
Se você nunca ouviu falar do dramaturgo grego contemporâneo Dimítris Dimitriádis, não deve se sentir culpado. Ele é relativamente pouco conhecido fora do país natal e da França, onde teve sua primeira peça, O Preço da Revolta no Mercado Negro, encenada pelo então jovem Patrice Chéreau (1944 - 2013) em 1968. Em 1971, a obra foi montada em São Paulo pelo diretor Celso Nunes. Mais recentemente, em 2013, a Cia. Kiwi (SP) levou à cena seu texto Morro Como um País, que valeu à atriz Fernanda Azevedo um Prêmio Shell.
Pois na primeira semana deste mês os diretores Luciano Alabarse e Margarida Peixoto contribuíram com a recepção da obra de Dimitriádis no país, estreando A Vertigem dos Animais Antes do Abate no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. O trabalho terá segunda temporada no Teatro Renascença a partir desta quinta-feira (17/7).
Trata-se de uma tragédia atual, escrita em 1997, sobre a família Lákmos, que tem seu destino antevisto por Fílon (Elison Couto), amigo do patriarca Nilos (Marcelo Ádams): segundo o oráculo, Nilos e a mulher, Militsa (Ida Celina), viverão felizes por muito tempo, mas depois a desgraça cairá sobre a família, levando a relações incestuosas com (e entre) os filhos - Emilius (Pingo Alabarce), Evguenius (Gustavo Susin) e Starlet (Áurea Baptista) - e a mortes.
O segredo de uma tragédia é que, embora o público conheça o desfecho de antemão, surpreende-se com a forma como tudo acontece. Pense no uso da metáfora em Macbeth, de Shakespeare. Em A Vertigem dos Animais..., o destino se cumpre de maneira previsível - depois de assistir ao espetáculo, tive acesso à versão do texto utilizada na montagem, que os diretores informam ser integral. O comportamento ambivalente dos personagens, perdidos entre o poder e o dever, não se pauta pelo princípio da verossimilhança que recomendaria Aristóteles (Fílon é afeiçoado a Nilos, mas subitamente inicia uma relação com o filho dele, Emilius), e a dramaturgia dispensa o contexto (a família enriquece e perde a fortuna sem que o público entenda o motivo). Assim, a história avança aos solavancos. A certa altura, Nilos e Fílon repetem, desnecessariamente, a cena inicial do oráculo.
Com imagens fortes, incluindo sugestões de automutilação, sobra material para os diretores assumirem riscos, mas os diálogos evidenciam ausência de boas ideias no texto, elemento abundante no trabalho anterior de Alabarse e Margarida, o interessante Marxismo, Ideologia e Rock'n'Roll (2013), de Tom Stoppard. Cabe ao trio que evoca o coro grego, formado por Alexandre Magalhães e Silva, Mauro Soares e Plínio Marcos Rodrigues, as melhores reflexões sobre a ação ("Não há prazer maior do que a interminável espera da resposta que nunca nos é dada", diz um deles).
É visível a entrega dos atores a seus papéis, operando em um registro vocal sempre intenso, ao qual falta a nuança que valorizaria os momentos realmente trágicos. Mesmo diálogos corriqueiros entre os personagens são gritados. Na trilha sonora ao vivo (o que é sempre uma boa ideia), a cantora Muni e o pianista Everton Rodrigues interpretam, com suavidade e pungência, canções de amor do paulista Pélico que parecem ter sido escolhidas como um contraponto à violência da cena, mas criam uma dissonância temática: esta definitivamente não é uma peça sobre amor.
Os figurinos (criados pelo elenco, com coordenação de Alexandre Magalhães e Silva) sublinham aspectos da personalidade dos personagens. O cenário de Yara Balboni e Alabarse oferece os elementos mais necessários à ação, sendo bem aproveitados pelos atores. E a iluminação de João Fraga e Maurício Moura complementa o aspecto sinistro que se espera da ambientação.