
A edição de janeiro de 1999 da "The Face", revista britânica de estilo, trazia uma carta anônima de um adolescente de 17 anos que mantinha sua homossexualidade em segredo. Ele escreveu dizendo que um artigo da revista sobre clubes de hip-hop gays lhe dava "uma ponta de esperança". Na assinatura da carta se lia: "não-posso-dizer-meu-nome-para-não-ser-descoberto".
O autor era Stuart Brumfitt. Hoje, vinte anos depois, Brumfitt é editor de uma nova versão da "The Face", 15 anos após o fim da publicação, em 2004. "Isso é o que a 'The Face' representou para mim enquanto crescia", declarou Brumfitt.
Por muito tempo, a revista serviu como um despertar cultural para muitas gerações da juventude britânica. A nova "The Face" volta com o mesmo logo que exibia quando foi encerrada, mas, primeiro, será uma conta no Instagram, já disponível, e depois um website, com lançamento previsto para a metade de abril.
O público só terá acesso à primeira nova edição entre agosto e setembro. Antes mensal, a revista passará a ser trimestral. O mercado editorial passou por mudanças profundas desde a era pré-internet em que "The Face" foi fundada, em 1980. Com tantas discussões acerca de marcas e conteúdo criativo, continua sendo jornalismo?
No começo, era. Fundada pelo editor Nick Logan como uma revista de música com uma pegada de estilo, estampou David Bowie, John Lydon e Siouxsie Sioux na capa das primeiras edições. Entre os primeiros colaboradores estão Julie Burchill, Jon Savage e James Truman, que se tornaria o diretor editorial da Condé Nast.
A cada número, a revista rapidamente foi aumentando seu alcance para tratar de vida noturna, cultura jovem, política e moda. "Havia essa percepção de que era uma revista de moda, mas não, era uma publicação de interesse geral", disse Paul Gorman, autor de "The Story of The Face: The Magazine That Changed Culture" (A História da The Face: A Revista que Mudou a Cultura).
"The Face" oferecia algo de novo. "Todas essas coisas que agora valorizamos não existiam de verdade. Quero dizer, quem, em 1981, já tinha ouvido falar de um estilista?", argumentou Princess Julia, DJ e artista, figura fundamental da contracultura londrina desde a década de 70. Na época, Julia vivia em um imóvel ocupado com amigos como Stephen Jones, hoje designer de chapéus para marcas como Dior e Marc Jacobs.
Os leitores da "The Face" eram obsessivos. Eu era um deles. Morando em um pequeno vilarejo 160 quilômetros ao norte de Londres, comprei minha primeira edição, de abril de 1986, aos 12 anos. A revista me ensinou a ler com discernimento. Era uma coisa minha: nenhum dos meus amigos ligava. Tudo que importava para mim era, todo mês, devorar todo o conteúdo que ela trazia para então desenvolver minhas próprias ideias dentro do possível.
Os fãs não se restringiam à Grã-Bretanha. "Estava indo ao shopping center para comprar um disco. Tinha umas revistas no balcão da JR's Music. Eu pirei, porque até então nunca tinha visto um homem de saia em uma revista", lembrou Honey Dijon, DJ e produtora que cresceu em Chicago; na década de 80, era adolescente.
A edição a que se refere é a de novembro de 1984, cuja capa retratava um modelo musculoso, sem camiseta, vestindo um blazer e uma saia escocesa com a bandeira do Reino Unido sobre o ombro esquerdo. Imediatamente, Honey Dijon se tornou uma leitora assídua. "Comecei a ler e mexeu comigo, me abriu as portas para um novo mundo", contou.
A capa em questão foi fotografada por Jamie Morgan, que pertencia a um coletivo chamado Buffalo, com o estilista Ray Petri. O visual deles nasceu nas páginas da "The Face", misturando roupas esportivas com moda e inovando em relação às noções preestabelecidas de gênero, atitude amplamente ressonante no universo da moda atual.
"A 'The Face' era contra revistas de moda. Criou um novo padrão. Era um tempo em que os heróis não eram ainda os designers e as roupas, mas sim as fotografias e as referências culturais", ponderou Morgan.
Para Alessandro Michele, diretor de criação da Gucci, o legal era a mistura. Ele escreveu em um e-mail: "A 'The Face' não era apenas uma bíblia, a 'The Face' era a 'The Face'. Era o que eu costumava comprar nos anos 90. Adorava, porque era mais do que uma revista de moda. Era um ensaio visual e escrito daquele momento na história, a união perfeita de tudo."
Michele conseguiu autorização para usar a logomarca da "The Face" em camisetas e casacos com capuz da Gucci para a pré-temporada de 2019. "Espero que a nova equipe tenha a mesma visão contemporânea e afiada que a original", revelou.
Tal visão resultou em muitas fotos de moda celebradas, como a capa da edição de julho de 1990 estrelada por Kate Moss, então com 16 anos, vestindo um enfeite de cabeça típico de índios norte-americanos, que hoje em dia poderia ser vista como apropriação cultural.
"Quando a capa concebida por Corrine Day e Melanie Ward para Kate Moss foi publicada, parecia que o mundo da moda tinha literalmente mudado. Era tão diferente de tudo que já tinha sido publicado sob a alcunha de alta moda", opinou Katie Grand, editora e estilista que se tornou diretora de moda da "The Face" em 1999; depois ela ajudou a fundar a revista "Pop", fundou a "Love" e virou consultora da Miu Miu, da Marc Jacobs e de outras marcas.
A nova "The Face", até agora, está um pouco crua. A equipe acabou de se mudar para o escritório na Brick Lane, no leste de Londres. Algumas pessoas usam caixas da Nike para erguer o laptop. Há uma sala de conferência com cadeiras, mas sem mesa.
"Estou tentando comprar a 'The Face' há 15 anos", apontou Jerry Perkins, presidente da Wasted Talent, que, em 2017, comprou a publicação da Bauer Media, empresa que herdou o título inativo.
A primeira "The Face" comprada por Perkins foi a de novembro de 1980, a sétima edição, no meio da adolescência. "Sinceramente, acredito que comprar aquele exemplar foi o que me levou ao mercado editorial", falou.
Aquilo que é novo e interessante sempre vai se desenvolver entre lacunas que ninguém espera. Com a mídia digital, agora, não há nada capaz de identificar algo novo e dizer: 'Sim, isso é interessante e importante', e falar sobre o motivo de ser importante.
JERRY PERKINS
presidente da Wasted Talent
Perkins julga este o momento certo para um recomeço. "Aquilo que é novo e interessante sempre vai se desenvolver entre lacunas que ninguém espera. Com a mídia digital, agora, não há nada capaz de identificar algo novo e dizer: 'Sim, isso é interessante e importante', e falar sobre o motivo de ser importante", esclareceu.
Além do pessoal do escritório, o título vai empregar um grupo de colaboradores globais que formam uma equipe criativa, incluindo a designer Grace Wales Bonner e a dupla Acyde e Tremaine Emory, responsáveis pelo selo No Vacancy Inn. Eles são o tipo de pessoas cujas contas no Instagram fazem com que você tenha vontade de explorar mais para tentar entender sobre o que estão postando.
"Esse é um novo tipo de pessoas, figuras fascinantes com personalidades multiculturais que estão viajando o mundo todo. Elas normalmente estão fazendo coisas muito mais interessantes do que os jornalistas", disse Brumfitt.
Muitos nessa equipe criativa misturam criatividade e comércio, curadoria e marketing. "São pessoas de conhecimentos vastos", elogiou Jason Gonsalves, diretor de marca da "The Face". É um amontoado de frases que parece essencial para a nova "The Face", a revista que vai refletir uma mudança na classe criativa.
Gonsalves é claro em relação à abrangência que ele gostaria de ver. "Uma história que acho fascinante é a do Cambridge Analytica. Apenas uma pequena parte do nosso público sabe algo a respeito dela, e mesmo assim é tão relevante para ele. Ao mesmo tempo, não vejo contradição em fazer aquilo, por um lado e, ao mesmo tempo, em uma de nossas matérias sobre moda, dar a referência direta da loja onde é possível comprar tais produtos. É o encadeamento perfeito. Você precisa pensar dessa maneira", ensinou.
Parece a "Vice", mas sem o carma ruim da origem da marca. Talvez seja esse o novo normal para as publicações.
Ou, às vezes, é só uma questão de promoção de marca.
Por Charlie Porter





