
Entre o final dos anos 1980 e começo dos 1990, a indústria musical brasileira se concentrava em enlatar e vender os dramas pequeno-burgueses do rock nacional, a obscenidade disfarçada de esperteza da axé music e o chororô do sertanejo romântico. Alheios a essa linha de produção, quatro garotos negros da periferia de São Paulo começaram a rimar sobre uma realidade de pura desesperança, cercada de violência, drogas, miséria e racismo. Vinte e seis anos depois, os Racionais MC's continuam na mesma pegada - e seguem relevantes.
Em turnê comemorativa aos 25 anos de carreira completados no ano passado, a banda que sobe ao palco do Araújo Vianna na noite de sexta ainda é a mesma que, em 1988, lançou a emblemática Pânico na Zona Sul: Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock na linha de frente e KL Jay ao fundo, no comando da picapes. O teor político e social das composições também se manteve nos cinco discos oficiais lançados desde então, influenciando gerações de novos artistas do rap.
- A importância dos Racionais transcende a música - explica Emicida, um dos maiores nomes do rap no Brasil hoje. - Eu costumo dizer que nossos livros de história foram discos, e os Racionais representam a história do Brasil. As obras do grupo fazem isso de forma única e genial, contando as histórias dos pretos pobres das periferias.
Essa preocupação em retratar sem firulas uma realidade até então ignorada pelo mainstream conferiu ao grupo o status de representante de um estrato social. Para o sociólogo Tiarajú D'Andrea, que estuda as relações de cultura e política na periferia de São Paulo, uma das contribuições dos Racionais foi colocar na pauta questões como a violência policial, o racismo e a desigualdade:
- Ao descrever a pobreza e a violência na periferia, o grupo criticava a sociedade como um todo, afirmando que era ali que se expressava a contradição social.
Talvez a única mudança fundamental nestes 26 anos tenha sido a relação que a banda estabeleceu com o mundo para além da quebrada. Antes completamente avessos à exposição, os Racionais hoje estão presentes em todas as redes sociais, foram duas vezes capa da revista Rolling Stone, disponibilizaram suas músicas em formato digital e têm agendada para setembro uma apresentação no suntuoso Citibank Hall, espaço em São Paulo bem diferente daqueles onde costumam tocar pelos recônditos do Brasil.
Para o produtor musical Daniel Ganjaman, os Racionais terem demorado tanto para, mesmo com reservas, abraçar o mainstream, foi fundamental para manter o trabalho da banda vivo:
- A forma com que o grupo se posicionou frente a todo o assédio da mídia e de grandes corporações foi uma afirmação para muitos artistas engajados e um enorme propulsor da cena musical independente brasileira - afirma Ganjman. - Por isso, é um caso único no cenário musical brasileiro no que diz respeito à postura, política e socialmente falando.
RACIONAIS MC's
Sexta-feira, 20 de junho, às 21h30min. Classificação: livre.
Auditório Araújo Vianna (Osvaldo Aranha, 685), em Porto Alegre.
O show: os Racionais apresentarão canções representativas de seus 25 anos de carreira, como Mano na Porta do Bar, Vida Loka e Diário de um Detento.
Ingressos
R$ 80 (plateia alta central), R$ 110 (plateia baixa lateral) e R$ 130 (plateia baixa central).
Descontos: 25% para titulares e acompanhantes do Clube do Assinante nos cem primeiros ingressos e 10% nos demais (exceto plateia baixa central); 50% para idosos, 35% para clientes Oi e 20% para estudantes.
Pontos de venda: bilheteria do Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 80); bilheteria do Araújo Vianna (a partir das 14h até o início da apresentação); pelo site www.ingressorapido.com.br; call center pelo 4003-1212; telentrega Ingresso Show pelo (51) 8401-0555.




