
Algumas décadas atrás, diversas cidades do Rio Grande do Sul tinham ginásios lotados para ver uma atração da qual poucas pessoas se lembram hoje, mas que fez história: o Clube de Patinadores Tangarás. Deslizando sobre rodinhas, os atletas-artistas apresentavam performances que enchiam os olhos dos espectadores, aliando velocidade, manobras impressionantes e roupas brilhantes.
Esse movimento se iniciou na década de 1960, dentro dos muros do Colégio Marista Champagnat, no bairro Partenon, em Porto Alegre, incentivado pelo professor Alexandre João Durante, morto em 2022, que trouxe à Capital novidades descobertas em viagens pelo Brasil. A que mais o cativou foi a patinação, inspirada no grupo Periquitos em Revista, do Palmeiras, em São Paulo.
"Sofri muito bullying, mas conseguimos superar"
As primeiras deslizadas no Champagnat ocorreram em 1964, com a prática do hóquei sobre rodas. O esporte foi escolhido porque a escola era exclusiva para meninos. A patinação artística começou a surgir ao mesmo tempo em que as meninas, muitas delas parentes dos alunos, foram se integrando às atividades da instituição, que, pouco tempo depois, se tornou mista — ou seja, para ambos os gêneros.
Assim, em 1969, foi criado oficialmente o primeiro grupo de patinação artística do Rio Grande do Sul, o Clube de Patinadores Tangarás, que se tornou um importante divulgador da atividade no Estado. O nome faz referência a um tipo de pássaro colorido e "dançarino".
Naquele mesmo ano, entrou para o time Leandro Dias, aos 11 anos, que havia sido transferido para a instituição marista. Até tentou se integrar ao hóquei, mas foi na arte que se encontrou.
— Sofri muito bullying, principalmente da parte masculina. Era uma pressão. Mas, felizmente, conseguimos superar tudo isso. A patinação me trouxe disciplina e vivi a vida inteira para o esporte. Tanto que me formei em Educação Física — conta Leandro, que foi de aluno a diretor artístico do grupo em apenas quatro anos.
Assista a vídeo sobre o Tangarás:
"O clube foi uma marca muito forte no RS"
A ascensão da modalidade foi rápida no Estado, com ampla cobertura da imprensa. Foi por meio do Tangarás que outros grupos foram se organizando, criando uma rede gaúcha de patinação. Começaram, então, a movimentar uma agenda cheia de apresentações, competições e troca de experiências, inclusive com intercâmbio de atletas: gringos vinham para o Brasil e gaúchos iam aprender no Exterior.
— O clube foi uma marca muito forte no Rio Grande do Sul — orgulha-se Leandro, aos 68 anos. — O Tangarás enchia ginásios. Não existia internet, então as pessoas tinham que ir ao local para ver as apresentações.
Não demorou para que atletas do Tangarás passassem a ir a disputas de grande porte fora do Brasil. Leandro, por exemplo, competiu nos Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianápolis, nos Estados Unidos. Ainda guarda uma medalha de participação como um tesouro.
"Era tudo no amor, a gente não ganhava dinheiro"
Inspiradas e guiadas pelos veteranos, as novas gerações também embarcaram nesse universo. É o caso de Nelise Tavares, que chegou ao Champagnat aos nove anos, em 1979, e foi convidada pelo professor Alexandre para fazer uma aula experimental no Tangarás. Encantou-se.
— Patinei muito no Tangarás. Depois, minha família toda fez parte: meu pai, minha mãe, meu irmão, minha irmã. Meu pai chegou a ser presidente do clube — recorda a patinadora. — Nos finais de semana, viajávamos juntos para fazer as apresentações. Às vezes, chegávamos domingo de madrugada e íamos direto para a escola.
A dedicação era total: queriam ser os melhores. Quando não estavam patinando, os alunos assistiam a filmes e programas de televisão para aprender movimentos que pudessem entrar nas apresentações. A imersão era tanta que formavam-se amizades, romances e rivalidades.
— Era tudo no amor, a gente não ganhava dinheiro. A renda que entrava era para investir em melhorias para o clube, fazer as fantasias — completa a patinadora, hoje aos 55 anos.

"A rivalidade era mais dos pais do que nossa"
No mesmo 1979 em que Nelise entrou para o Tangarás, Luciana Grassi passou a integrar o time. Foi a partir de uma reportagem na televisão que a menina, também de nove anos, encasquetou que queria patinar. Insistiu tanto que foi parar no Champagnat, lugar mais próximo com a presença do esporte — ela vivia em Viamão.
Enquanto Nelise e Luciana mostravam habilidades sobre as rodas, foi crescendo certa rivalidade, com uma querendo superar a outra.
— Quando entrei, a Nelise já patinava bem, e eu estava atrás. A gente começou a competir e virou essa disputa. Uma vez, ela ganhava; na outra, eu. Mas estávamos sempre juntas: uma dormia na casa da outra, coisas de criança. Na verdade, acho que essa rivalidade era mais dos pais do que nossa (risos) — relembra Luciana, aos 55 anos.
Leandro enaltece o talento da dupla, lembrando que ambas representaram o Tangarás e o Brasil em países como Colômbia, Estados Unidos, Itália e Alemanha, demonstrando a força da patinação artística do Estado. Nelise conta que hoje ambas são boas amigas e oferecerem aulas particulares para novos patinadores.
"Muitos ainda hoje estão ligados à patinação"
A importância do Tangarás foi tamanha para a patinação do Estado que o clube foi um dos fundadores da Federação Gaúcha de Patinagem (FGP). A instituição nasceu nas dependências do Champagnat em agosto de 1973 para "difundir, promover, coordenar, organizar, representar e regulamentar" a patinação no Rio Grande do Sul.
— É muito bacana poder dizer que esse clube representa a história do esporte no nosso Estado — diz Andréa Costa Leindecker, presidente da FGP, salientando que, atualmente, existem 33 clubes federados e mais de 500 atletas. — Muitas pessoas que eram do Tangarás ainda hoje estão ligadas à patinação.
"Foi uma segunda família para mim"
O Tangarás seguiu no Champagnat até 1983. Depois, foi para o Colégio Estadual Protásio Alves, na Azenha, onde ficou até o começo dos anos 1990. Nesse meio-tempo, Leandro foi dar aula no Colégio Salesiano Dom Bosco. O grupo, então, foi minguando até deixar de existir. Pelo menos, oficialmente. Na memória dos integrantes, ele segue lá.
— O Tangarás foi uma segunda família para mim, passávamos o dia todo lá. O Leandro era tipo um paizão para nós. — destaca Luciana. — Hoje, sou comissária de polícia, acostumada a cumprir normas e regras, o que aprendi no Tangarás, na minha vida de atleta — destaca Luciana.
Nostálgico, Leandro guarda boa parte das inserções do grupo nos jornais, bem como as muitas medalhas conquistadas e até mesmo figurinos da época. É o pilar da história do Tangarás. Hoje, tem a escola Patinação Passo a Passo, que presta serviços para escolas, incluindo o Champagnat, onde treina uma nova geração para deslizar sobre rodas. Nelise conclui:
— Foi marcante demais. A gente fala, mas as pessoas não têm noção do que vivemos ali. E que bom que tem turmas novas vindo aí. A patinação é para a vida.





