Luz baixa. O silêncio que antecedeu a entrada de Carol Biazin no palco do Araújo Vianna durou poucos segundos. Logo foi interrompido pelos aplausos e gritos da plateia que lotou o tradicional auditório de Porto Alegre na noite desta sexta-feira (14).
Na primeira apresentação no espaço, a cantora e compositora paranaense não apenas celebrou a estreia diante de cerca de 3 mil pessoas, como também incorporou um dos símbolos mais tradicionais do Rio Grande do Sul ao espetáculo: pela primeira vez, preparou um chimarrão no palco e ofereceu a bebida a uma fã, que subiu para experimentar. Veja imagens.
O momento descontraído resumiu a relação que Carol constrói com a plateia na turnê acústica Nem Tão Pouco Assim. Em outro trecho especial da noite, a cantora apresentou uma música inédita que estará em seu próximo álbum, Assumo os riscos.
A turnê nasceu com a proposta de revisitar músicas de sua trajetória em novos arranjos, tendo o violão e a própria voz como protagonistas. No palco, a escolha por um formato mais intimista diminui a distância entre artista e plateia e valoriza a interpretação de cada canção.
Antes de subir ao palco, em entrevista para Zero Hora, Carol admitiu que a estreia no Araújo Vianna tinha um significado especial.
— Não existe uma frase para descrever. É, de fato, a realização de um sonho. Eu sempre tive uma relação muito profunda com o público de Porto Alegre. Eles realmente gostam muito de mim. Tô de coração cheio, tô nervosa, não vou fingir costume — contou.
O formato acústico também modifica a maneira como Carol percebe a reação dos fãs. Em vez da energia de uma apresentação com banda, em que a música costuma ser acompanhada por grandes arranjos e uma estrutura mais grandiosa, o espetáculo deixa espaço para o silêncio e para as vozes da plateia.
— É uma conexão direta com o fã. O silêncio existe muito mais, a galera canta comigo baixinho. Isso gera um lugar íntimo. É para ser a minha casa, a sala de casa, a poltrona, a forma como eu escrevo música. Eu me sinto à vontade. Então acredito que essa é a principal diferença dos shows com banda — explica.
No repertório apresentado em Porto Alegre, músicas como Amor Traumatizado, O Que Sobrou do Amor e Low Profile aparecem em versões que valorizam justamente essa proximidade.
A turnê acústica já passou por diferentes cidades brasileiras e retorna agora à estrada depois de uma primeira temporada marcada por apresentações esgotadas em teatros.
Do Paraná para os palcos do Araújo Vianna
A relação de Carol com a música começou ainda no interior do Paraná. Nascida em Campo Mourão, a cantora conta que começou a tocar violão aos oito anos, ainda na infância. Foi a partir dessa relação com o instrumento que começou a construir a artista que, anos depois, chegaria aos palcos de grandes teatros e festivais.
— Eu era uma menina muito nerd. Meu maior passatempo era tocar violão. Veio dali a vontade de trazer para as pessoas [a música] para além das camadas que eu posso agregar — relembra.
A trajetória ganhou projeção nacional em 2017, quando Carol participou do The Voice Brasil. Aos 20 anos, a paranaense chegou à final da sexta temporada do reality.
Porto Alegre, no entanto, já fazia parte da história da cantora antes mesmo de ela conquistar o público nacional. Em 2016, ainda no início da trajetória profissional, Carol saiu de Campo Mourão para viajar até a Capital gaúcha. A viagem durou cerca de 21 horas e tinha um objetivo: participar de uma audição para o The Voice. Ela não passou naquela primeira tentativa, mas a experiência permaneceu como uma memória afetiva.
A ligação com a cidade também passa pela família. O irmão de Carol estudou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde fez mestrado, o que contribuiu para aproximá-la ainda mais de Porto Alegre.
— Eu vim de Campo Mourão, foram 21 horas de viagem. Tenho essa memória afetiva com Porto Alegre — conta.
E há ainda uma lembrança que, para a cantora, parece inseparável da cidade:
— Além do tal do chimarrão — brinca Carol, que conta gostar da bebida e até manter o hábito no Paraná.
Na noite desta sexta-feira, a relação com o chimarrão ganhou uma nova cena: Carol preparou a bebida pela primeira vez e chamou uma fã ao palco para experimentá-la. Veja imagens.
A brincadeira se tornou um dos momentos de maior interação entre a cantora e a plateia durante o espetáculo.
Relação construída com o público gaúcho
Apesar de estrear no Araújo Vianna, Carol já passou por diferentes espaços e eventos do Estado. Em 2024, esteve no Planeta Atlântida e, em setembro de 2025, apresentou a turnê de seu terceiro álbum de estúdio, No Escuro, Quem É Você?, no Bar Opinião, em Porto Alegre, com ingressos esgotados.
A passagem pelo Estado também inclui apresentações futuras: a agenda oficial da cantora prevê shows em Pelotas, no Theatro Guarany, em 5 de setembro, e em Novo Hamburgo, no Teatro Feevale, no dia seguinte.
A conexão também ultrapassa os palcos. Carol mantém parcerias com artistas gaúchos, entre elas trabalhos com Luísa Sonza, e construiu uma base de fãs especialmente forte entre o público jovem e os ouvintes de pop e R&B. A trajetória iniciada no The Voice Brasil, somada à produção autoral e à presença nas redes sociais, fez com que a cantora ampliasse esse público ao longo dos últimos anos.
O encerramento da turnê terá um significado ainda mais pessoal. Em 11 de outubro, Carol retorna a Campo Mourão para uma apresentação gratuita na Praça São José, cidade onde cresceu e iniciou sua relação com a música.
Entre a menina que passava horas com o violão e a artista que agora lota teatros pelo país, Carol parece reconhecer que parte importante da trajetória está justamente nessa possibilidade de voltar às origens. Em Porto Alegre, diante de uma plateia que acompanhou diferentes momentos de sua carreira, a cantora encontrou no formato acústico uma maneira de fazer o caminho inverso: depois de conquistar grandes palcos, voltar para perto de quem sempre esteve ali.
E, na noite de estreia no Araújo Vianna, a casa cheia mostrou que, pelo menos para o público gaúcho, essa proximidade continua sendo recíproca.

