
O público geek gaúcho teve, neste final de semana, dois dias de celebração à cultura pop. Entre o sábado (23) e o domingo (24), mais de cinco mil pessoas passaram pelo campus da Unisinos de Porto Alegre para uma imersão no universo dos quadrinhos, do cinema, das séries, do k-pop e dos games.
Os números, segundo o idealizador do evento, Émerson Vasconcellos, foram ótimos, mesmo com a chuva e a ventania que insistiram em tentar estragar a festa dos nerds no sábado. A expectativa é de que a edição de 2025 do evento tenha superado a do ano anterior e se tornado uma das maiores de toda a história da convenção gaúcha, que nasceu em 2011, em Porto Alegre.
O evento seguiu na Capital até 2014, partindo, depois, para Canoas, onde se fixou até o ano passado. A ComicCon RS 2025, então, marca um retorno para casa — de onde Émerson não pretende mais sair:
— Queremos voltar em 2026 com o evento em Porto Alegre e seguir por quanto tempo a Unisinos nos quiser aqui.
Tanto para o público quanto para os expositores esta volta foi muito bem-vinda. A maioria garante que ficou mais fácil o acesso e, também, foi possível ter uma integração com novos visitantes da convenção.
— O ambiente está tri bom, o espaço da Unisinos é muito legal. E ter um evento como esse em Porto Alegre é ótimo para divulgar o nosso trabalho. Novas pessoas podem conhecer os quadrinhos. Isso faz girar a roda da cultura pop. E, agora, mais perto de casa — explica Guto Bozzetti, artista e criador da saga em quadrinhos Zack Meia-Noite.
A voz icônica
Uma das principais atrações da ComicCon RS 2025 foi Márcio Seixas, responsável por dublar, em diversas produções, o personagem Batman no Brasil. Ele foi convidado para participar de um painel sobre a sua trajetória e, também, de uma sessão de autógrafos com os fãs neste domingo. O auditório da Unisinos ficou cheio — era uma enxurrada de personagens distintos, do Wolverine ao Homem-Aranha, do Coringa ao Charada, todos para ouvir o Batman falar.
De acordo com o artista mineiro de 80 anos, o frio de Porto Alegre o obrigou a colocar algumas camadas de roupas e uma boa manta ao redor do pescoço — importante para proteger as cordas vocais. Esbanjando simpatia, ele ressaltou que eventos como a ComicCon RS são de extrema importância, por aproximar os fãs de seus ídolos:
— Já deveria ter acontecido quando todo mundo idolatrava aqueles desenhos como Pepe Legal, Scooby-Doo, Os Flinstones. É uma pena que esses eventos artísticos e sociais demoraram tanto a acontecer, para que o público pudesse estar em contato conosco mais permanentemente, como tem acontecido. Eu já participei acho que de uns quatro ou cinco eventos, só em 2025.
Seixas, que tem mais de 50 anos de carreira, também emprestou a sua voz para uma série de artistas gringos, como Clint Eastwood, Sean Connery, Leslie Nielsen, Michael Caine e Morgan Freeman. No entanto, o Homem-Morcego é o seu personagem mais marcante — e o que mais gosta de dublar:
— O Batman se tornou muito mais importante do que um dia pude supor. É um personagem sombrio, assustador. No entanto, esse personagem, com a minha voz e aquela trilha, compõem uma coisa emocionante, que pega todas as gerações. Eu tenho gente de cabelo branco que ama o trabalho e tem crianças que chegam emocionadas olhando para mim como se eu não existisse, como se eu fosse o Batman. É um presente que recebi de Deus.
Ser quem quiser
Nathália Fin Muller, 22 anos, estudante de Design, estreava nos corredores da Unisinos o seu cosplay de Estelar. Ela se juntou ao casal de amigos Maria Eduarda Sotille Lopes, 22, estudante de Psicologia, que estava trajada de Ravena, e Leonardo Pacheco, 23, estudante de TI e professor de inglês, que estava caracterizado como Mutano. O trio, então, formava parte dos Jovens Titãs.
— É gratificante ter um espaço como a ComicCon RS. Eu venho desde nova nestes eventos. Eu vinha desde os meus 13, 14 anos, com a minha mãe, depois passei a vir sozinha. Gosto muito de ter um lugar onde eu possa me encontrar, encontrar pessoas que gostam das mesmas coisas que eu. É uma sensação de pertencimento — conta Nathália.
Para Leonardo, convenções voltadas para o público geek dão liberdade:
— Me sinto feliz em ter um espaço em que a gente possa explorar a nossa criatividade e as várias formas de se expressar.
Maria Eduarda fala sobre as escolhas dos cosplays, que podem ser apenas por estética, mas, também, podem ter um significado mais profundo:
— Podemos nos expressar para fazer jus aos personagens que nos inspiram e nos acompanham desde a infância, desde a adolescência, que marcaram a nossa vida. E são personagens que nos identificamos.
Também pela ComicCon RS, transitava um chamativo Lion-O, que posava para fotos e empunhava a sua Espada Justiceira, gritando: "Thundercats, hooooo!". Um sucesso. Por trás da máscara de leão, estava Christian Rosa Souza, 49, atendente de pet shop. Para ele, é uma alegria poder fazer o seu cosplay em um espaço com tantas pessoas que admiram o seu trabalho — e o ajuda a recordar de sua infância, quando tinha a coleção completa dos brinquedos dos Thundercats. E Lion-O é o seu herói favorito.
— É a minha primeira ComicCon RS, mas faço cosplay desde 2018. Acho que é importante ter espaços como esse para a gente fazer cosplay, mas ainda acredito que deveria ser aceitável sair na rua com o cosplay, dar uma volta no final de semana. Me visto assim porque eu gosto. Me sinto à vontade de ser o personagem que eu poderia ser. Quero ser o que eu gosto. A única barreira é a sociedade. E, em um evento, é aceito — conta Christian.
Cápsula do tempo
O curso de Comunicação Digital da Unisinos preparou, em um espaço do prédio, uma área de "descompressão", onde o público pôde ir descansar um pouco e, também, fazer uma atividade que está na moda: pintar os Bobbie Goods — que, no evento, viraram os Nerd Goods.
Os desenhos trouxeram adaptações de personagens clássicos, como o Batman e a Mulher-Maravilha, para a realidade gaúcha, seja tomando um mate ou comendo um xis. E cabia aos visitantes, de todas as idades, pintarem. Estima-se que cada um levava cerca de meia hora para finalizar uma folha, com alguns ficando sentados fazendo a atividade por horas.
— Aproveitamos este movimento dos Bobbie Goods para fazer uma área mais leve, mas, também, para apresentarmos o curso de Comunicação Digital, voltado para a criação de conteúdo e com relação com a cultura digital e o mundo nerd. Virou um sucesso. E o pessoal pode levar para casa ou deixar aqui para expor, aí colamos na parede — diz Taís Flores da Motta, coordenadora do curso de Comunicação Digital da Unisinos.
Se um dos pontos da ComicCon RS estava totalmente voltado para uma trend atual, em outro canto, um estande propunha uma viagem no tempo: o do Cinne Vício, comandado por Jhonattan Queiroz, com foco em mídia física.
Por ali, era possível encontrar DVD’s, blu-rays e, até mesmo, fitas VHS. Presente na ComicCon RS desde 2018, Jhonattan enxerga que, no evento, o público vai se renovando e mais gente vai valorizando a mídia física:
— É um mercado de nicho, mas uma galera nova está descobrindo que muitos dos filmes não estão no streaming. Mais cedo, uma adolescente comprou um DVD de Curtindo a Vida Adoidado. Ocorrem esses episódios. Algumas pessoas, enxergam esse espaço como uma cápsula do tempo. E essa edição da ComicCon RS está sendo muito boa. Por voltar a ser em Porto Alegre, está tendo uma boa rotatividade de público.




