foi dirigida ao Paulo Amorim, então secretário da Divisão de Cultura da antiga Secretaria de Educação e Cultura. O Amorim me ligou e disse: "Tira fora a foto do Brossard". Porque ele era da oposição. E eu falei para ele (Brossard), que ficou furioso. E o Brossard contou a história para O Estado de S.Paulo dizendo que ser retirado era um absurdo. Aí o Paulo Amorim voltou atrás e mandou botar a foto dele — detalha.
Streliaev menciona ainda a ocasião em que o ambientalista José Lutzenberger foi fotografado vestindo uma sunga no Parque da Guarita, em Torres, no Litoral Norte. Atualmente, o local leva o nome do defensor do meio ambiente.
— Aquela foto foi um sucesso. Ele era o administrador do Parque da Guarita. Então, quando ele apareceu de sunga, todo mundo disse: "Olha lá, o Lutzenberger de sunga".
Streliaev já fotografou para veículos de comunicação como Zero Hora, Placar, Quatro Rodas, Realidade, Cláudia, Exame e Veja. Atualmente, o fotógrafo desenvolve livros e preside o Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico, Ambiental e Cultural de Gramado.




