
Um dos sambas que concorrem a hino da Unidos do Viradouro no Carnaval do Rio de 2026 chamou atenção porque entre as vozes que gravaram a obra está a de Dominguinhos do Estácio, morto em 2021, aos 79 anos. Um dos grandes nomes do Carnaval carioca, o intérprete volta a ser ouvido depois de quatro anos por meio de inteligência artificial (IA), em gravação autorizada pela família. A iniciativa é inédita na festa e movimentou o meio carnavalesco.
A escolha de Dominguinhos tem ainda mais peso porque ele foi parceiro de longa data de Mestre Ciça, tema do enredo Pra Cima, Ciça!. Os dois dividiram inúmeros desfiles e histórias na avenida, o que reforça a homenagem ao mestre de bateria, primeiro do Grupo Especial a ser reverenciado em vida, com 55 Carnavais no currículo.
Emoção no estúdio
O processo misturou tradição e tecnologia. O samba nasceu do jeito tradicional, ao redor da mesa. Depois, começou a fase experimental: dezenas de registros antigos de Dominguinhos alimentaram um sistema de inteligência artificial.
Pitty de Menezes, da Imperatriz Leopoldinense, estudou os trejeitos, pausas e a respiração do intérprete e gravou as linhas vocais como imitação. O trabalho contou também com Marcelo Adnet, um dos compositores, que ajudou na reprodução de estilos e vozes. Marcelo Bertolo, outro dos autores, explica:
— Fiquei uma semana e meia, mais ou menos, alimentando o aplicativo para ir pegando o timbre. Só que aí ele só pega o timbre, e alguém tem que cantar parecido. Aí veio a parte artesanal.
Com o timbre ajustado, o software aplicou a forma de cantar de Dominguinhos, deixando a gravação idêntica à voz original.
— Todo mundo chorou no estúdio. Foi um momento de muita emoção — relatou Bertolo.
"Afago no coração", diz filha do cantor
A repercussão, no entanto, dividiu opiniões. Muitos se emocionaram com a lembrança e elogiaram a homenagem; outros consideraram apelativo usar inteligência artificial em uma disputa que, por tradição, é vencida no gogó da quadra. A família, comunicada durante todo o processo, aprovou o resultado.
— Parecia que ele estava aqui pertinho da gente. Foi um afago no coração — conta Livian Ferreira, filha do intérprete.
O samba é apontado como um dos favoritos no concurso da Viradouro, mas a voz de Dominguinhos ficará restrita à gravação divulgada nas redes e apresentada à escola. Pelas regras, os sambas precisam ser defendidos ao vivo na quadra, apenas com cantores, cavaquinho e violão. Alex Faab, diretor de Carnaval da Viradouro, resume:
— O que vale para a gente é o conteúdo da obra, sua relação com o enredo e a forma como ela se apresenta na quadra. A criatividade é bem-vinda, mas a escolha é feita com base na qualidade da obra.

Ex-Fundo de Quintal lançou disco com IA
O uso da inteligência artificial para devolver a voz a sambistas não é exclusivo da disputa da Viradouro.
Cleber Augusto, ex-integrante do grupo Fundo de Quintal, que perdeu a voz há mais de duas décadas em razão de um câncer na garganta, lançou recentemente um álbum inédito com apoio de softwares.
A tecnologia foi usada com gravações antigas e contou com a ajuda de Alexandre Marmita, de timbre semelhante. O disco Andanças reuniu 13 regravações de clássicos e uma faixa inédita, Ímã, composta há mais de 20 anos e resgatada de uma fita cassete. Na ocasião do lançamento do álbum digital, Cleber Augusto afirmou:
— A voz é a alma da música, e a IA me permitiu manter a essência da minha interpretação. O resultado final é surpreendente. A emoção e a mensagem das músicas continuam intactas.

Quem foi Dominguinhos do Estácio?
Domingos da Costa Ferreira, o Dominguinhos do Estácio, foi uma das vozes mais marcantes do Carnaval carioca. Nascido no Rio de Janeiro em 1941, iniciou sua trajetória na Unidos de São Carlos, depois Estácio de Sá, e logo se destacou pelo timbre grave e cheio de emoção.
Na Imperatriz Leopoldinense, conquistou títulos como intérprete em 1980, 1981 e 1989, antes de ser a voz do campeonato da Estácio em 1992. Em 1997, brilhou novamente como cantor e compositor do samba campeão da Viradouro, em desfile dirigido por Joãosinho Trinta. Também passou pela Grande Rio e voltou tanto à Imperatriz quanto à Viradouro em diferentes momentos da carreira.
Reconhecido pelo carisma e potência vocal, recebeu prêmios como o Estandarte de Ouro e o Tamborim de Ouro, além de gravar álbuns como Bom Ambiente, Gosto de Festa, Mar de Esperança e Minha Devoção. Mesmo com a saúde fragilizada, seguiu participando de shows e gravações até pouco antes de morrer, em 2021, aos 79 anos, em Niterói.
Letra do samba-enredo "Pra Cima, Ciça!"
Autores: Claudio Mattos, Renan Gêmeo, Rodrigo Gêmeo, Lucas Neves, Rodrigo Rolla, Ronaldo Maiatto, Bertolo, Silvio Mesquita, Marcelo Adnet e Thiago Meiners
Intérpretes: Pitty de Menezes e Dominguinhos do Estácio (voz recriada por IA)
Eu vi... a vida pulsar como fosse canção
Milhões de compassos pra eternizar
Em cada batida do meu coração
O som que reflete o seu batucar
Lá, onde o samba fez berço, do alto do morro
Um menino orgulha Ismael, bicho novo
Forjado nas garras do velho leão
Contam, no Largo do Estácio, o destino em seu passo
Que fez pouco a pouco uma chama acender
Traz surdo, tarol e repique pro mestre reger
Quando o apito ressoa parece magia
Num trem caipira, no olhar da baiana
Medalha de ouro, suingue perfeito
Que marca no peito da escola de samba
Se a vida é um enredo, desfilou outros amores
Maestro fez do couro sinfonia
Na ousadia dos seus tambores
Peça perfeita pra me completar
Feiticeiro das evocações
Atabaque mandou te chamar
Pra macumba jogar poeira
Firma a caixa pra resistir
O nome de Moacyr é legado do Mestre Caveira
Sou eu, mais um batuqueiro a pulsar por você
Ciça, gratidão pelas lições que eu pude aprender
E hoje aos teus pés somos todos um nessa avenida
Num furacão que nunca vai ter fim
Nossa história não encontra despedida
Se eu for morrer de amor, que seja no samba
Sou Viradouro, onde a arte o consagrou
Não esperamos a saudade pra cantar
Do mestre dos mestres herdei o tambor


