
A década de 1960 foi determinante para Alvorada. Mais precisamente em 1965, o então distrito de Viamão emancipou-se. E, enquanto dava seus primeiros passos como município independente, também ensaiava passos de dança. Só que não era uma coreografia qualquer: era o cortadinho, que décadas depois se tornaria uma espécie de impressão digital da cidade.
O cortadinho nasceu nos bailes da jovem cidade, que recebia diversas influências culturais naquele período. Com a Jovem Guarda e o brega dominando as paradas de sucesso e os salões de baile, a galera mais pé de valsa de Alvorada foi inventando movimentos para “meter uma balaca” nas pistas.
Assim, foi se desenhando, em locais como o Uniãozinho – uma versão mais humilde do clube Sociedade União –, o bailado que, mesmo sem ainda ter um nome definido, já era sensação na cidade.
— Cada pessoa inventa um pouquinho. Alguém de Alvorada vai em um baile em outro lugar, vê um passinho que gosta e adiciona. Tem um pouquinho do tango, um pouquinho do bolero, um pouquinho de valsa. É uma misturada. E isso forma o cortadinho. Não tem quase mais nada daquilo do começo — destaca a professora de dança alvoradense Janete Santos, 63 anos.
Ou seja, o cortadinho, ao longo de suas seis décadas de existência, foi sendo construído pela própria comunidade – um trabalho de muitas mãos. Na verdade, de muitos pés. Entre os alvoradenses entusiastas da dança, é comum que alguns cheguem cheios de garbo dizendo: “Estás vendo aquele passo ali? Eu que criei.” Ainda assim, conta Janete, as bases são sempre as mesmas:
— Os três passos básicos, os que todo mundo aprende e faz, não mudam. Tem a volta para a direita, a volta para a esquerda e a reboladinha. Esses passos estão lá desde o começo e ninguém muda. E é importante pontuar que ninguém inventou o cortadinho. É uma cria de Alvorada.
Esses três passos, que formam as bases do cortadinho, estão diretamente ligados ao surgimento do nome da dança. De acordo com Saul Jones, 47 anos, diretor do documentário A Dança do Cortadinho (2021), para o qual realizou uma extensa pesquisa sobre a criação alvoradense, o batismo foi feito por Nelson Medeiros, já falecido, que integrava a diretoria do União nas décadas de 1970 e 1980. Ao perceber o potencial do cortadinho, ele quis transformar o clube em um dos pontos de referência para dançar o estilo.
— Conversando com outros diretores do União, ele sugeriu: "Vamos fazer o baile da dança aquela que 'tu vira para lá, vira para cá e corta para lá'. Aí, virou a dança do cortadinho. Foi um movimento para trazer o público que dançava no Uniãozinho para o União, vendo o sucesso que fazia — detalha Saul, completando que, assim, o cortadinho se espalhou por diversos estabelecimentos e atingiu todas as classes sociais do município.
Nos tempos do Uniãozinho
As festas de fim de semana da Alvorada da transição dos anos 1960 para 1970 serviam para que os jovens da cidade mostrassem, nos salões, o que haviam aprendido em casa sob a orientação dos mais velhos. Reginaldo Rossi era o rei — e ainda segue forte nas pistas. As reuniões dançantes realizadas nas garagens também eram essenciais para que a galera treinasse e chegasse “na ponta dos pés” aos bailes.
Nesse período, a dança acabou se tornando uma febre, o que fez com que a maioria das casas noturnas passasse a investir no fenômeno. Alguns espaços se tornaram verdadeiros templos do cortadinho, como o Columbia, o Pliper e o próprio Uniãozinho Bar – este último um reduto mais acessível que o clube Sociedade União, frequentado pela considerada elite de Alvorada.
O Uniãozinho, que antes ficava no final da linha dos ônibus de Alvorada, na parada 52, foi coordenado pelo empresário Dorival Macedo até seu falecimento, em 2003. Para que o legado do estabelecimento não se perdesse, a filha do empresário, Tatiane Macedo, juntamente com o sócio Alfredo Azevedo, decidiu manter a casa noturna funcionando – já na Avenida Salomé, 125, na parada 58.
— O Uniãozinho funciona, praticamente, em cima do cortadinho. Todo sábado tem baile aqui. Juntamos 250, 300 pessoas que amam a festa. Essa dança foi demonizada nos anos 1970, porque diziam que só pessoas do baixo clero dançavam. Hoje, ela está ascendente, está mais cultural. E, também, enxergo uma renovação do público no cortadinho, com os pais passando para os filhos — conta Alfredo, 56, que hoje segue tocando o bar sozinho.
Patrimônio cultural
Essa dança, que nasceu e se desenvolveu na cidade ao longo das décadas, acabou sendo ofuscada pelas mazelas que por muito tempo marcaram Alvorada — com a violência como a principal delas. Mas um grupo decidiu mostrar que o município poderia ser reconhecido também por suas virtudes. Encabeçado pelo músico Alexandre Alves, 51 anos, o movimento procurou os vereadores de Alvorada, em 2019, com o objetivo de tornar o cortadinho um símbolo oficial da cidade.
— Temos um problema muito grande com a autoestima da cidade. Queríamos, então, combater isso com cultura. Em uma cidade que é conhecida por ter muitas dificuldades, as pessoas acham que a cultura não é importante — relata Alexandre.
Depois de algumas idas e vindas, com intensa campanha durante dois anos, que incluiu um baile do cortadinho na praça central da cidade para mostrar a força da dança, finalmente, o cortadinho se tornou patrimônio cultural imaterial de Alvorada através da Lei 3.608/2021. Dois anos depois, ainda, tornou-se de relevante interesse cultural do Estado, pela Lei 15.998/2023. A cultura venceu.
— A luta, agora, é fazer o governo apostar na dança, que pode virar uma festa, fazer com que as pessoas queiram visitar Alvorada para conhecer a cultura. Ainda hoje, tem gente que tem medo de vir até Alvorada, por causa da fama que foi criada. Mas queremos que as pessoas tenham curiosidade de visitar a cidade e, aqui, conhecer uma dança bonita, uma história relevante — complementa Alexandre.
O secretário de Esporte, Cultura e Juventude de Alvorada, Roberto Camparra, 56, promete que, em um futuro próximo, o cortadinho estará ainda mais em evidência no calendário da cidade:
— Para o ano que vem, estou bolando algumas coisas bem interessantes para a dança, porque tenho um entendimento de fomentar ainda mais o cortadinho na cidade e fazer com que ele chegue muito mais longe. Tenho conversado com os grupos para, até mesmo, a criação de uma associação, para desenvolver projetos culturais.

Muda vidas
Além do brega liderado por Reginaldo Rossi, o cortadinho também foi agregando, ao longo do tempo, outros gêneros musicais e se adaptando a eles. Desde que a dança passou a ser praticada no União, décadas atrás, os hits norte-americanos entraram de vez na playlist. Assim, é possível virar para a direita, virar para a esquerda e dar uma “reboladinha” ao som de Fleetwood Mac, Creedence e Dire Straits. Raul Seixas e até mesmo o rock gaúcho também são figurinhas carimbadas nos bailes.
Acompanhando as novidades – e ajudando a criar movimentos inéditos – estão os grupos do cortadinho, que reúnem dezenas, e em alguns casos centenas, de alvoradenses. Só no Encontro de Amigos, formado há seis anos, são mais de 350 pessoas que, tendo a dança como interesse principal, foram se tornando uma comunidade. Unidos, fazem festas, organizam passeios e celebram a vida sempre que podem.
— O cortadinho entrou e ficou na minha vida. A melhor coisa que eu fiz foi aprender a dançar. É fascinante a alegria, a junção de pessoas e a energia. Ajudamos muita gente que estava sofrendo de depressão com esse grupo. Ensinamos a dançar e, também, a estar juntos. Somos, na maioria, veteranos, mas os jovens vêm entrando e aprendem a dançar o cortadinho, perpetuando a dança na cidade. A dança nos une — diz a industriária Rita de Cácia Almeida da Silva, 56, representante do Encontro de Amigos.
Marcelo Gomes, 55 anos, é professor de dança, bailarino e coreógrafo. Hoje, trabalha para levar o patrimônio cultural para além das fronteiras de Alvorada. Foi ele quem coreografou o primeiro videoclipe de cortadinho da história, reunindo uma dezena de casais para dançar de maneira sincronizada – algo inédito até então, visto que cada um adapta o cortadinho como prefere.
O dançarino também passou a buscar reconhecimento em concursos. Além das disputas municipais, recentemente ele começou a competir em eventos estaduais. Participou do 3º Festival Guaíba de Dança, que teve o coreógrafo Carlinhos de Jesus como um dos jurados. E Marcelo não fez feio: levou a medalha de ouro em sua modalidade.
— A dança remete aos anos 1960. Os nossos avós dançavam. E, em Guaíba, foi a primeira vez que o cortadinho conquistou o primeiro lugar em um campeonato de nível estadual. E, hoje, até o Carlinhos de Jesus já sabe o que é o cortadinho — comemora Marcelo.

