
Bem-humorado, Ivan Lins atende a reportagem brincando sobre a turnê em que celebra seus 80 anos de vida e 55 anos de carreira, com a qual se apresenta desde 2025:
— Agora, há a vantagem de eu já estar com 81 e ainda estar comemorando 80. Estou me sentindo um ano mais novo ainda (risos).
O músico desembarca em Porto Alegre com o espetáculo Ivan Lins — 80 Anos nesta quinta-feira (13). A apresentação será realizada no Auditório Araújo Vianna, a partir das 21h. Ainda segue em vigor a promoção de Dia dos Pais: a compra de um ingresso dá direito a outro (veja detalhes ao final).
No repertório da turnê, Ivan relembra sucessos que marcaram sua trajetória (Madalena, Novo Tempo, Lembra de Mim, entre outros), mas também interpreta canções menos conhecidas. Um trecho do show é dedicado à influência regional, com Guarde nos Olhos e Bandeira do Divino.
Em conversa com Zero Hora, o artista falou sobre o show, a chegada aos 80 anos, os projetos que ainda pretende fazer e a negociação frustrada de sua participação no disco Thriller (1982), de Michael Jackson.
Confira a entrevista com Ivan Lins
O que torna a turnê "Ivan Lins 80" diferente de outras que você já fez?
O show é muito bonito e emotivo. É dividido por temáticas que povoaram o meu mundo criativo: falamos de amor, de política, dos gêneros que eu faço, como samba, jazz e música rural.
Há uma ligação muito forte com a literatura, com os letristas que trabalharam comigo, como o Vitor Martins.
É um show mais pautado exatamente nas mensagens que povoaram a minha personalidade, pois a música que toco sempre foi um retrato fiel da pessoa que eu sou.
IVAN LINS
Músico

Você chegou à casa dos 80 bastante ativo, com turnê e novos lançamentos. A música te mantém vigoroso?
Com certeza a música é um fator preponderante. Outro fator importante é a minha família, que é muito amorosa, e há uma cumplicidade bastante poderosa com a minha carreira e com a minha vida. Nós somos cúmplices nessa trajetória.
Também há a questão do direito autoral, que praticamente desapareceu por conta da internet. Ficou muito pequeno, não dá para me sustentar só com isso. Então, sou obrigado a fazer show.
Aliás, não sou só eu, não: tem gente aí que tentou encerrar a carreira e voltou correndo para o palco porque não teria como pagar as contas. Está cheio de velhinho trabalhando.
Mas você ainda segue com aquela curiosidade artística?
Um pouco menos, porque o gás vai acabando. A gente se concentra mais em outras coisas. Estou querendo viver mais a vida também, aproveitar os momentos que eu tenho de folga para relaxar.
Faço a minha ginástica, faço exercícios de voz e tudo. Me preparo bem para poder dar ao público um espetáculo digno e com muita energia.
IVAN LINS
Músico
Creio que seja uma característica muito forte do meu trabalho. Portanto, não posso deixar de passar isso para as pessoas. Talvez seja o segredo dessa resistência que estou tendo para poder continuar fazendo o que mais gosto: música.
Poucos compositores brasileiros tiveram tantas músicas gravadas por artistas estrangeiros como você (Ella Fitzgerald, Sting, Barbra Streisand, Sarah Vaughan e outros). Ao mesmo tempo, é possível ver encontros de sua obra com nomes que vão da MPB ao sertanejo. Como você explica essa conexão da sua obra com artistas e públicos tão diferentes?
É uma característica muito forte da minha geração, dos anos 1960 e 70, que nunca se apegou a um gênero musical. O Brasil é muito grande e, se você tem um conteúdo de criatividade bastante forte, fica muito difícil você só querer fazer um tipo de música.
Nossa curiosidade sempre foi buscar fontes de criação. E o Brasil talvez seja o país que mais fornece mais material para a criação do mundo.
Nossa geração foi aquela que estava se desligando da bossa nova. Quando surgiu, foi um grande estímulo para a gente, na medida em que nos forneceu material novo, deu uma sacudida na música brasileira e com repercussão internacional. A partir dela, tanto na parte melódica, harmônica e rítmica, como também na parte literária, nós partimos para levantar o Brasil inteiro.
Não havia só a bossa nova por aqui. Nós temos xaxado, toada, baião, vários tipos de samba, o que é extraordinário. Toda informação musical de qualidade que nós percebemos fomos adaptando e inserindo na nossa música, usando essas manifestações como fonte de criatividade, transformando-as em uma linguagem nova.
Há um tempo, voltou à tona a história da negociação frustrada com o produtor Quincy Jones, que queria utilizar "Novo Tempo" no álbum "Thriller" (1982), de Michael Jackson. Você comentou que o contrato era "absurdo" e "maldoso". Hoje, olhando para trás, que lição ficou desse episódio?
Foi uma postura que tinha que ser decidida entre eu e o Vitor Martins, que estava escrevendo as músicas comigo naquele momento. E nós decidimos pela honra, de não assinar qualquer coisa com os americanos.
Já sabíamos que eles tinham o hábito de lidar com a América Latina achando que aceitávamos qualquer migalha. A dignidade é uma coisa que a gente carrega e faz parte da nossa autoestima. A gente quer ser tratado como somos dentro dos parâmetros das nossas crenças.
Também não tínhamos nenhuma ideia de que o Thriller fosse vender o que vendeu (é o álbum mais bem-sucedido da história, com vendas estimadas entre 70 milhões e 100 milhões de cópias ao redor do mundo).
Posteriormente, você não sentiu que pode ter sido uma oportunidade perdida?
Olha, deu uma certa tristeza o fato de que não fomos respeitados pelos advogados do Quincy na medida correta. Evidentemente, se ele realmente quisesse que a minha música entrasse, teria forçado mais a barra para que o contrato melhorasse substancialmente. Mas não foi o caso.
Eu tive que contratar um advogado da altura do advogado do Quincy, e os dois ficaram oito meses discutindo. O que não tirou do produtor nenhuma vontade de mudar os fatos.
Se ele (Quincy Jones) deixou isso correr por tanto tempo, talvez 'Novo Tempo' não fosse tão desejada quanto esperávamos. Pelo menos essa é a conclusão a que eu e o Vitor (Martins) chegamos.
IVAN LINS
Músico
Neste ano, você lançou "Sambadouro", que marca um mergulho nas raízes do samba em sua trajetória. Por que era tão importante para você, neste momento da vida, revisitar sambas com uma roupagem diferente?
Cheguei a uma fase da minha vida em que pretendo realizar os projetos que sempre quis fazer, mas que não conseguia. Esse (Sambadouro) era um deles, que já vinha de muitos anos.
Eu sonhava em produzir meus sambas com a sonoridade do samba tradicional, afinal de contas, já estive em escolas de samba, frequentei o Salgueiro e sempre tive um contato bom com os sambistas.
Por formação musical, meus sambas sempre foram concebidos com uma sonoridade mais moderna. E eu sempre tive vontade de ouvir meus sambas com a sonoridade tradicional. E consegui, finalmente, quem financiasse esse projeto, o Sesc de São Paulo.
Não é um disco de carreira, mas sim de projetos que seguirei tentando viabilizar, como eu tenho um projeto só de música instrumental.
Que outros projetos seriam esses?
Tenho projetos de cantar músicas dos meus heróis. Um disco só com músicas de outros artistas. Tenho um projeto para fazer um disco interpretando Gonzaguinha. Tenho muitos projetos orquestrais. Tenho também um projeto de música sertaneja, que cheguei a começar, mas parou no meio.
Ainda tenho muita coisa na cabeça, apesar do pouco tempo que eu tenho. Eu não sei se eu vou conseguir fazer tudo. Mas pelo menos o Sambadouro já consegui realizar. Vamos ver qual será o próximo.
Indo para o cinema, está sendo produzido um documentário que vai contar a sua trajetória, com direção de Marco Altberg. Como está esse projeto e qual é seu envolvimento nele?
É difícil falar sobre esse filme porque eu apenas gravo as coisas que preciso gravar. E depois eles vão buscar material em outros lugares. Só sei que eles estão produzindo. Dizem que o trabalho está ficando muito bonito.
Mas eu não saberia a data de quando será lançado. Estou apenas deixando na mão deles, porque eu conheço muito bem o diretor, que é um excelente documentarista (autor de Panair do Brasil, de 2007, e Kopenawa: Sonhar a Terra-Floresta, de 2025). Tenho total confiança nele.
Ivan Lins — 80 Anos
- Nesta quinta-feira (13), às 21h, no Auditório Araújo Vianna (Av. Osvaldo Aranha, 685), em Porto Alegre
- Ingressos: a partir de R$ 160 (mediante doação de 1kg de alimento não perecível)
- Desconto de 50% para sócios do Clube do Assinante e um acompanhante
- Ponto de venda online (com taxa): plataforma Sympla
- Pontos de venda físicos (sem taxa): loja Planeta Surf Bourbon Wallig (Av. Assis Brasil, 2.611 – Loja 249), das 10h às 22h, somente em dinheiro; e na bilheteria do Araújo Vianna, que abre duas horas antes da apresentação, em dinheiro ou cartão


