
Foi dada a largada, nesta quarta-feira (28), no Festival Fronteiras, em Porto Alegre. Em novo formato, a abertura do evento contou com um encontro entre Gilberto Gil e Mia Couto, mediado pela comunicadora Mariana Ferrão.
A abertura seria realizada no Palco Arena – estrutura montada entre o Theatro São Pedro e o Palácio da Justiça –, mas foi transferida para o Teatro Simões Lopes Neto, no Multipalco, devido à chuva.
Durante uma hora, Gilberto Gil e Mia Couto debateram sobre a potência do diálogo. O compositor baiano destacou a falta de tempo das pessoas para refletir: todos saem para trabalhar, passam pouco tempo em casa e têm poucas oportunidades de pensar em si mesmos e, consequentemente, nos outros.
Essa pressa acaba se refletindo em dificuldades para o diálogo.
— Temos mais gente no mundo e mais ferramentas de comunicação. Crescemos em tamanho da população e em tamanho dos ruídos. É uma consequência natural dessa velocidade toda — resumiu Gil.
Mia Couto, que além de escritor é biólogo, acredita que a capacidade de dialogar é "profundamente arraigada" na espécie humana. O moçambicano lembrou a guerra civil que durou 15 anos em seu país e destacou que, após tantas mortes, foi preciso que todos sentassem para conversar.
— Temos que desumanizar o outro para sermos violentos. A fabricação do medo obriga a olhar o desconhecido como um tumor, uma ameaça — analisou o pensador.
"Pense na morte todo dia"
A dupla refletiu ainda sobre o potencial das artes na atenuação das tensões humanas provocadas pela luta diária por necessidades básicas — em especial a música, que é naturalmente etérea, já que se propaga pelo espaço.
— Nós começamos a escutar ainda dentro do ventre. Aliás, são dois corações que escutamos. O coração nos dá uma ideia de compasso que nos reconforta. Estamos naquele universo de água que está contínua, e isso nos acompanha o resto da vida. É o último sentido a desaparecer quando as pessoas estão acabando. Há aqui uma coisa muito forte que nos prende à música — pontuou Mia Couto.
Gil revelou refletir sobre a morte diariamente:
— Uma das pessoas que considerei uma espécie de mestre na minha vida, Walter Smetak, um dia me disse: “Pense na morte todo dia.” Desde então, penso e ela se tornou uma bela conselheira. Ajuda nessa observação dos interstícios entre o sim e o não, entre a fala e o silêncio, entre você e essa crença no eterno: no eterno durar das coisas e na finitude, no tudo acabar de repente, em tudo se acabar numa quarta-feira.
Questionado por Gil sobre como está o povo de Moçambique desde o fim da guerra civil, o escritor relatou que o cenário é de altos e baixos.
Em determinado momento, havia uma ideia ingênua de que a independência havia sido conquistada plenamente e de que a política seria capaz de mudar tudo. No entanto, Mia Couto reconhece que transformar o mundo é algo complexo – e que hoje existe uma elite dominante no país que olha com indiferença para os que não têm dinheiro.
Na visão do escritor moçambicano, essa realidade é fruto de uma ruptura com o passado colonial marcada por violência social e política – algo que, segundo Gilberto Gil, também se reflete no Brasil.
Dois dias de reflexões
O Festival Fronteiras será realizado nesta sexta-feira (30) e no sábado (31) na Praça da Matriz e no seu entorno, com oito palcos simultâneos, entre eles o Multipalco Eva Sopher e a Catedral Metropolitana. Os diálogos e entrevistas envolverão 40 pensadores de língua portuguesa.
Haverá diálogos, por exemplo, entre Christian Dunker e Ana Suy; Malu Gaspar e Pedro Bial; Leandro Karnal e Maria Homem; Mia Couto e Itamar Vieira Jr.; Sidarta Ribeiro e Fernando Gabeira; Eduardo Bueno e Marcelo Rubens Paiva; Lázaro Ramos e Marcelo Tas; Drauzio Varella e Mariana Ferrão; e Diana Corso e Claudia Tajes.
O evento também irá oferecer atrações gratuitas, que inclui atrações musicais, saraus, exposições, gastronomia, lançamento de livros e sessões de autógrafos.
Grandes nomes da cultura e do pensamento como Itamar Vieira Junior, Martha Gabriel, Jeferson Tenório, Fabrício Carpinejar, Lira Neto, Maria Homem, Eduardo Giannetti, Natalia Timerman, Marcelo Rubens Paiva e Lázaro Ramos estarão no estande da Livraria da Travessa instalado em frente à Catedral.
Como adquirir ingressos
Os ingressos para o Festival Fronteiras podem ser adquiridos online no site do evento ou presencialmente no campus Porto Alegre da Unisinos, na recepção da Torre Educacional (Av. Dr. Nilo Peçanha, 1.600 — Boa Vista). O horário de venda é das 9h às 18h. A programação completa também pode ser conferida no site.
O Festival Fronteiras tem apresentação do governo do Estado do RS; patrocínio master de Icatu Seguros, Banrisul e Corsan; patrocínio de Unisinos, Unimed, Banco Topázio, Sicredi, Sulgás, CMPC, Grupo Zaffari, Caixa Econômica Federal e Governo Federal. Apoio institucional do Tribunal de Justiça do Estado. Parceria com Associação do Ministério Público, Assembleia Legislativa do RS e prefeitura de Porto Alegre. A realização é da Delos Bureau, uma empresa do Grupo DC Set, e a promoção é do Grupo RBS.



