O legado da Tequila Baby, uma das bandas mais importantes do rock no Rio Grande do Sul entre as décadas de 1990 e 2000, está em disputa na Justiça.
Em um processo, o guitarrista James Andrew busca retirar o vocalista Duda Calvin da sociedade Tequila Baby Produções Ltda., que tem ambos como únicos sócios. Em outra ação, James tenta impedir que Duda utilize símbolos da banda — como o mascote — nos materiais de divulgação de seus shows solo.
James sustenta que esses símbolos pertencem à história do grupo e à empresa, não podendo ser apropriados individualmente por um dos sócios, segundo seu entendimento.
Por sua vez, Duda argumenta que o vínculo com o grupo é intrínseco a sua trajetória e que o público faz essa associação "de forma automática".
Devido a divergências internas que começaram antes dos processos, a Tequila Baby está oficialmente em pausa nas atividades. Um possível retorno com Duda e James é improvável no momento. Tanto o guitarrista quanto o vocalista seguem carreiras solo tocando repertório da banda — não há impedimento legal para isso.
Três décadas encerradas em hiato

Com sucessos como Velhas Fotos, Melhor do que Você Pensa, Negue e 51, além de outros êxitos acumulados em seis discos de estúdio, o grupo porto-alegrense é lembrado como um dos principais nomes do punk rock no Estado.
A banda surgiu em 1991, tendo Duda como membro desde o primeiro momento. Porém, o grupo se consolidou a partir de 1995 com a formação contando também com James, Rodrigo Deltoro (baixo) e Didi Gloor (bateria).
Em 30 de novembro de 2021, Duda anunciou, em vídeo nas redes sociais, que a banda faria uma pausa:
— Estou aqui para falar, em nome da banda, que vamos estar em stand-by por tempo indeterminado. Devido à pandemia, nos obrigamos a procurar outras atividades, assim como muitos de vocês.
Desde então, o grupo nunca mais voltou. O último show foi realizado na live de comemoração aos 37 anos do bar Opinião, em 7 de novembro de 2020.
Divergências sobre o fim
Duda Calvin e James Andrew têm relatos diferentes sobre a pausa.
O vocalista sustenta que ele e James concordaram com a medida para "arrumar a casa" devido a um processo judicial que o ex-baterista Didi Gloor está movendo contra a banda (ele reivindica direitos de comercialização de produtos do grupo) e a desentendimentos com o produtor da época. Duda afirma que os dois haviam se reunido no Mercado Público um dia antes da publicação do vídeo e alinharam o anúncio.
James tem outra versão. Segundo ele, o vocalista comentou em uma reunião entre ambos que desejava dar um tempo porque queria cuidar da vida pessoal. No entanto, diz que a forma como Duda fez o anúncio fugiu do combinado.

Logo após assistir ao vídeo, James alterou as senhas dos perfis da Tequila Baby no Instagram e no Facebook. O acesso foi recuperado por Duda após uma ação judicial movida contra o guitarrista. Após um acordo, nenhum dos dois pode postar nada nos perfis da Tequila sem o consentimento da outra parte.
— Ele (Duda) estava colocando palavras na minha boca e na dos demais integrantes — queixa-se James. — Nada disso tinha sido acordado, era uma realidade que ele criou, que era oportuna a ele, pois logo já anunciaria carreira solo tocando músicas da Tequila Baby.
Para Duda, a relação que ele mantinha com James já estava desgastada antes da interrupção. O convívio, segundo o vocalista, era pautado por divergências constantes quanto aos direcionamentos do grupo:
— Era complicado. James é muito exigente, e havia uma discordância no trabalho. Eu gostaria de fazer algumas coisas na banda, mas ele não aceitava outras ideias que não partissem dele.

Reunião frustrada
Apesar das tensões, houve uma tentativa de reunião provisória em 2024 com a formação mais conhecida — que abrangeu o período entre 1995 e 2004 —, trazendo Duda Calvin, James Andrew, Rodrigo Deltoro e Didi Gloor. O objetivo seria pagar o processo movido pelo próprio Didi.
Porém, houve novo desentendimento: enquanto Duda queria apenas uma apresentação pontual, James sugeriu uma série de cerca de 10 shows. Nenhum ocorreu.
— Fiquei tentando uma coisa que nunca evoluiu — diz o guitarrista. — Era uma sensação de, talvez, dar murro em ponta de faca. Eu via o desinteresse da pessoa (Duda).
De sua parte, o vocalista afirma que "não tem clima" para subir ao palco com James:
— É uma questão de quem está contigo na trincheira. Não é grana, cara. Pode me oferecer meio milhão pra fazer cinco shows. Aí você olha para o lado, e o cara está atirando.
Proibição de uso do mascote da banda

Em abril deste ano, James Andrew ajuizou dois processos contra Duda Calvin.
Uma ação visa proibir o cantor de usar o mascote da banda na divulgação de seu trabalho solo e impedi-lo de registrar esse mascote em nome próprio — há um pedido de registro em nome de Duda no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) atualmente suspenso. James frisa que o boneco é um elemento distintivo da identidade visual do grupo, utilizado há décadas em capas de discos, cartazes e produtos oficiais. O mascote foi criado pelo ilustrador e chargista Gilmar Fraga.
O guitarrista obteve uma liminar que proíbe Duda de utilizar, reproduzir ou explorar economicamente o mascote em qualquer meio comercial ou publicitário, sob pena de multa de R$ 1 mil por dia de descumprimento. Duda interpôs recurso contra a liminar, mas a decisão foi mantida.
O processo aguarda decisão de mérito em primeira instância.
Processo busca retirada de sócio
A outra ação movida por James pede a dissolução parcial da sociedade, com a retirada de Duda da empresa Tequila Baby Produções Ltda., que tem ambos como únicos sócios.
James alega que o cantor paralisou a banda de forma unilateral e teria passado a lucrar sozinho com o nome do grupo em apresentações solo. Segundo a petição inicial, isso comprometeria a lealdade entre sócios.
O guitarrista obteve, em maio, liminar que determinava a remoção, em 24 horas, de qualquer publicidade que utilizasse expressões como "Duda Calvin da Tequila Baby" ou "vocalista da Tequila Baby", sob pena de multa diária de R$ 2 mil.
Duda conseguiu, em junho, a suspensão da liminar. A decisão avaliou que a restrição era muito severa para uma fase inicial do processo e que o músico não pode ser impedido de usar sua trajetória artística antes do julgamento definitivo. Com isso, o uso do nome segue permitido até que o mérito da exclusão do sócio seja decidido.
James entrou com recurso para reverter essa decisão. Essa liminar está sendo discutida em segunda instância.
Sem acordo
Já o processo principal de exclusão de Duda da Tequila Baby Produções Ltda., que segue no primeiro grau, está no prazo para apresentação da contestação. Houve uma audiência de conciliação em 24 de junho, mas nenhum acordo foi celebrado.
Diante das disputas legais, James sustenta:
— Eu quero o legado da banda intocado. As coisas da Tequila são da Tequila, sem confundir os fãs. Você não vê o Mick Jagger usando a língua dos Rolling Stones na carreira solo.
Duda discorda:
— Pergunta para o povo: "Quem você conhece da Tequila?". "Ah, o Duda." É o primeiro nome que vem. Ele (James) está tentando apagar a minha história.
O show continuou
Um dos episódios mais emblemáticos dessa disputa aconteceu no Ceva no Total, em 31 de maio. Acompanhado da banda The Punk Rockers, Duda Calvin era uma das atrações do segundo dia do evento. Pouco antes da apresentação, marcada para as 18h30min, o cantor foi surpreendido pela chegada de dois oficiais de Justiça: um no camarim e outro subindo a escada do palco.
O objetivo era garantir que não haveria o uso do mascote em banners, telões ou camisetas. Duda também não poderia fazer menção à Tequila Baby ou vestir roupas que contivessem citações à banda. O show foi realizado sem intercorrências.
Projetos individuais
Enquanto tramitam os processos, tanto Duda quanto James fazem carreiras solo tocando músicas da Tequila Baby em seus shows.
Duda diz que ambiciona lançar músicas novas e autorais, além de explorar diferentes possibilidades artísticas. Em junho, ele lançou uma versão de A Cera, da banda O Surto. Sobre a Tequila Baby, ressalta:
— Em nenhum momento falei em fechar a empresa, nem atentei contra ela. Mas não quero voltar a dividir o palco com James, porque perdi a confiança nele e, com isso, a química que tínhamos.
Por sua vez, James garante estar feliz compartilhando o palco com músicos que, como ele define, têm "idade para serem seus filhos".
Ele tem se apresentado com o projeto James Andrew y Los Cabrones, tocando um repertório de grupos e artistas que o influenciaram, como Ramones. Questionado sobre o futuro da Tequila Baby, pondera:
— Existe uma discussão judicial envolvendo a sociedade. Prefiro não antecipar o julgamento. Posso dizer que eu não quero acabar com a Tequila.



