
A morte de Bagre Fagundes, aos 86 anos, neste domingo (2), faz lembrar uma das mais marcantes homenagens já prestadas à cultura gaúcha no Carnaval de Porto Alegre. Em 2013, a Embaixadores do Ritmo levou para a avenida do Complexo Cultural do Porto Seco o enredo Não Me Perguntes Onde Fica o Alegrete, inspirado na cidade da Fronteira Oeste e na obra da família Fagundes, unindo o samba ao tradicionalismo gaúcho.
A homenagem contou com a participação direta da família. Bagre Fagundes gravou a versão oficial do samba-enredo tocando sua tradicional gaita-ponto.
Na avenida, Neto Fagundes dividiu o microfone com o intérprete Farelo, enquanto Ernesto Fagundes desfilou ao lado da bateria do mestre Joubert tocando um bombo legüero microfonado, instrumento típico da música regionalista.
A comissão de frente também reforçou a identidade do enredo. Integrantes do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Grupo da Juventude, de Alegrete, abriram o desfile com danças tradicionais e pilchas, transformando a avenida em uma celebração da cultura do Rio Grande do Sul.
''Um dos sambas mais desafiadores''
Um dos autores da obra, Vinicius Brito, conta que a proposta exigiu levar para um samba-enredo elementos pouco comuns no Carnaval.
— Nos propusemos a utilizar termos da linguagem campeira, como "pago", "peleia", "rincão", "campeando", "querência" e "coxilha". Era algo incomum em um samba-enredo, mas fazia parte da identidade da história que queríamos contar — relembra.
Além do vocabulário regionalista, a composição também faz referências diretas às músicas dos Fagundes.
— O samba começa com "eu sei que não vou morrer", da canção Origens, utilizando a mesma melodia da música original. No quinto verso usamos novamente esse recurso com "qualquer guri vai achar". Fizemos referências de letra e melodia à obra dos Fagundes — explica.
Segundo Vinicius Brito, Neto e Ernesto acompanharam de perto a construção do samba e sempre demonstraram entusiasmo com a homenagem.
— Neto e Ernesto sempre elogiaram a obra e levaram a escola ao Galpão Crioulo. Foi um encontro muito bonito entre o samba e a música regionalista — lembra.
O tradicionalismo na avenida
Com aproximadamente 1,2 mil componentes, 15 alas e três alegorias, a Embaixadores do Ritmo, que enrolou a bandeira em 2017 e não desfila mais, contou a história de Alegrete e homenageou personagens ligados à cidade.
O encerramento do desfile reuniu a família na última alegoria, intitulada Galpão Fagundes, interpretando referências ao Canto Alegretense, uma das músicas mais emblemáticas da cultura gaúcha.
Na disputa daquele ano, a Embaixadores do Ritmo terminou o Carnaval de Porto Alegre na oitava colocação. O título ficou com Bambas da Orgia, mas o resultado acabou ficando em segundo plano.
Ao deixar a avenida, Bagre Fagundes resumiu o sentimento de quem viu o tradicionalismo gaúcho ganhar espaço na maior festa popular.
— Eu acho que, quando o presidente Gustavo Giró bolou esse enredo, ele sabia o que estava fazendo. O povo se animou, eu me animei. Eu me apaixonei pela escola. É uma simpatia, uma atenção… Eu me sinto muito bem ao lado dos carnavalescos — afirmou após o desfile.
Despedida
O governador Eduardo Leite informou que o velório de Bagre será no Palácio Piratini, na segunda-feira (3). A cerimônia será aberta ao público a partir das 10h.



