O novo formato do Fronteiras do Pensamento foi aprovado — tanto pelos participantes quanto pelos organizadores. As tradicionais conferências, neste ano, deram espaço para os diálogos, mas também para música, sessões de autógrafos, arte, gastronomia, visitas guiadas e muito mais em três dias de celebração cultural. E tudo isso em espaço público, na Praça da Matriz e nos prédios em seu entorno.
O evento, agora com o nome de Festival Fronteiras, foi mais pop, mesclando atividades gratuitas com pagas e colocando o foco em pensadores contemporâneos em língua portuguesa.
— Acho que foi ótimo, um bom início, com o pé direito — diz o curador do evento, Fernando Schüler.
Para o fechamento, a partir das 19h30min, neste sábado (31), houve apresentação da banda Dingo que, acompanhada da Orquestra da Ulbra, regida pelo maestro Tiago Flores, entregou aos presentes o espetáculo Dingo Sinfônico. E lotou a rua.
— Obrigado, Festival Fronteiras. É um sonho tocar de graça, na praça. É o melhor momento da nossa carreira —bradou o vocalista, Rodrigo Fischmann.
Durante o show, que foi realizado no palco montado na Praça da Matriz, de frente para o Theatro São Pedro, o grupo apresentou versões de suas músicas com arranjos orquestrais feitos especialmente para a ocasião. A banda também ofereceu para os espectadores o seu próximo lançamento, o single Dúvidas. Em boa parte da festa, o público cantou junto — em especial com os hits Eu Vim Passear e Dinossauros, que fizeram os presentes erguerem os celulares com as lanternas acesas, criando uma atmosfera etérea em meio aos monumentos históricos da cidade.

Público diverso
A apresentação mesclou o público mais jovem, fã da banda porto-alegrense, com os mais veteranos, que eram majoritários nas palestras. Todos curtindo a festa, que se estendeu até às 20h45min. A boa música foi acompanhada de animação por parte de quem esteve no festival para prestigiar as conversas entre os intelectuais, mas, também, para quem foi até o Centro Histórico apenas para aproveitar as atividades abertas ao público.
É o caso do casal Carlos Tiburski, 50 anos, jornalista, e Daniela Machado, 46, vendedora, vizinhos da Praça da Matriz. A dupla, que estava no local com uma sacola de compras nas mãos e um saco de pipoca doce recém-estourada pelo vendedor da praça, celebrava a realização de um evento deste porte.
— Ontem, prestigiamos as palestras e os shows, que estavam superbons. Hoje, chegamos cedo para ver o lançamento do livro do (Leandro) Karnal e, também, o Lázaro (Ramos). E curtimos bastante a livraria (da Travessa), porque o pessoal que faz a palestra tem os livros ali, daí dá para ir ali, comprar, pegar um autógrafo. Muito bom — destaca Daniela.
Ela ainda ressalta que o evento, na praça, consegue dar vida ao bairro, atraindo pessoas que estão simplesmente passando pelas ruas. Segundo a vendedora, não demora muito para que o transeunte se sinta atraído pela organização e segurança que o evento proporciona. Para o ano que vem, Daniela espera, apenas, que os ingressos para as atividades pagas fiquem mais acessíveis para que ela possa aproveitar o festival por completo.
— Gostei muito de ter o telão no lado de fora (da Arena Fronteiras). Democratiza o espaço, realmente —complementa Carlos.
— Ficou mais informal, mais próximo. Eu achei bem legal.
Já a professora aposentada Jussara Spader, 70, comprou o passaporte para os dois dias de diálogos do Festival Fronteiras. Ela, que é de Bento Gonçalves, viajou para Porto Alegre com a amiga, Maji Chama, 52, com quem já frequentou várias edições do Fronteiras do Pensamento.
— Este formato, para mim, foi uma surpresa maravilhosa. Os convidados são excelentes. A única reclamação que eu faço é em relação a mim mesma, que não posso me dividir para estar em mais de uma atividade ao mesmo tempo (risos) — conta Jussara.
A aposentada reforça que o ponto alto do evento foi ter conseguido, depois de ver uma palestra da futurista e consultora Martha Gabriel, um autógrafo da intelectual. Além disso, ela aponta que adorou as conversas com Marcelo Tas e Lázaro Ramos.
— Valeu muito a pena vir aqui. Aprendi muito e espero que tenha novamente no ano que vem, pois quero voltar —conta Jussara.
Balanço
— Mais de 15 mil pessoas circularam na Praça da Matriz, e acompanharam as atrações pagas e gratuitas — afirma Dody Sirena, um dos fundadores do Grupo DC Set, responsável pela produção do evento.
Durante três dias de evento — quarta (28), sexta (30) e sábado (31) — o Festival Fronteiras reuniu um elenco de peso de pensadores, que subiram ao palco sempre em duplas, para entregar diálogos, que foi o mote do evento. Até mesmo as apresentações musicais foram realizadas em duos, para fornecer essa conversa desejada pelos organizadores das atividades.
Participaram das palestras nomes como Gilberto Gil, Mia Couto, Drauzio Varella, Lázaro Ramos, Maria Ribeiro, Pedro Bial, Leandro Karnal, Maria Homem, Itamar Vieira Jr., Martha Gabriel, Marcelo Rubens Paiva, Marcelo Tas e Ana Suy. Entre os gaúchos, Fabrício Carpinejar, Claudia Tajes e Eduardo Bueno, o Peninha, foram alguns dos estiveram presentes.
No dia final, foi possível observar um movimento ainda mais intenso do que na sexta-feira. As filas para entrar no Teatro Simões Lopes Neto, no Multipalco, estavam enormes — os diálogos de Eduardo Bueno com Marcelo Rubens Paiva e Leandro Karnal com Maria Homem foram hits durante a tarde.
Para o curador do Festival Fronteiras, Fernando Schüler, a cidade absorveu bem as novidades apresentadas neste ano pelo evento. O cientista político ainda enfatizou que o público demonstrou o seu interesse pelo encontro, pelo diálogo e pela convivência, ressaltando, assim, a predisposição da Capital de ser uma protagonista no que se refere a atividades culturais.
— É evidente que, em uma primeira edição, há muitos aprendizados. Pode-se evoluir, pode-se melhorar. Eventualmente, por exemplo, ocupando mais o fim de semana e menos um dia de semana. Mas foi uma excelente experiência. A cidade recebeu muito bem o festival e, ao que tudo indica, os patrocinadores, os parceiros, estão bastante satisfeitos — destaca Schüler.
De acordo com o curador, ainda, este resultado positivo deve abrir as portas para que o Festival Fronteiras ganhe protagonismo e entre, de vez, para o calendário cultural da Capital — mas ainda existem chances do ciclo de conferências do Fronteiras do Pensamento, que rolou em São Paulo neste ano, também retorne para Porto Alegre. Mas, para isso, é preciso ainda ser feita uma avaliação.
Uma das certezas foi o tempo bom, com sol abrindo justamente para receber o festival, depois de vários dias de chuva. Foi um bom sinal, comemorado pelos organizadores.
— Foi muita sorte. Isso aí não teve nada a ver com planejamento. Foi pura bênção divina, mesmo. Como nós temos uma parceria com a Cúria Metropolitana, acho que o Cardeal nos abençoou, deu uma força (risos) — brinca Schüler.
O Festival Fronteiras tem apresentação do governo do Estado do RS; patrocínio master de Icatu Seguros, Banrisul e Corsan; patrocínio de Unisinos, Unimed, Banco Topázio, Sicredi, Sulgás, CMPC, Grupo Zaffari, Caixa Econômica Federal e Governo Federal. Apoio institucional do Tribunal de Justiça do Estado. Parceria com Associação do Ministério Público, Assembleia Legislativa do RS e prefeitura de Porto Alegre. A realização é da Delos Bureau, uma empresa do Grupo DC Set, e a promoção é do Grupo RBS.




