Todo dia de manhã, o paulistano Filipe Grimaldi, de 40 anos, publica três vídeos em sua conta no Instagram. Em cada um deles, comenta – o famoso react – sobre o trabalho realizado por algum artista popular, com preferência para os brasileiros. Esse ritual já faz parte da rotina de seus seguidores, que atualmente ultrapassam um milhão, número que cresce a cada novo conteúdo deste tipo.
Por ali, é possível ver grafiteiros, letristas, xilogravadores, cartazistas de supermercado, entre outros profissionais que se utilizam do "esmero e manualidade" – um dos bordões criados por Grimaldi. Ao final do vídeo, o influenciador ainda manda o já famoso "chora, Photoshop", para enaltecer o trabalho feito à mão. Para Grimaldi, a arte da vida real é muito mais impactante e emocionante.
Além de influenciador, Grimaldi é professor e formou-se em Design Gráfico em 2005. Após uma década trabalhando em agências de publicidade e uma experiência ruim, decidiu estudar caligrafia. Mais tarde, inspirado pelo Alfabeto Porteño do fileteador Gustavo Ferrari, aprofundou-se na pintura de letras dos latino-americanos e, pronto, cravou o seu destino: ser letrista. Com o passar dos anos, foi ganhando cada vez mais espaço e, hoje, virou referência.
— O letrista era como um alfaiate, que fazia tudo na mão, sob medida, mas ele começou a sofrer, tendo o seu emprego trocado pelas máquinas. As manualidades do Brasil foram se perdendo. Quando você vai para outros países, como Argentina, Peru, Chile, ainda vê muito a manualidade cultural, por serem países menores. E o Brasil tem essa coisa da extensão territorial. Você vem para o Rio Grande do Sul, é uma cultura. No Norte, é completamente diferente — explica Grimaldi.
Com o seu trabalho nas redes sociais, consegue levar para todo o país a cultura que antes ficava restrita a regiões específicas. Mas isso vai além: há mais de 10 anos, passou a promover o estudo da estética popular nacional e latino-americana.
A estética popular é o cartaz de mercado, é aquela barraquinha do chaveiro, é o filete de caminhão, as placas manuais. E foram os letristas e os pintores de rua que geraram essa estética
FILIPE GRIMALDI
Junto a um grupo de artistas, eles convocaram mestres da área para compartilharem seu conhecimento a toda uma nova geração, resgatando um ofício que estava sendo esquecido. E, principalmente, catalogar o que já havia sido feito no país no último século.
— Era um trabalho de formiguinha resgatar um pouco dessa brasilidade. E, nos últimos anos, percebo que o próprio Brasil começou a enxergar a cultura nacional como uma coisa mais legal — detalha Grimaldi. — A estética popular é o cartaz de mercado, é aquela barraquinha do chaveiro pintada torta, é o filete de caminhão, as placas manuais aqui em Porto Alegre. A nossa cultura popular é baseada nessa coisa da pintura. E foram os letristas e os pintores de rua que geraram essa estética.
Mudar a vida
O paulistano esteve na Capital em abril para realizar um workshop sobre estética popular e, também, para fazer um trabalho especial em uma parrilla – que pertence ao empresário do ramo da animação Fernando Stefano Kozenieski, 44 anos. Para o trabalho, foi solicitado que Grimaldi escrevesse, com seu estilo, os dizeres "La Monumental", mesclando as cores do Grêmio
— É ótimo poder valorizar o trabalho de um artista, de colaborar com tudo que ele faz. E não é só o trabalho. Quando a gente compra, também compra a ideia da pessoa, tudo o que ela está promovendo. E o trabalho dele é importante, não só para ele se movimentar como um ser humano, mas, ao mesmo tempo, também para tirar as pessoas da invisibilidade — salienta Kozenieski.
E este movimento é concreto. Grimaldi explica que, quando começou a produzir seus reacts, inspirado pelo streamer Casimiro Miguel, 31 anos, precisava pesquisar conteúdos na internet para isso. Hoje em dia, os artistas populares já produzem vídeos pensando em aparecer no perfil do paulistano. Agora, seu trabalho é mais de curadoria, selecionando três conteúdos diários no meio de centenas que recebe.
— Os artistas que têm os vídeos reagidos ganham em torno de 500 a mil seguidores por vídeo. Então, um cara que tem 500 amanhece com 1,5 mil. E muda a vida do cara, porque ele já recebeu 10 encomendas. É, realmente, um trabalho social, além de ser uma democratização da arte — conta Grimaldi, que esbanja carisma e naturalidade em seus reacts, algo essencial para que, por exemplo, os seus bordões peguem.
Em tempos de inteligência artificial replicando os traços de artistas que demoraram décadas para os desenvolver, como no caso do Studio Ghibli, Grimaldi pede por regulamentação. O engajamento e a educação sobre a valorização da mão humana são emergenciais para a proteção daqueles que criam aquilo que a máquina, sem autorização, usa como matéria-prima.
Os artistas invisíveis
Nos fundos do supermercado Gecepel, na Avenida Protásio Alves, em Porto Alegre, existe um espaço com churrasqueiras – hoje desativadas – onde, antigamente, eram assadas carnes para venda. Com o fim desse tipo de comércio, a sala se transformou no bem organizado ateliê de José Eduardo Festa, 61 anos, cartazista do estabelecimento há 11 anos, mas atuante na profissão há mais de três décadas.
Cabe a Festa a responsabilidade de abastecer as quatro lojas da rede na Capital com cartazes de promoções, além de avisos e, até mesmo, piadinhas espalhadas pelos estabelecimentos. Todos com um estilo próprio, adaptado do curso que fez em sua antiga empresa, mas que remete ao que se vê nos supermercados nacionais.
— Esse é o meu estilo, mesmo. Se tu vais a outro mercado, percebes que é diferente — orgulha-se.
O cartazista, porém, não sabia que o seu trabalho estava sendo valorizado na internet – Festa não tem redes sociais. E, ao se deparar com um react de Grimaldi, esboçou um sorriso sincero, admirado com o seu ofício sendo reconhecido pelo país:
— É tipo o pessoal que gosta de coisas antigas, né? Os colecionadores de discos de vinil. Virou vintage (risos).
Hoje em dia, Festa não se imagina fazendo outra coisa. Ser cartazista é a profissão de sua vida. Tanto é que viaja de Guaíba a Porto Alegre todos os dias para trabalhar, sem nenhum problema, afirmando gostar da jornada. Ele também percebe que o ofício foi ganhando ferramentas que facilitaram seu trabalho – como o kit de escrita, que substituiu os pincéis. Por isso, mesmo produzindo mais de 600 cartazes por mês, dos mais variados tamanhos, não sente dor na mão. Para ele, é um prazer.
— Hoje em dia, é tudo prático. Com os computadores, imprime, cola. Esse aqui (aponta para o seu cartaz) já fica diferente. Tem características, tu enxergas que tem uma pessoa com um estilo por trás. O impresso fica muito padrãozinho — detalha Festa.
E, como trabalha sozinho, fechadinho em sua sala, recebendo os pedidos por computador e executando-os manualmente, não tem do que reclamar. Ao observar os seus trabalhos, o sossegado cartazista reflete sobre se colocar como artista:
— Acho que me vejo um pouquinho, sim. Faço uns desenhos, uns negócios. Quando era pequeno, meu sonho era trabalhar na Disney. Naquela época, só tinha história em quadrinhos. Eu gostava de desenhar. Acabei virando letrista.
Festa é um artista de mão cheia, daqueles que conversam diretamente com a linguagem popular do Brasil: acessível, presente no cotidiano e, quando menos se espera, desperta uma emoção sincera em quem está no piloto automático, fazendo as compras do dia a dia.
Afinal, como não dar um sorriso ao ler, na gôndola das frutas, a seguinte frase, escrita à mão: "Se a vida te der limões, faça uma caipirinha. Só não esqueça a cachaça". E ainda com um desenho de uma caipirinha ao lado, para complementar a obra de arte. É muito esmero e manualidade.
"Chora, Photoshop!"



