
A Fundação Theatro São Pedro, que administra um dos endereços mais celebrados da cultura gaúcha, tem um novo presidente. Luciano Alabarse assume o posto em substituição a Antônio Hohlfeldt, que deixou a função após suspender a programação de 2026, alegando falta de pessoal e dificuldades de operação.
Diretor teatral, gestor cultural, idealizador do Porto Alegre em Cena e ex-secretário da Cultura da Capital e de Canoas, Alabarse foi entrevistado no Conversas Cruzadas pelos jornalistas Eduardo Rosa e Fábio Prikladnicki. Falou sobre governo, novos desafios e também sobre a própria trajetória.
— Não me sinto assustado. Na cultura, nada é fácil. Minha impressão é que estamos propícios a avançar — afirmou.
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Confira os principais trechos
Como é que o senhor recebeu o convite e como estão sendo estes primeiros dias?
O Multipalco faz parte da minha vida há décadas, desde quando ele era um projeto na cabeça da dona Eva (Sopher, presidente da fundação por mais de 40 anos). Acompanhei toda a criação, do projeto arquitetônico, os sonhos, a luta imensa dessa grande mulher. Então, eu não estou entrando num ambiente que eu não conheça. Hoje, a gente vê o Multipalco pronto. Quando o Antônio (Hohlfeldt, seu antecessor) me disse que o governador Leite tinha aportado o recurso integral (para construção do espaço), a gente até estranha uma notícia tão boa dessas. E está lá, é um complexo importante na América Latina. São muitas salas de ensaios, de música, de ópera, de dança. A equipe que está lá, com todas as questões pontuais que a gente possa levantar, ama o Multipalco. Tem um clima favorável, uma disposição favorável. Noto que todo mundo quer que aquilo funcione. Somos cúmplices de sonhos.
Como é estar numa nova posição dentro do Theatro São Pedro e que desafios você vê pela frente?
A dona Eva fazia questão que eu estreasse meus espetáculos lá. Então, hoje, é o teatro onde eu mais estreei meu trabalho como diretor. Conheço o que são as necessidades da cultura, o que um grupo precisa e espera quando entra num teatro. Não me sinto assustado, na cultura nada é fácil. Minha impressão é que estamos propícios para avançar e fazer um Multipalco forte com o pessoal que trabalha lá satisfeito. Não tem tempo ruim.
Vai ter um perfil diferente de programação para cada os espaços?
São teatros novos e diferentes. O Olga Reverbel é o mais diferente deles. Os outros dois têm um palco italiano, uma relação espetáculo-plateia definidos. O ideal é isso. É trabalhar com as demandas, o que querem, quem quer, não sou eu impondo uma visão minha sobre aquilo. E, também, não é não ter uma visão. É adequar para que todos sejam contemplados com arte, porque a função última da fundação é exatamente impulsionar a produção cultural.
Sobre obras, faltam ainda questões a serem trabalhadas nos bastidores do Multipalco?
É um complexo tão complexo, tão grande. O que precisamos ter é um sistema de manutenção. Pela natureza da sua ocupação, a produção teatral, por exemplo, ou de dança, é algo que desgasta o equipamento. Seja a questão de spots, de luz, de som, o palco. Precisamos ter, sim, esse olhar de manutenção muito atento. Nunca esqueço da dona Eva pedindo para trocarem as lâmpadas. O caminho para o Multipalco é cuidar daquele espaço amorosamente, como se fosse da casa mesmo.
Quanto está já confirmada a programação do Multipalco? O que mais vem por aí para o ano que vem?
Para uma programação de centro cultural estar equalizada, também precisa muito trabalho anterior e prévio. Esse trabalho anterior já estava sendo feito. O trabalho não parou e nem vai parar enquanto o Theatro São Pedro estiver em obras. Não sei se é exatamente o ideal da equipe, mas é um teatro a menos que eu posso contar para atender as duas salas, e a gente está trabalhando com o secretário de Cultura para que isso não vire um problema. Isso tem que ser administrado, conversado, pactuado para que a gente tenha o que a gente quer, que é o Multipalco funcionando.
Que o senhor acha que é o seu maior desafio hoje?
Sobre o desafio de estar à frente do Multipalco, é conversar, ouvir, ponderar. É porque eu não vejo vilões nessa história, então é fácil conversar quando todos querem acertar. Ontem (terça-feira), tomei um café com o Antonio (Hohlfeldt), e ele, muito de boa, entendendo que isso é da vida. Eu mesmo já vivi situações tensas de demissões e aprendi que o mundo é redondo. Uma hora a gente está lá em cima no topo, outro dia está lá embaixo, e o desafio é não perder a capacidade de ouvir, de falar e de conversa.
O senhor vai continuar na coordenação do Porto Alegre Em Cena?
Foi a minha única pergunta, se aceitar o trabalho na Fundação implicaria em renúncia ao Em Cena. Aí eu nem queria continuar a conversa, porque era não. Eu já tive que sair algumas vezes do Em Cena e a coisa ficou meio estranha. E eu o vi nascer, há 33 anos, acompanhei uma fase gigantescamente linda dele com os maiores mestres mundiais do teatro vindo a Porto Alegre.
Existe algum projeto de livro para registrar toda a sua trajetória como diretor de teatro?
Existe. São 50 anos. A minha primeira direção aconteceu em 1974. Eu acho que, independente de ser eu, e não é uma coisa narcisística, mas é importante porque eu falo do próprio teatro gaúcho, de atores que já morreram, de peças importantíssimas. O livro vai se chamar Direções e vai ser lançado no ano que vem.
O que o senhor mais se orgulha nesses 50 anos?
O que eu me orgulho é de me comparar a um deus grego. O deus grego chega no seu destino pelo erro. Ele erra, cai, e eu nunca tinha pensado em fazer teatro na vida. Sempre fui um ótimo aluno, ninguém duvidava que eu passaria no vestibular, nem eu. Só que eu errei o formulário sem me dar conta. Em vez de fazer licenciatura em Letras, que era o que eu tinha planejado na minha vida, pus um "x" uma linha abaixo, no licenciatura em Artes Cênicas. Eu me orgulho de ter errado na escolha da minha profissão, porque me deu a minha real vocação.
Como é que o senhor vê a questão do público para os espetáculos gaúchos? Quando a gente conversa com os artistas daqui, parece existir sempre uma vontade de que mais pessoas frequentem os teatros, prestigiem os artistas daqui.
Na primeira peça que eu fiz como ator, a gente ficava atrás daquela cortina vendo o público, e quando chegava em oito pessoas ficava feliz. Hoje em dia, não. A gente já tem um outro patamar de relacionamento com o público e é sempre uma grande luta. Uma coisa boa é a diversidade de propostas cênicas. Tem muita diferença, tem teatros para todos os gostos, e acho que mudou muito nesses 50 anos. Está melhor do que quando eu comecei a minha carreira.
O Conversas Cruzadas vai ao ar de segunda a sexta-feira, no streaming, com os assuntos que mais impactam o público. O espaço discute, entre outros assuntos, economia, cidades, política, educação e saúde. O programa é transmitido ao vivo no canal do Youtube de GZH e também pelo site e pelo aplicativo.





