
— Poucos anos atrás, era um escândalo ter um personagem gay em uma novela. O país parava, era uma polêmica. Hoje, estamos em uma crescente, em uma evolução. E a grande incentivadora disso tudo foi a televisão. Espero que, em breve, todo mundo seja visto como igual — diz o ator João Carlos Castanha, 64 anos, que também é um lendário performer de casas noturnas voltadas ao público LGBT+ de Porto Alegre, criando, por exemplo, a aclamada Maria Helena Castanha.
Essa reflexão do artista é de quem luta por espaço há décadas – desde os anos 1970. Na época, ele explica, não havia um palco garantido. Era preciso batalhar arduamente por cada centímetro, batendo em portas fechadas que, aos poucos, foram se abrindo. A missão era convencer as empresas de mídia e o público de que seu lugar era nos holofotes, derrubando preconceitos.
Castanha conseguiu e, inclusive, ganhou um filme que leva seu nome, lançado em 2014, com direção de Davi Pretto. A produção mistura documentário e ficção, mergulhando nos fascinantes personagens criados pelo ator e também no ser humano. O longa-metragem foi um marco para o cinema gaúcho, como apontou a crítica de Zero Hora na época: “Arrastando (tardiamente) a cinematografia local para o século 21”.
Evoluções. Essa é a palavra-chave citada por Castanha no começo do texto e foi o que o crítico Daniel Feix observou ao ver o filme sobre o artista. É o que busca, de maneira incansável, a comunidade LGBT+, inserindo-se, cada vez mais, em papéis que quebram os estereótipos construídos ao longo de muitos anos na mídia. Mas ainda é preciso muito mais – o Brasil, por exemplo, segue sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo.

Quem assina o contrato
Ainda que existam esses pontos gravíssimos que necessitam de atenção e transformação, os espaços conquistados são celebrados. E, a partir deles, as mudanças ganham força. A atriz, cantora e escritora Valéria Barcellos, de 45 anos, percebe as evoluções — inclusive, esteve no elenco da novela Terra e Paixão (2023-2024), da TV Globo, utilizando um grande alcance de audiência para apresentar seu talento:
— É bem verdade que a mídia tem nos mostrado cada vez mais, e isso é muito bom, porque normaliza a nossa presença para, depois, naturalizar. Normalizar, ou seja, colocar em uma norma, em uma regra, que estamos ali. Já o naturalizar é colocar a nossa presença como algo natural. Quando somos colocados em exposição, colocamos as pessoas em contato. E esse é o ponto principal: a convivência.
A artista detalha que essas mudanças precisam ocorrer de forma mais rápida. Segundo Valéria, há muita teoria no campo progressista, mas, na prática, o processo é excessivamente lento. Na visão dela, é necessário, inclusive, que os contratantes também sejam pessoas da comunidade LGBT+, transformando representação em representatividade. Assim, o diálogo avança para outros campos e as histórias contadas se aproximam, cada vez mais, da vida real.
— A representatividade é muito maior que a representação. A representação é simplesmente colocar uma pessoa ali, no meio artístico, transformando-a em teu mártir. Tu podes dizer: "Eu tenho uma pessoa trans aqui na minha equipe, no meu trabalho". Mas esse trabalho também tem que ser por trás das câmeras. As pessoas LGBT+ têm que ocupar os espaços, sendo desde quem abre a porta até quem assina o contrato. Esse letramento precisa acontecer, aí as coisas mudam de figura — explica a cantora e atriz.
Ela complementa:
— Mas é claro que as coisas estão mudando. Estou muito feliz, mas ainda quero mais.
Perante o público
Os artistas percebem mais espaço e segurança nos espaços midiáticos, com o desenvolvimento de personagens menos estereotipados. Antigamente, os homossexuais que se destacavam nas telas muitas vezes serviam como alvo de riso, como a Vera Verão. Foi nesta toada que Castanha criou alguns de seus personagens. Era outra época, mas essa foi a forma que o artista encontrou para se destacar.
— Os personagens, hoje, fazem parte de um contexto social, natural, sem necessariamente reforçar estereótipos. Além de ter a visibilidade, que já é algo importante por si só para a comunidade, temos esse fator de quebrar estereótipos, preconceitos, generalizações, de acordo com os perfis que a gente tinha de representação nos anos 1990, 2000 — conta o psicólogo Hamilton Kida, 37, fundador da Rainbow Psicologia, consultório especializado no público LBGT+.
O especialista, que atende na clínica há sete anos, enxerga que esses personagens colaboram, inclusive, para que a comunidade consiga se identificar e enxergar elementos de suas vidas nas obras de ficção. Continua existindo espaço para comédia, mas também para dramas, aventuras, romances e suspense. São personas complexas, envolvidas em tramas elaboradas.
Castanha exemplifica que, durante uma sessão da peça Terapia Colorida, no ano passado, na qual foi homenageado durante a montagem de Juliana Barros, houve um momento muito especial, que demonstra como a arte consegue impactar o público:
— No meio do espetáculo, uma guria se levantou chorando e se assumiu na frente dos pais. Foi uma coisa muito bonita, que realmente emocionou. Este tipo de trabalho ajuda até o jeito de as famílias olharem para os filhos. E tu, sendo LGBT+, tens vontade de se abrir para a família.

Além do mês
Guilherme Gomes Ferreira, 35 anos, assistente social, professor do curso de Serviço Social da UFRGS e ativista da ONG Somos – Comunicação, Saúde e Sexualidade, enxerga que, para a naturalização da comunidade LGBT+ na mídia, ainda será necessário percorrer um longo caminho – houve avanço, mas não completo:
— No processo histórico, essas coisas vão para a frente e para trás. Lembro do casal de Torre de Babel (1998-1999), vivido pela Silvia Pfeifer e pela Christiane Torloni, que morreu em uma explosão. A sociedade não aceitou e o diretor matou as duas. Hoje, temos uma aceitação maior, mas não tão natural. Quando vemos um beijo homossexual na novela, é muito mais comum ser um selinho, mais tímido. Não vemos uma cena de sexo entre um casal LGBT+. Já de casais héteros, é normal.
É por isso que os entrevistados pela reportagem de Zero Hora concordam que é preciso haver uma conversa permanente sobre a ocupação dos espaços de direito da comunidade LGBT+. Se junho é o Mês do Orgulho, com os holofotes direcionados para as pautas da pluralidade, a batalha é para que o ano inteiro seja de respeito e igualdade. Isso inclui vigilância constante para que os direitos conquistados não sejam perdidos com uma alternância de poder, por exemplo.
— A gente vive mais 11 meses. Precisamos ser lembradas, celebradas, empregadas, acarinhadas, respeitadas, abraçadas, amadas durante todos os outros dias do ano. Não antes de qualquer pessoa, mas como qualquer outra pessoa. As pessoas acham, às vezes, que queremos destaque, mas é muito pelo contrário. Queremos o lugar comum. A gente quer parar que seja nós e eles, ou nós e vocês. A gente quer ser o nós, uma coisa só — enfatiza Valéria Barcellos.


